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Seminários de Thor (1966, 1968, 1969 e 1973)
- Origem amistosa e improvisada dos seminários: Os seminários do Thor não foram planejados como eventos acadêmicos, mas surgiram de modo improvisado a partir da visita de Heidegger a seu amigo René Char, em 1966, para conhecer a região da Sorgue. Hospedado no Hotel du Chasselas, no Thor, Heidegger, em atmosfera de férias, iniciou conversações matinais no jardim com Jean Beaufret, François Fédier e outros, centradas na leitura de Heráclito e Parmênides. A partir deste diálogo espontâneo, que incluía passeios e visitas aos arredores com Char, consolidou-se a forma de um “seminário”. Apenas ao final desta primeira estada percebeu-se que um trabalho seminal havia ocorrido, marcado pela paisagem e luz do Vaucluse, que se tornaram parte integrante da reflexão.
- Estrutura e método dos seminários subsequentes: Em 1968, já com um formato mais definido a pedido dos participantes, realizou-se um seminário dedicado ao início do texto de Hegel sobre a Diferença entre os Sistemas de Fichte e Schelling. Trabalhava-se todas as manhãs, com um protocolo lido no início de cada sessão para garantir continuidade. Heidegger estabeleceu desde o início que “não há outra autoridade aqui senão a coisa mesma”, privilegiando o exercício fenomenológico direto sobre a leitura acumulativa. Um aspecto crucial era a tradução simultânea e a discussão minuciosa dos termos entre alemão e francês, que Heidegger acompanhava com extremo cuidado, descobrindo nuances de ambas as línguas e insistindo na simplicidade da interrogação.
- O caráter fenomenológico e a presença de Husserl: Heidegger enfatizava constantemente a necessidade de “exercícios fenomenológicos”, considerando-os mais importantes do que a mera exegese textual. Sua maneira de evocar Husserl era vívida e pedagógica, transmitindo a paixão do mestre pela intuição categorial (kategoriale Anschauung) das Investigações Lógicas—momento em que “o ser aparece pela primeira vez desde o nascimento da filosofia como um dado e não como uma abstração”. No seminário de Friburgo de 1973 (o “seminário do Thor de Friburgo”), essa questão foi retomada: enquanto Husserl tomava o “é” como evidente, Heidegger fazia dele a pergunta central. O trabalho era, assim, um aprendizado do olhar que precede e funda qualquer doutrina.
- Conclusão e legado: Os seminários do Thor representam uma modalidade única de transmissão do pensamento: sem hierarquia rígida, em diálogo íntimo com a paisagem e a poesia (de Char e Hölderlin), e num intercâmbio linguístico que tornava sensível a diferença das línguas. Eles não visavam produzir um conhecimento, mas exercitar o acesso “à coisa mesma”. A dedicação de Acheminement vers la parole a René Char simboliza este laço entre pensamento, poesia e amizade que definiu esses encontros. Mesmo quando transferido para Friburgo em 1973, o “espírito do Thor”—de simplicidade, rigor e abertura ao fenômeno—continuou a orientar o trabalho.
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