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Vida (Leben)
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Vida como fenômeno originário e ciência originária: Nos primeiros escritos fenomenológicos (1919-1920), Heidegger desenvolve uma “ciência originária da vida” (Urwissenschaft des Lebens), cujo tema central é a “vida fática” (faktisches Leben). Esta vida não é um turbilhão caótico ou um princípio dinâmico irracional, mas “o que é, simplesmente enquanto forma concreta e portadora de sentido”. O vivido (das Erlebte) é, assim, fenômeno, e o experimentado (das Erfahrene) tem o sentido de existência. A vida fática constitui efetivamente o “mundo” do eu, encontrando-se em seu fluxo e corrente todas as ocorrências mundanas. Heidegger rejeita aqui explicitamente as concepções da então influente “filosofia da vida” (Lebensphilosophie), recusando qualquer redução biológica ou irracionalista. Como fenômeno originário (Urphänomen), a vida apresenta duas “linhas de significação”: como objetivação, dar forma, pôr-fora-de-si (espontaneidade) e como vivenciar, experimentar, apanhar (reatividade).
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Transição para a analítica do Dasein: Já em 1920-21, Heidegger transfere esta concepção para a autocompreensão da filosofia, afirmando que a filosofia brota da “experiência fática da vida” e a ela deve retornar. Este conceito só se torna inteligível a partir do conceito do “histórico”. Sob a crescente influência de Aristóteles, a partir de 1923, a vida é reinterpretada como “um modo do 'ser'”; a “vida fática” passa a designar “nosso existir [Dasein] como 'lá' segundo uma explicitação ontológica, seja ela qual for, de seu caráter de ser”. A ciência originária da vida transforma-se, assim, na analítica do Dasein de Ser e Tempo, onde a facticidade (Faktizität) é a “factualidade do fato do Dasein, fato que é a cada vez cada Dasein”.
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Crítica da filosofia da vida e da metafísica da animalitas: Após Ser e Tempo, o conceito de vida torna-se progressivamente alvo de crítica. No curso de 1929-30 sobre os Conceitos Fundamentais da Metafísica, Heidegger rejeita as filosofias da vida de Spengler, Klages, Scheler e Ziegler, que opõem vida e espírito como componentes do homem. Para Heidegger, tal caracterização antropológica é insustentável. Nos Contributos à Filosofia, a vida é rebaixada a um elemento conceitual da subjetividade moderna, contraparte (Gegenstück) da “razão”. Na “vivência” (Erleben), o ente, enquanto representado, é referido a si como meio onde tal relação ocorre, sendo assim “integrado na 'vida'”. O “vivenciado” (das Erlebnis) torna-se um correlato da Machenschaft (maquinação).
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O homem como ser vivo versus o mortal: A crítica culmina na constatação de que, na metafísica, mesmo quando define o homem como animal rationale, é a animalitas (a condição de ser vivo) que prevalece. Como Heidegger afirma na primeira das Conferências de Bremen (GA79 1949), o “ser humano” continua determinado, como “ser vivo” (Lebewesen), “a partir da vida e do vivido”. O que está em jogo, contudo, é precisamente que os homens se tornem “os mortais” (die Sterblichen), ou seja, que assumam a morte não como término biológico, mas como o horizonte que lhes concede a finitude e a possibilidade de habitar poeticamente o mundo, superando a determinação metafísica que os prende à animalidade.
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