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estudos:vezin:fenomeno

Fenômeno (phainomenon)

LDMH

  • O fenômeno como conceito grego e fundamento da fenomenologia: A palavra “fenômeno” (phainomenon) é, como observou Levinas, “arquigrega”. Ela designa o aparecente, aquilo que se mostra, se manifesta ou brilha (como os astros em Aratos). Heidegger, aprendendo com Husserl a “ver” fenomenologicamente, radicaliza esta noção: a fenomenologia não é apenas uma ciência do que aparece imediatamente, mas o esforço para fazer ver aquilo que, sendo constitutivo do aparecente, ele mesmo se furta à mostra imediata. Em Ser e Tempo, o fenômeno “em sentido privilegiado” é definido precisamente como “algo que, em primeiro lugar e na maioria das vezes, não se mostra justamente”, que está “em recuo”, mas que, ao mesmo tempo, “constitui o sentido e o fundamento” daquilo que vulgarmente aparece. Esta dupla estrutura—o que se mostra e o que, no se mostrar, se retrai—remete à essência da verdade como aletheia (desvelamento que preserva o velamento). A fenomenologia torna-se, assim, uma “aletheiologia”, um acesso ao desvelamento do ser.
  • A escuta grega e a transformação heideggeriana: Heidegger insiste na proveniência grega do termo para recuperar uma experiência originária do ser, na qual ta phainomena (os fenômenos) e ta alethea (os desvelados) são praticamente intercambiáveis, como em Aristóteles. O fenômeno, em seu aparecer, tem algo de irrecusável—a sensação é sempre “verdadeira” no sentido de que é um acesso direto ao que se apresenta. No entanto, a tradição metafísica posterior teria obscurecido esta conexão, separando aparência e essência. A tarefa da desobstrução (Destruktion) é justamente reabrir o acesso a este fenômeno que se retrai: o ser do ente, que não é um ente, mas que se dá a entender apenas através do ente que aparece.
  • O fenômeno como tarefa do pensamento: A máxima “às coisas mesmas” (zu den Sachen selbst) significa, portanto, um retorno não aos objetos empíricos, mas ao fenômeno em seu duplo aspecto: o que aparece e o que, no aparecer, se sustenta e se retrai. Isto exige um “ver” que não é uma mera observação empírica, mas uma interpretação (Auslegung) que desvenda as estruturas do Dasein a partir das quais o ente pode se manifestar como tal. O “jardim de infância fenomenológico” do qual falava Heidegger é este aprendizado rigoroso do olhar, que desfaz os preconceitos e as camadas de interpretação herdadas, para deixar o fenômeno—o próprio daquilo que é—mostrar-se a partir de si mesmo. Só assim o pensamento pode aspirar a ser uma resposta à interpelação do ser.
  • Consequências para a filosofia: Ao definir a fenomenologia como o método da ontologia, Heidegger desloca radicalmente o sentido da filosofia. Ela não é mais uma teoria sobre o mundo ou uma epistemologia, mas o exercício de um deixar-ver que é, ao mesmo tempo, um deixar-ser. O fenômeno, neste sentido privilegiado, é o ser do ente—aquilo que, sendo sempre pressuposto, nunca se torna objeto de uma intuição direta, mas que se anuncia na compreensão que o Dasein tem de seu próprio ser e do ser dos outros entes. A tarefa do pensamento é, portanto, manter-se na abertura desta diferença, cultivando um olhar que sabe ver, no que se mostra, o jogo do revelar e do ocultar que é a verdade do ser.
estudos/vezin/fenomeno.txt · Last modified: by mccastro