Vida Fática
XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Fenomenología de la vida fáctica: Heidegger y su camino a Ser y tiempo. México: Univ. Iberoamericana, 2004.
Introdução
A vida fáctica e as primeiras preleções de Martin Heidegger em Friburgo
§ 1. A pergunta pelo “acesso” à vida fáctica
1. A interpretação de Ser e tempo continua necessária porque sua exposição densa articula questões anteriormente desenvolvidas e investigações apenas anunciadas, produzindo aparentes lacunas que a publicação das preleções e dos seminários permite esclarecer ao restituir o contexto filosófico pressuposto na obra de 1927.
2. A pergunta pela vida fáctica constitui uma questão fundamental para compreender Ser e tempo e a chamada reabilitação da filosofia prática, cujo alcance ultrapassa tanto a oposição à teoria quanto uma delimitação ética, abrindo, mediante o confronto com Dilthey, Rickert, Husserl e Aristóteles, a possibilidade de uma problematização filosófica ateorética.
3. A investigação da vida fáctica exige reconhecer tanto seu caráter de ponto de partida do pensamento heideggeriano quanto a dificuldade de torná-la acessível, de maneira que sua tematização começa necessariamente pela pergunta pelo próprio acesso.
4. O acesso fenomenológico-hermenêutico procura fazer ver aquilo que se mostra a partir de si mesmo, distinguindo a reflexão husserliana sobre os atos da compreensão explicitante heideggeriana, cujo logos possui caráter hermenêutico e exige esclarecer sua especificidade diante do procedimento reflexivo.
5. A fenomenologia husserliana constitui uma condição decisiva para compreender a transformação hermenêutica realizada por Heidegger, pois lhe oferece o acesso aos fenômenos que permite desenvolver uma investigação própria em diálogo com Lutero, Aristóteles e Kierkegaard, tornando o distanciamento em relação à reflexão inseparável dessa apropriação originária.
6. A pergunta pela vida fáctica deve ser compreendida como início e origem, e não como simples começo posteriormente abandonado, pois sua força se manifesta no desenvolvimento que conduz a Ser e tempo e permanece operante em aspectos do pensamento posterior do Ereignis.
7. O esclarecimento do acesso à vida fáctica exige primeiro situar as preleções no percurso heideggeriano e, em seguida, distinguir ciência rigorosa e ciência pré-teorética, intuição reflexiva e hermenêutica, tratamento conceitual e indicações formais, para explicitar os movimentos de redução, reconstrução e destruição fenomenológico-hermenêuticas e avaliar sua relação com Ser e tempo e com o pensamento posterior.
8. A concentração no problema do acesso deixa outras questões abertas, preservando a possibilidade de novas investigações em preleções cuja riqueza filosófica ainda oferece caminhos pouco explorados.
§ 2. As primeiras preleções em Friburgo: a caminho de Ser e tempo. Reflexões sobre sua publicação
a) Consideração da fonte e do programa filosófico como indicadores na investigação
1. A pergunta heideggeriana pelo ser perde sua radicalidade quando é subordinada a classificações como existencialismo, filosofia da vida ou filosofia transcendental, sobretudo quando a existência humana é isolada da pergunta pelo ser em geral e deixa de ser compreendida em sua copertença constitutiva com ela.
2. A existência transforma o fio condutor da investigação ontológica ao substituir a determinação do humano como animal racional pela compreensão do Dasein como abertura simultânea de seu próprio ser e do ser em geral, fazendo da analítica existencial uma preparação para uma pergunta que não se esgota na existência humana.
3. A possibilidade de evitar interpretações parciais exige considerar tanto as condições estruturais da compreensão, próprias de uma hermenêutica filosófica, quanto a disponibilidade e a articulação das diferentes configurações da obra interpretada, correspondentes à dimensão técnica da hermenêutica.
4. Uma interpretação adequada deve reunir a investigação das possibilidades humanas de compreender e o exame das condições materiais e textuais de acesso à obra, evitando que a atenção a apenas uma dessas dimensões comprometa a compreensão do pensamento.
5. A interpretação torna-se unilateral quando atribui alcance total a uma parte isolada da obra e, com isso, encobre sua questão fundamental, exigindo esclarecer se a superação dessa limitação depende de uma apreensão integral ou de outro modo de acesso.
6. A reunião de múltiplos aspectos não garante uma interpretação adequada, pois o decisivo consiste em reconhecer o lugar de cada investigação no nexo interno do percurso filosófico, como mostra a leitura existencialista que transforma a analítica preparatória do Dasein em finalidade última e perde sua orientação para o sentido do ser.
7. A interpretação atenta ao lugar das questões depende do acesso às diferentes configurações da obra, encontrando um limite factual quando os textos permanecem indisponíveis ou são conhecidos apenas parcial e indiretamente, circunstância que favorece a unilateralidade.
8. A disponibilidade integral dos escritos também não assegura a compreensão, pois a abundância documental pode produzir dispersão quando falta um acesso metódico capaz de reconhecer a questão fundamental e a articulação interna do pensamento.
9. A pergunta fundamental de um pensador deve ser reconhecida como problema explicitamente formulado e como princípio de um programa filosófico, entendido como desenvolvimento possível de uma questão, e não como simples reunião de ideias independentes.
10. As interpretações de Dilthey e Heidegger foram prejudicadas tanto pela publicação incompleta de suas obras quanto pelo esquecimento de seus programas filosóficos, favorecendo classificações que os reduziam, respectivamente, a historiador assistemático e a filósofo da vida ou existencialista.
11. O programa diltheyano de fundamentação teórica das ciências do espírito permaneceu operante apesar da publicação tardia de sua parte sistemática, mostrando que as interpretações centradas exclusivamente nos escritos históricos confundiram uma limitação editorial com abandono filosófico e produziram classificações unilaterais como irracionalismo, psicologismo e historicismo.
12. A elaboração de Ser e tempo resulta de um longo confronto com a tradição e com os contemporâneos, orientado para a pergunta pelo ser em sua pertença à existência humana, cuja permanência em diferentes configurações constitui o programa heideggeriano e impede reduzi-lo às classificações derivadas de leituras isoladas dos textos publicados.
13. As preleções anteriores a Ser e tempo oferecem um acesso às discussões que prepararam a formulação densa da pergunta pelo ser, permitindo compreender essa questão a partir da investigação do modo de ser daquele que pergunta.
14. A apresentação autobiográfica de 1922 explicita a importância das primeiras preleções como desenvolvimento de uma investigação filosófica sistemática da vida fáctica.
15. A interpretação fenomenológico-ontológica da vida fáctica procura compreender seu sentido histórico e determinar seus comportamentos fundamentais no trato com o mundo circundante, o mundo compartilhado e o mundo próprio, tornando essas dimensões constitutivas de sua elaboração categorial.
16. O acesso direto às primeiras preleções deve articular-se à interpretação de seu programa filosófico, permitindo investigar a pergunta pelo ser em sua pertença à essência humana compreendida como Dasein ou vida fáctica.
b) O lugar das preleções de Heidegger em seu pensamento
1. A publicação das primeiras preleções de Friburgo torna necessário esclarecer tanto sua posição no pensamento heideggeriano e na fenomenologia quanto os procedimentos editoriais e interpretativos pelos quais elas se tornam acessíveis.
2. As preleções apresentam uma incompletude documental, relacionada à diversidade dos manuscritos e das anotações dos ouvintes, e outra contextual, vinculada à interpretação, embora a existência de registros extensos e sistemáticos permita distinguir fontes insuficientes de testemunhos capazes de restituir amplamente a exposição oral.
3. As preleções devem ser situadas como preparação, transição ou complemento em relação à pergunta pelo ser, cujas duas configurações centrais encontram expressão em Ser e tempo e nas Contribuições à filosofia, evitando tratá-las como textos inteiramente independentes de seu percurso.
4. As primeiras preleções de Friburgo e as de Marburgo constituem um estar a caminho de Ser e tempo, marcado por interrupções, desvios e aproximações indiretas que somente retrospectivamente permitem reconhecer a direção da investigação.
5. As preleções de transição tornam visível a passagem entre ontologia fundamental e pensamento histórico do ser, como ocorre com Introdução à metafísica, apresentada como um texto capaz de esclarecer o caminho entre Ser e tempo e Caminhos de floresta.
6. As preleções complementares desenvolvem questões de uma obra central ou esclarecem passagens condensadas, como Os problemas fundamentais da fenomenologia em relação ao projeto de Ser e tempo e Introdução à filosofia em relação à transcendência e à copertença entre compreensão de mundo e compreensão de ser.
7. A interpretação das primeiras preleções como preparação exige preservar os impulsos centrais que articulam retrospectiva e prospectivamente o percurso, evitando reconstruí-lo como uma sequência de conteúdos isolados comunicados em diferentes cursos.
8. A posição de Ser e tempo como perspectiva central somente pode ser esclarecida mediante a distinção dos sentidos pelos quais esse título designa uma publicação, um projeto e uma orientação filosófica.
9. Ser e tempo significa, em sentido estrito, as duas seções publicadas em 1927; em sentido amplo, a totalidade do projeto anunciado; e, em sentido mais amplo, a copertença transcendental-horizontal entre ser e Dasein que caracteriza a ontologia fundamental.
10. A transcendência designa o movimento pelo qual o Dasein se relaciona com o ser em geral, enquanto o horizonte indica a relação do ser com o Dasein, articulando a abertura extática da existência e a abertura horizontal do ser dos entes que não possuem esse modo de ser.
c) O significado de Ser e tempo para a interpretação do pensamento inicial de Heidegger
1. A posição central de Ser e tempo exige enfrentar tanto as interpretações de sua publicação como improvisação ou fracasso quanto a questão de sua incompletude diante do projeto originalmente anunciado.
2. As circunstâncias especiais da publicação suscitam a dúvida sobre a legitimidade de reconhecer nessa obra uma perspectiva filosófica central, especialmente quando sua elaboração é descrita como resultado de uma improvisação.
3. A publicação apenas das duas primeiras seções da primeira parte exige esclarecer por que o projeto completo não foi realizado na forma inicialmente prevista e qual o alcance filosófico dessa interrupção.
4. A caracterização de Ser e tempo como improvisação ou fracasso tende a transformá-lo em expressão enfraquecida de uma filosofia anterior, desconsiderando seu lugar central na elaboração ontológico-fundamental da questão do ser.
5. A interpretação gadameriana considera a publicação rapidamente organizada e marcada por uma retomada da autocompreensão transcendental husserliana, atribuindo maior profundidade às intenções anteriores e diminuindo a centralidade filosófica do tratado.
6. A interpretação de Figal procura sustentar o fracasso de Ser e tempo mediante testemunhos epistolares de Heidegger, exigindo examinar o contexto em que essas avaliações foram formuladas.
7. A afirmação dirigida a Max Kommerell de que Ser e tempo fracassou pertence a uma consideração mais ampla segundo a qual toda exposição direta de um pensamento sério fracassa, distinguindo sua realização da atuação imediata do poeta.
8. O isolamento da afirmação sobre o fracasso de Ser e tempo elimina seu contexto e transforma uma determinação geral da exposição filosófica em julgamento específico sobre a inviabilidade do projeto de 1927.
9. A correspondência com Elisabeth Blochmann oferece outro testemunho da autocrítica heideggeriana e da transformação de sua compreensão da questão central do tratado.
10. A releitura crítica de Ser e tempo permite reconhecer uma imprudência anteriormente despercebida e exige recolocar sua pergunta de maneira mais originária e menos dependente das determinações contemporâneas, sem que essa transformação implique negar a importância do percurso realizado.
11. A imprudência reconhecida por Heidegger deve ser compreendida como resultado de um esclarecimento da pergunta e como exigência de reinterpretá-la, em vez de constituir prova de fracasso.
12. A passagem da ontologia fundamental ao pensamento do Ereignis conserva a mesma pergunta sob outra perspectiva, tornando necessário esclarecer a relação entre essas duas configurações para compreender adequadamente a autocrítica.
13. A determinação editorial de publicar as preleções ontológico-fundamentais antes das Contribuições à filosofia corresponde à relação indicada na carta a Richardson, segundo a qual o segundo momento somente se torna acessível a partir do primeiro, enquanto este encontra sua possibilidade mais originária naquele.
14. A distinção entre primeiro e segundo Heidegger não designa duas perguntas independentes, mas duas perspectivas de uma questão cuja formulação inicial somente pode ser reconsiderada a partir de sua transformação posterior.
15. A condição fragmentária de Ser e tempo também é utilizada como argumento de fracasso, exigindo investigar as circunstâncias concretas da publicação e distinguir a incompletude editorial de uma avaliação filosófica do projeto.
16. A correspondência com Jaspers mostra que a impressão do tratado começou em abril de 1926, apoiada em elaborações anteriores, e que sua extensão inicialmente prevista foi progressivamente ultrapassada, enquanto partes do trabalho já circulavam em provas definitivas.
17. A interrupção da impressão durante o verão de 1926 foi acompanhada de uma reelaboração e da necessidade de dividir um trabalho que havia se tornado mais extenso do que o planejado.
18. A reelaboração não atingiu indistintamente todo o tratado, pois parte dele já estava em impressão definitiva e sua estrutura básica foi preservada, enquanto o crescimento do manuscrito conduziu à separação entre as seções publicadas e aquilo que ainda deveria completar o projeto.
19. A ausência de publicação do restante exige considerar os esclarecimentos posteriores de Heidegger sobre a insuficiência da terceira seção e sobre as dificuldades de sua exposição.
20. A decisão de interromper Tempo e ser decorreu do reconhecimento, intensificado pelas discussões com Jaspers em dezembro de 1926, de que a elaboração disponível dessa seção central permaneceria incompreensível.
21. A terceira seção não foi publicada porque o pensamento não conseguiu expressar a viragem com alcance suficiente nem superar essa dificuldade mediante a linguagem da metafísica.
22. A interrupção possui um motivo técnico, relacionado à extensão, e outro filosófico, ligado à insuficiência do dizer, mas essa insuficiência diz respeito à perspectiva de transcendência e horizonte, sem invalidar as estruturas do Dasein descobertas na investigação.
23. A interpretação transcendental-horizontal articula o projeto lançado da existência e a abertura do ser dos entes que não são Dasein, mas sua posterior insuficiência exige abandonar essa perspectiva específica, preservando a possibilidade de reinterpretar os resultados da analítica e da pergunta pelo ser em geral.
24. A não publicação da terceira seção não a exclui de Ser e tempo em sentido amplo, pois sua primeira redação foi destruída e seu projeto recebeu uma nova elaboração na preleção de 1927, Os problemas fundamentais da fenomenologia.
25. A transformação posterior preserva as estruturas fundamentais da investigação e altera sua perspectiva, permitindo compreender Ser e tempo como uma articulação complexa que permanece necessária mesmo após o abandono do horizonte transcendental.
26. A retirada da indicação de primeira metade nas edições posteriores reconhece que a continuação já não poderia ser acrescentada sem reformular a exposição anterior, embora o caminho de Ser e tempo continue necessário para que a pergunta pelo ser mobilize a existência.
27. A investigação apresentada em Ser e tempo permanece, assim, um percurso indispensável à reformulação da mesma questão no pensamento do Ereignis.
28. As interpretações evolucionistas de Gadamer e Figal compreendem a passagem das primeiras preleções ao tratado como um desenvolvimento descendente e, por isso, atribuem às preleções uma filosofia própria que deveria ser lida independentemente de Ser e tempo.
29. A interpretação pluralista de Pöggeler rejeita uma continuidade ascendente ou descendente e distribui o pensamento heideggeriano em etapas ou caminhos distintos, fazendo das primeiras preleções apenas uma possibilidade entre outras.
30. A consideração das preleções como tentativa autônoma de elaborar uma hermenêutica de indicação formal como lógica da filosofia apoia-se no lema caminhos, não obras, mas exige esclarecer se a pluralidade das configurações significa efetivamente independência dos percursos ou diferentes perspectivas de uma mesma tarefa.
d) O caminho filosófico de Heidegger em relação às suas obras
1. A passagem da recusa de uma edição integral, expressa a Arendt em 1972, à decisão de estabelecer suas diretrizes revela a importância atribuída por Heidegger à relação entre obra e pensamento, bem como sua intenção de conceber uma edição diferente dos modelos que conhecia.
2. O sentido das diretrizes editoriais consiste em despertar a discussão sobre a questão do pensamento, cuja permanência se realiza como caminho da pergunta pelo ser, articulando diferentes configurações de uma mesma tarefa em vez de simplesmente reunir posições filosóficas independentes.
3. A multiplicidade dos volumes deve testemunhar a permanência da questão do ser e estimular sua retomada, subordinando a consideração filológica à possibilidade de acompanhar o caminho do perguntar e preservando, nas primeiras preleções, seu caráter de preparação para uma elaboração posterior.
e) Uma consideração adequada da gênese de Ser e tempo
1. A investigação da gênese das primeiras preleções exige distinguir o surgimento filosófico de Ser e tempo de uma história de sua elaboração conceitual, pois o reconhecimento de seu caráter de caminho depende de sua relação com aquilo para o qual se orienta.
2. A reconstrução genética perde sua orientação quando não esclarece previamente aquilo que pretende explicar, tornando necessário compreender os inícios a partir de sua realização em Ser e tempo e evitar a redução da investigação a uma soma de influências ou direções históricas.
3. A filosofia não se torna acessível pela simples identificação das fontes de suas formulações, pois cada pensador precisa assumir por si mesmo o trabalho das questões fundamentais, cuja realização não pode ser substituída por explicações externas de procedência.
4. A investigação da gênese deve conservar a concreção filosófica para a qual o percurso se dirige, impedindo que a reunião de passagens e influências substitua a compreensão do sentido e da problemática do filosofar.
5. A história conceitual permanece insuficiente quando privilegia a semântica e a datação dos termos sobre o movimento do pensamento, pois os conceitos devem ser compreendidos como indicações formais orientadas para os fenômenos, preservando a prioridade destes sobre sua formulação terminológica.
6. As interpretações evolucionistas e pluralistas convergem ao conferir independência às primeiras preleções e tratá-las como obras acabadas, enquanto um acesso fenomenológico adequado exige preservá-las em seu caráter efetivo de estar a caminho de Ser e tempo.
