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estudos:sheehan:aristoteles-entende-as-coisas-como-fenomenos

ARISTÓTELES ENTENDE AS COISAS COMO FENÔMENOS (2015, 12-13)

SHEEHAN, Thomas. Making Sense of Heidegger: A Paradigm Shift. Lanham: Rowman & Littlefield, 2015

(…) Heidegger argumenta que Aristóteles entende sempre as coisas como fenômenos - isto é, como aquilo que aparece no campo do comportamento e da interpretação humanos. A frase de Aristóteles τὸ ὄν λεγόμενον (as coisas na medida em que são tomadas em λόγος) refere-se às coisas na medida em que as apreendemos como inteligíveis desta ou daquela maneira. Em outras palavras, Aristóteles entende sempre, ainda que implicitamente, as coisas como situadas numa relação fenomenológica com os seres humanos e, portanto - uma vez que o homem é a coisa viva que tem λόγος - em correlação com a inteligência humana. Não nos limitamos a esbarrar nas coisas com os nossos sentidos corporais e depois acrescentamos-lhes significados. Pelo contrário, temos sempre uma relação a priori, não com o significado específico da coisa, mas com a sua inteligibilidade geral, a sua capacidade de ter um significado específico num contexto específico. Assim, Heidegger declara corajosamente que Aristóteles era tanto um idealista como Kant.


  • A leitura de Aristóteles afasta-o da ontologia objetivista tradicional ao interpretá-lo como fenomenólogo avant la lettre, sem ainda realizar a Wiederholung des Ungesagten, mas sustentando desde o semestre de inverno de 1921–1922 que os textos metafísicos aristotélicos contêm exemplos não tematizados da correlação protofenomenológica entre as coisas e sua apreensão, de modo que, no ensaio de 1939 sobre ϕύσις na Física II 1, afirma-se que Aristóteles compreende as coisas como fenômenos que se mostram no campo do comportamento e da interpretação humanos, entendendo τὸ ὄν λεγόμενον como as coisas enquanto assumidas em λόγος e, portanto, situadas numa relação fenomenológica com o ser humano, razão pela qual se declara que Aristóteles foi tão idealista quanto Kant.
    • A interpretação não corresponde ainda à explicitação do fundamento do ser negligenciado pela metafísica.
    • A correlação entre coisas e apreensão é considerada estrutural e anterior a qualquer tematização explícita.
    • A expressão τὸ ὄν λεγόμενον designa as coisas enquanto inteligíveis segundo modos determinados.
    • O ser humano, enquanto vivente dotado de λόγος, constitui o polo correlativo dessa inteligibilidade.
    • A relação a priori refere-se à inteligibilidade geral da coisa, não ao significado particular.
    • A equiparação com Kant fundamenta-se na compreensão transcendental da presença significativa dos entes.
  • A definição de idealismo como reconhecimento de que o ser, entendido como presença significativa dos entes, não pode ser explicado a partir dos próprios entes, mas é sempre já transcendental em relação a cada um deles, estabelece o idealismo como única possibilidade correta da problemática filosófica, implicando que Aristóteles não foi menos idealista do que Kant.
    • O ser é compreendido como anterior e fundante em relação aos entes.
    • A transcendentalidade indica a condição de possibilidade da inteligibilidade.
    • A problemática filosófica legítima exige essa orientação idealista.
  • As interpretações de Aristóteles são atravessadas pela visão fenomenológica aprendida com Edmund Husserl nos anos 1920, cujo núcleo é o fato inelutável da significatividade, de modo que a linguagem da ontologia aristotélica é empregada com valência fenomenológica, compreendendo os entes como ad hominem (κατὰ τὸν λόγον), isto é, correlacionados a interesses humanos, sustentando que tudo o que é encontrado é a priori significativo e que, no caso dos utensílios da prática cotidiana, a in-itself-ness não reside numa interioridade separada dos interesses humanos, mas consiste precisamente em sua usabilidade segundo as intenções do usuário, razão pela qual Sein, em todas as suas formas, permanece sob redução fenomenológica à sua significatividade para o ser humano.
    • A influência de Edmund Husserl estrutura o modo de ver fenomenológico.
    • A significatividade é assumida como dado originário incontornável.
    • A expressão ad hominem indica correlação com preocupações e interesses humanos.
    • A in-itself-ness do instrumento coincide com sua condição de utilizável.
    • Sein é mantido sob redução fenomenológica à esfera da significatividade.
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