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Segredo (Geheimnis)
- O segredo (Geheimnis) é pensado por Heidegger como o “abrigo no recuo do que se abriga”, pertencendo, enquanto tal, à essência da verdade (Un-wesen) de modo antecipador. O termo alemão, ouvido em sua composição (o movimento -nis daquilo que se reúne -ge- em seu lar -heim), designa o movimento que reúne a verdade em sua morada, a saber, o próprio abrigamento. Este recuo abrigador (a lethe no coração da aletheia) constitui o Dasein do homem, sua abertura mais íntima. O esquecimento deste segredo—o “segredo esquecido do Dasein“—equivale ao esquecimento do ser em favor do ente, forçando o homem histórico a restringir-se aos “afazeres correntes e seus agenciamentos”, numa fuga para a “agitação” (Umgetriebenheit) que é, em sua essência, “errância” (Irren).
- A dimensão da erronia (die Irre): esta erronia só é possível porque o Dasein, em sua abertura flagrante ao ser, habita originariamente a dimensão da “erronia”. Mais fundamental que o erro, a erronia é o âmbito que, ao mesmo tempo que “desvia” (beirrt) o homem, lhe concede a possibilidade de não se deixar desviar, experimentando-a como tal e não se equivocando sobre o segredo do Dasein. A “abertura resoluta para o segredo” (die Ent-schlossenheit zum Geheimnis) é, assim, a atitude que, no interior da erronia reconhecida, permite o surgimento da questão filosófica do ser. Toda filosofia é, nesse sentido, um modo de se resolver e se abrir para o segredo.
- O segredo na história do ser e a eschatologia: Nos escritos posteriores, especialmente nos Contributos à Filosofia e em Besinnung, o segredo é interpretado no horizonte da história do ser. Ele é o “segredo da Ereignung”, da apropriação avenente, intimamente ligado à questão do “deus extremo” (der letzte Gott) que habita seu centro. Este deus faz sinais, e no seu modo de sinalizar reside o segredo da “unidade da aproximação mais íntima na extrema distância”. O segredo é, portanto, origem do “longínquo” onde se decide se o deus se afasta ou se aproxima, situando-se no cerne do que Heidegger chama a “escatologia do ser”. O homem, por sua vez, é ele mesmo um “incessante segredo”, não no sentido antropológico, mas como o abrigo no recuo onde ele é endereçado à verdade do ser (o Seyn), espaço de jogo da decisão histórica.
- O segredo como refúgio na era do dispositivo: Na época do arraisonamento técnico (Gestell), o abrigamento no recuo—a Lethe—se dá como “recusa da verdade do ser”, um impedimento do mundo entendido como Quaternidade (Terra e Céu, Divinos e Mortais). Este recusar, contudo, “não é um nada”, mas “o modo como, em seu mais alto segredo, o ser se recolhe à morada no interior da dominação que estende o pôr que se recolhe no dispositivo”. O segredo abriga, assim, mesmo na ausência mais radical, a possibilidade de uma virada (die Kehre), guardando a decisão sobre se a essência do homem encontrará novamente a essência do divino.
- A morte e a proximidade do divino: O segredo atinge seu ponto de maior condensação na morte, pensada como “o maciço mais alto que recolhe o segredo do desabrigamento em seu apelo”. No segredo do recuso da Quaternidade é salva a “possibilidade mais extrema do Dasein mortal”: a de que, ao desdobrar sua essência como mortal, o homem possa alcançar a proximidade da essência do deus. O segredo é, em última instância, o âmbito íntimo e abrigado (ge-heim) onde se joga o destino do encontro histórico entre os mortais e os divinos, entre o homem e o ser que se recusa para, talvez, um dia, se conceder de novo.
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