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estudos:severino:verdade

65. Verdade ôntica e verdade ontológica

ESHM

  • Delimitação do problema central de Vom Wesen des Grundes a partir da questão da verdade
    • O problema autêntico do ensaio consiste em delimitar o horizonte dentro do qual algo como princípio de causalidade pode ser legitimamente posto.
    • Esse horizonte não é externo ao princípio, mas constitui sua própria condição ontológica de possibilidade.
    • A investigação do fundamento é alcançada a partir do problema da verdade, que fornece o acesso originário à questão do Grund.
  • A interpretação metodológica da adaequatio e seu caráter derivado
    • A adaequatio intellectus et rei, entendida como verdade das proposições verdadeiras, define o juízo verdadeiro como uma relação com algo com o qual ele concorda com base em um fundamento.
    • Essa concepção pressupõe uma alteridade originária entre intellectus e res, assegurando a verdade por meio de uma concordância fundada na coisa.
    • Tal estrutura revela uma posição metodológica infundada, pois exige um fundamento exterior para aquilo que pretende explicar.
  • A adaequatio como unidade originária e não como relação fundada
    • No seu significado fundado, a adaequatio não necessita de um fundamento externo.
    • Ela mesma se põe como fundamento, enquanto unidade originária do manifestar e do manifestado.
    • Nesse sentido, a adaequatio originária funda inclusive a possibilidade da concepção metodologicamente infundada da adaequatio proposicional.
  • O caráter não originário da predicação
    • O simples nexo de concordância entre juízo e ente não é suficiente para tornar o ente manifesto.
    • A predicação apenas explicita algo que já se encontra manifesto em si mesmo.
    • O ente é manifesto antes de toda proposição verdadeira, sendo a predicação fundada nesse manifestar prévio.
  • A manifestação pré-predicativa do ente como fundamento da verdade proposicional
    • O manifestar originário do ente não possui caráter predicativo.
    • Esse manifestar constitui o pressuposto e o fundamento de toda predicação possível.
    • A verdade da proposição funda-se, assim, em uma verdade mais originária que não é proposicional.
  • A Unverborgenheit como fundamento da verdade proposicional
    • A verdade proposicional funda-se na verdade mais originária da Unverborgenheit do ente.
    • Essa verdade originária é a unidade do manifestar e do manifestado, do intellectus e da res.
    • Tal unidade constitui aquilo que se denomina verdade ôntica.
  • Identidade entre verdade ôntica e fundamento metodológico
    • Se a verdade ôntica é o fundamento de toda predicação, e se a predicação exprime a atitude metodológica infundada da adaequatio, então a verdade ôntica coincide com o fundamento metodológico.
    • A verdade ôntica é o solo a partir do qual toda concordância proposicional pode ocorrer.
    • Essa identidade mostra que o fundamento metodológico não é lógico-formal, mas onticamente fundado.
  • A necessidade de uma estrutura possibilitante do manifestar
    • O ente só se manifesta se subsiste a possibilidade ativa de manifestá-lo.
    • Excluída inicialmente uma posição ontotética do manifestar, permanece a exigência de uma estrutura capaz de manifestar o ente como ente.
    • Essa estrutura não pode ser outra senão o puro manifestar enquanto tal.
  • O pensamento como capacidade essencial de manifestar o ente
    • Para que o puro manifestar possa tornar presente o ente, deve possuir previamente uma compreensão que lhe permita manifestá-lo como ente.
    • Não é o manifestar efetivo que gera a capacidade de manifestar, mas o inverso.
    • O pensamento é, em sua essência, a capacidade de manifestar o ente.
  • A compreensão do ser como condição do manifestar do ente
    • Heidegger exprime essa estrutura afirmando que o manifestar do ente exige a compreensão do ser do ente.
    • O manifestar do ser torna possível o manifestar do ente.
    • Surge assim a identidade entre o puro pensamento e o manifestar do ser.
  • Distinção entre ser ontológico e ser ôntico
    • O manifestar do ser não corresponde ao conceito tradicional de ser como propriedade transcendente do ente.
    • Trata-se de uma manifestação ontológica, distinta do conceito ôntico de ser.
    • Essa manifestação ontológica é transcendental apenas enquanto o pensamento é essencialmente manifestação do ente.
  • O ser como possibilidade transcendental em sentido ontológico
    • Em sentido ôntico, o ser é o ato de ser de cada ente possível.
    • Em sentido ontológico, o ser é a capacidade essencial do pensamento de manifestar o ente.
    • Esse sentido ontológico do ser é aquilo que Heidegger denomina verdade ontológica.
  • O problema do ser como problema da estrutura do pensamento
    • O problema do ser como ser consiste em determinar a estrutura da capacidade essencial do pensamento.
    • Essa estrutura é caracterizada como abertura e transcendência.
    • Ainda que essa capacidade seja inferida como necessária, sua determinação plena permanece problemática.
  • A compreensão do ser como condição ontológica subjetiva
    • O conceito de compreensão do ser coincide com o conceito de condição ontológica subjetiva da unidade originária.
    • Compreensão do ser e ser se implicam circularmente.
    • Ambos exprimem o puro manifestar como capacidade transcendental de manifestar o ente.
  • A verdade ontológica como verdade do ser do ente
    • O manifestar do ser é sempre verdade do ser do ente.
    • Ele não pertence ao dado imediato, mas é inferido como condição do próprio dado.
    • A Unverborgenheit do ser designa o abrir-se do horizonte ontológico como condição transcendental do ente.
  • A inferência do ser a partir do ente
    • O ser é posto apenas na medida em que é necessário para explicar o manifestar do ente.
    • O porsi do ser é sempre verdade do ser do ente.
    • A verdade ontológica é condição necessária para que o ente se constitua como verdade ôntica.
  • Reciprocidade entre manifestar do ente e manifestar do ser
    • O manifestar do ente implica necessariamente o manifestar do ser.
    • Essa implicação decorre do fato de que o manifestar do ente exige uma capacidade transcendental.
    • Essa capacidade é o próprio abrir-se do horizonte ontológico do ser.
  • Identidade estrutural entre verdade ôntica e verdade ontológica
    • Verdade ôntica e verdade ontológica referem-se respectivamente ao ente no seu ser e ao ser do ente.
    • Ambas constituem uma única estrutura unitária.
    • Essa unidade só é possível mediante a abertura simultânea da diferença ontológica.
  • A diferença ontológica como condição da verdade
    • A distinção entre ser e ente é denominada diferença ontológica.
    • A verdade, em sua essência ontico-ontológica, só é possível se essa diferença se abre em um único ato.
    • A diferença ontológica não separa, mas articula ser e ente.
  • O Dasein como fundamento da diferença ontológica
    • O fundamento da diferença ontológica é o Dasein.
    • Existir significa para o Dasein relacionar-se com o ente compreendendo o ser.
    • Esse compreender funda a possibilidade do deixar-ser o ente.
  • O deixar-ser como estrutura da verdade
    • O deixar-ser o ente não é um ato de poder, mas de não-poder.
    • O deixar-ser e o manifestar do ente são estruturalmente idênticos.
    • Ambos se fundam na abertura transcendental do Dasein.
  • A transcendência do Dasein como fundamento da distinção
    • O poder distinguir verdade ôntica e verdade ontológica reside na existência do Dasein.
    • Essa distinção é possível pela mediação do imediato, que permite o deixar-ser.
    • A transcendência do Dasein é o modo próprio dessa mediação.
  • Intencionalidade, transcendência e finitude
    • A relação intencional ao ente coincide com o manifestá-lo deixando-o ser.
    • A intencionalidade, característica da verdade ôntica, é possível apenas com base na transcendência.
    • A transcendência possibilita ontologicamente a intencionalidade.
  • A finitude do horizonte ontológico
    • A intencionalidade exprime a finitude do horizonte ontológico.
    • Compreender o ser significa não exercer poder sobre o ente.
    • A finitude é, assim, constitutiva da verdade.
  • A articulação final entre verdade e fundamento
    • A adaequatio reconduz à verdade ôntica como fundamento da concordância.
    • A verdade ôntica reconduz à verdade ontológica como fundamento da intencionalidade.
    • O fundamento metodológico e o fundamento ontológico articulam-se a partir da transcendência.
  • A transcendência como raiz possibilitante
    • A transcendência é a raiz que possibilita ambos os fundamentos.
    • Ela não é algo além de sua função possibilitante, mas coincide inteiramente com ela.
    • Esclarecer a transcendência significa esclarecer o próprio problema do fundamento.
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