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Teoria
PSAP
- A TEORIA COMO FORMA DE VIDA DA PRÁTICA
- A reflexão filosófica pode assumir legitimamente a forma extensa sem perda de substância, pois a diferença entre brevidade e prolixidade não afeta o conteúdo quando a totalidade conceitual permanece intacta; ao contrário, a exposição longa permite tornar explícitas as intenções, os encadeamentos e os horizontes do pensamento, criando as condições de uma recepção serena e não defensiva.
- A escolha de uma estrutura quaternária indica uma adesão à tradição filosófica clássica segundo a qual a verdade exige uma articulação conceitual capaz de ultrapassar simplificações simbólicas, recusando tanto a economia retórica da tríade teológica quanto a enumeração normativa do decálogo, em favor de uma ordenação racional suficientemente diferenciada.
- A ciência acadêmica pode ser compreendida, em termos históricos e factuais, como uma prática de antropotecnologia, isto é, como um conjunto de exercícios sistemáticos pelos quais o ser humano transforma a si mesmo para tornar-se capaz de determinadas operações cognitivas.
- A fundação dessa compreensão remete a duas figuras decisivas da história da filosofia: de um lado, Edmund Husserl, enquanto representante moderno da filosofia como teoria rigorosa; de outro, Sócrates, cuja irrupção na Atenas clássica inaugurou a busca sistemática da verdade e da sabedoria que, desde então, recebe o nome de filosofia.
- A vida teórica, ou bios theoretikós, constitui um fenômeno altamente improvável do ponto de vista evolutivo e, ao mesmo tempo, de peso empírico extraordinário, pois sua emergência deslocou profundamente as orientações morais e cognitivas das comunidades humanas por mais de dois milênios.
- A possibilidade da epoché, isto é, da suspensão dos compromissos imediatos com o mundo da ação, depende de uma constelação complexa de contingências pessoais, históricas e institucionais, sem as quais a atitude teórica não poderia estabilizar-se como forma de vida reconhecível.
- A formação da pessoa desinteressada exige a análise de um motivo central da tradição filosófica antiga: a doutrina da animação suspensa do sábio, segundo a qual o pensador deve aprender a afastar-se das solicitações vitais imediatas como se estivesse, em certo sentido, morto para o mundo.
- A filosofia platônica concebe a atividade teórica como inseparável de um exercício de morte antecipada, entendido não como cessação biológica, mas como neutralização do particular, do privado e do individual, em favor de uma forma de anonimato que torna possível o acesso às verdades universais.
- A tese socrática segundo a qual os verdadeiros amantes da sabedoria se exercitam em estar mortos em vida baseia-se na suposição idealista de que apenas o semelhante conhece o semelhante, de modo que o eterno só pode ser reconhecido por aquilo que, no ser humano, participa da eternidade.
- O método filosófico, nessa tradição, não designa apenas um caminho para os objetos do conhecimento, mas igualmente um conjunto de práticas destinadas a produzir um estado cognitivo específico, próximo da morte, no qual a percepção do imutável se torna possível.
- A antiga ars moriendi, longe de constituir apenas uma disciplina ética ou espiritual, deve ser reinterpretada como um capítulo fundamental da epistemologia, pois a capacidade de conhecer o eterno depende da ativação, ainda em vida, de uma disposição para a imortalidade.
- A metafísica clássica revela-se, sob essa perspectiva, como uma epistemo-tanatologia, isto é, como uma doutrina do conhecimento fundada em exercícios de distanciamento radical em relação à vida empírica ordinária.
- A cultura moderna da racionalidade empreendeu uma ruptura sistemática com essa figura tradicional do homo theoreticus, promovendo uma ofensiva epistemológica e naturalista que pode ser interpretada como uma tentativa de assassinar aquele que já se encontrava em estado de morte suspensa.
- Permanece ambíguo se essa operação deve ser compreendida como homicídio ou como reanimação, pois, ao mesmo tempo em que dissolve os pressupostos metafísicos da teoria clássica, reintegra os sujeitos cognitivos ao círculo da vida comum.
- A secularização do conhecimento, embora constitua um ganho civilizacional e político incontestável, apoia-se num gesto originário cuja natureza permanece problemática: a eliminação da figura do observador puro como condição da validade do saber.
- A proximidade contemporânea entre figuras teóricas eminentes e a vida cotidiana indica que o prestígio quase sagrado do pensador foi dissolvido, sem que todas as consequências dessa transformação tenham sido devidamente avaliadas.
- A eliminação simbólica do observador puro pode ser descrita como um angelicídio, isto é, como a supressão de uma figura intermediária entre o humano e o sobre-humano, cuja existência nunca foi reconhecida pelas instâncias jurídicas ou científicas modernas.
- Onde a figura angélica do teórico é liquidada, permanecem seres humanos ordinários, inseridos em salas de aula, laboratórios, bibliotecas e estruturas administrativas, muitas vezes experimentando a reanimação como perda e não como libertação.
- A compreensão adequada desses processos exige levar a sério o conceito de prática em todas as suas implicações, incluindo o sentido de exercício, treinamento e autoformação, dimensão sistematicamente negligenciada pela modernidade teórica.
- A distinção clássica entre vita activa e vita contemplativa contribuiu para tornar invisível uma vasta esfera de comportamentos humanos que não se deixa reduzir nem à ação produtiva nem à contemplação pura, esfera que pode ser designada como vida de prática.
- A prática constitui um domínio híbrido, simultaneamente ativo e contemplativo, no qual os resultados não recaem primariamente sobre objetos externos, mas sobre o próprio sujeito que se exercita e se transforma.
- O efeito da prática manifesta-se na condição atual do sujeito, entendida como capacidade, virtude, competência, excelência ou aptidão, resultante de sequências reiteradas de exercícios.
- A askesis clássica, tanto no atletismo grego quanto no monaquismo cristão primitivo, exemplifica a natureza híbrida da prática, que perde sua inteligibilidade sempre que é forçada a encaixar-se em dicotomias rígidas.
- As teorias modernas da ação, ao privilegiarem distinções como trabalho e interação ou ação comunicativa e instrumental, reiteram a cegueira diante da vida de prática enquanto tal.
- A modernidade tardia testemunha, apesar disso, a proliferação de práticas de autoformação — educação continuada, treinamento, fitness, esporte, dietética, terapia, meditação — que se tornaram o núcleo do modus vivendi das culturas de desempenho.
- As grandes culturas asiáticas, especialmente China e Índia, reconfiguraram suas tradições ascéticas em regimes de treinamento orientados globalmente, inaugurando uma nova fase de competição civilizacional.
- A prática revela uma dimensão estrutural da existência humana que pode ser descrita como verticalidade involuntária, isto é, a permanente diferenciação entre melhor e pior na execução das ações.
- Toda prática envolve uma dinâmica em que cada execução presente condiciona as execuções futuras, de modo que a vida humana pode ser concebida como uma forma contínua de acrobacia sobre o fio da improbabilidade.
- Os sistemas antigos de prática ética, surgidos no que Karl Jaspers denominou “época axial”, tinham como finalidade alinhar o ser humano a uma ordem cósmica ou divina por meio de processos intensivos de autotransformação.
- A classificação retrospectiva desses sistemas sob o rótulo genérico de “religião” obscurece sua natureza específica enquanto tecnologias de condução da vida, distintas tanto da submissão a potências superiores quanto da produção ritual de ilusões coletivas.
- A análise das estruturas da vida de prática na ética antiga pode ser estendida legitimamente ao comportamento teórico, permitindo compreender a teoria como uma forma específica de exercício e autoformação.
- Uma reinterpretação análoga pode ser aplicada à história da arte, concebendo-a não apenas como história de obras concluídas, mas como história das práticas ascéticas e dos treinamentos que tornaram possível a produção artística.
- A tradição europeia da imagem, iniciada com a pintura de ícones no cristianismo helenizado, apresenta uma unidade exemplar entre arte e ascese, na qual a repetição disciplinada e a autoanulação do autor constituem condições da excelência formal.
- A expansão posterior das técnicas artísticas e da autorreferencialidade estética culminou, na modernidade, numa perda progressiva da consciência da prática enquanto fundamento da produção artística.
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