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XOLOCOTZI, Ángel; TAMAYO, Luis. Los demonios de Heidegger: eros y manía en el maestro de la Selva Negra. Madrid: Trotta, 2012.

Introdução

O extraordinário do ordinário: Eros e mania

1. O pensamento filosófico nasce da unidade entre corpo, alma e inteligência, envolvendo dor, paixão, alegria, consciência e destino, de maneira que as ideias não resultam de uma atividade impessoalmente mecânica, mas recebem toda a intensidade da vida que as produz.

2. A compreensão pré-socrática de ethos como morada humana permite pensar uma ética anterior à sua constituição disciplinar, pois a interpretação heideggeriana do fragmento de Heráclito reconhece nessa morada o acolhimento e a preservação do advento do daimon, situando o ser humano na proximidade do divino.

3. A presença de Heráclito aquecendo-se junto a um forno surpreende os visitantes que esperavam encontrá-lo em uma situação excepcional, mas sua afirmação de que também ali os deuses se fazem presentes convida a reconhecer o extraordinário na simplicidade da vida cotidiana.

4. A decepção dos visitantes decorre da expectativa de encontrar uma atitude rara, capaz de distinguir exteriormente o pensador das pessoas comuns, enquanto a necessidade de aquecer-se revela uma humanidade ordinária que parece frustrar o interesse pelo excepcional e exige outra maneira de compreender a presença dos deuses.

5. A imagem ocidental do filósofo associa frequentemente sua atividade criadora à ruptura com os padrões cotidianos e estende essa excepcionalidade à própria vida, supondo que o caráter extraordinário do filosofar deva manifestar-se continuamente em comportamentos incomuns, como esperavam os visitantes de Heráclito.

6. A humanidade habitual do pensador não deve ser excluída em favor de uma contemplação isolada de sua obra, pois, embora o filosofar constitua sua determinação específica, a experiência do extraordinário também exige atenção ao ordinário em que sua existência se realiza e no qual os deuses podem fazer-se presentes.

7. O filosofar somente se torna possível a partir da morada humana cotidiana, cuja familiaridade é aberta de maneira extraordinária pelo pensamento, de modo que o filósofo permanece um ser humano ordinário que descobre nessa própria condição uma presença irredutível à trivialidade, sem precisar buscá-la em um domínio separado da vida comum.

8. A relação entre ordinário e extraordinário pode ser deformada tanto pela mistificação que transforma todos os aspectos da vida filosófica em sinais de uma eleição excepcional quanto pelo reducionismo que converte o pensamento em simples expressão de trivialidades cotidianas, eliminando em ambos os casos a tensão constitutiva dessa relação.

9. O filósofo não abandona a habitualidade nem a transforma integralmente em algo excepcional, mas pressente seu fundamento e o interroga em seu caráter inabitual, de maneira que perguntar filosoficamente significa tornar estranho o familiar e reafirmar a permanência nele mediante uma compreensão transformada.

10. A superação da decepção diante da vida comum de um pensador permite reconhecer nela o espaço de manifestação do extraordinário, preservando sua humanidade e compreendendo-o como alguém que correspondeu à experiência do pensar sem convertê-lo em figura sobre-humana ou reduzi-lo à insignificância cotidiana.

11. A vida e a obra de Heidegger tornam particularmente necessária a investigação dessa relação, tanto pela amplitude de sua influência filosófica quanto pelas controvérsias biográficas, especialmente acerca do nacional-socialismo, pois a publicação de fontes inéditas modifica sua imagem e revela uma complexidade humana que permite reconsiderar o pensamento a partir da habitualidade anteriormente deixada à margem.

12. A mistificação de Heidegger resulta da transformação de todos os seus atos em acontecimentos filosoficamente extraordinários, apagando o caráter ordinário de sua existência e interpretando até sua permanência em Todtnauberg e suas relações com os camponeses como manifestações imediatas de uma excepcionalidade pensante.

13. A imagem de um iniciado nas montanhas da Floresta Negra fortaleceu o mito de que Ser e tempo teria surgido essencialmente da tranquilidade de Todtnauberg, consolidando a representação de um filósofo reservado e antissocial que viveria afastado do mundo comum.

14. A publicação das primeiras preleções de Friburgo e Marburgo revela que Ser e tempo resulta de mais de doze anos de trabalho docente, de confronto com pensadores contemporâneos e de investigação da tradição de Aristóteles a Kant, mostrando que sua elaboração depende de uma atividade intelectual contínua e documentável, e não de uma inspiração isolada nas montanhas.

15. A extraordinária capacidade de trabalho não esgota a existência de Heidegger, pois as novas fontes revelam também seus sonhos, manias e paixões pelo futebol e pelas mulheres, permitindo reconstruir uma imagem humana que reconheça o ordinário no extraordinário sem trivializar sua biografia.

16. A investigação da presença dos deuses na vida de Heidegger oferece uma via para compreender a relação entre a habitualidade humana e a excepcionalidade do pensamento, tomando a experiência vivida como lugar dessa articulação.

17. A mania platônica designa uma exaltação ou possessão na qual o ser humano ultrapassa o domínio ordinário de si por intermédio de um daimon, mediador entre deuses e homens, de maneira que Eros e as experiências do enamorado, do profeta, do poeta inspirado e do amante da sabedoria expressam uma abertura em que o divino fala através da existência humana.

18. Eros ultrapassa os limites da sensatez e das regras estabelecidas de convivência, provocando uma mania que, embora possa ser julgada desmedida ou vergonhosa, possui em Platão o caráter de dom divino, pelo qual a experiência excede o ordinário e torna possível descobrir algo propriamente humano.

19. Eros e mania constituem modos pelos quais a presença dos deuses pode ser reconhecida na habitualidade de Heidegger, permitindo compreender a excepcionalidade do pensador a partir de seu enraizamento na vida cotidiana.

20. A investigação filosófica e historiográfica de Eros e mania na vida de Heidegger apoia-se em pesquisas realizadas em Friburgo, no trabalho direto com arquivos e no acesso a fontes inéditas, procurando substituir a especulação sobre aspectos obscuros por uma reconstrução documentalmente sustentada.

21. A primeira parte resulta da pesquisa de Ángel Xolocotzi durante um estágio de pós-doutorado apoiado pela Fundação Alexander von Humboldt, apresentada inicialmente em Pádua por convite de Franco Volpi e desenvolvida mediante consulta ao arquivo universitário de Friburgo, revisão de traduções e contribuições críticas destinadas ao aperfeiçoamento do manuscrito.

22. A segunda parte deriva das pesquisas de pós-doutorado de Luis Tamayo em Friburgo, apoiadas pelo KAAD e pelo DAAD, e teve uma primeira apresentação pública em 2006, em Meßkirch, em uma conferência sobre o papel da crise de Heidegger de 1945–1946 na constituição de sua experiência do pensar, posteriormente enriquecida por comentários de diferentes interlocutores.

23. A publicação das fotografias dependeu das autorizações concedidas pelo arquivo universitário de Friburgo, por Gertrud Heidegger, Rainer Fink, François Fédier e Silvio Vietta, integrando a colaboração documental necessária à realização da pesquisa.

24. O apoio de Franco Volpi foi decisivo para a publicação das investigações, tanto pela redação do prólogo quanto pela autorização para incluir duas entrevistas, de maneira que sua morte em abril de 2009 transforma também a obra em homenagem à amizade, à generosidade e à contribuição filosófica que acompanharam sua elaboração.

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