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estudos:severino:existencia-transcendencia

66. Existência e transcendência

ESMH

  • Determinação formal da transcendência como ultrapassamento e relação direcional
    • Transcendência é determinada formalmente como ultrapassamento, Überstieg, isto é, como uma estrutura relacional que se define por um movimento de algo a algo, von etwas zu etwas.
    • Essa determinação formal não designa ainda um conteúdo particular, mas fixa a forma estrutural segundo a qual a transcendência opera como passagem e referência, articulando um de e um para.
    • A transcendência é reconduzida, desde o início, à sua função constitutiva: não é um episódio secundário do conhecimento, mas o modo originário pelo qual se torna possível qualquer relação em que algo se mostre como algo.
  • Transcendência como raiz da diferença ontológica e como essência do Dasein
    • Enquanto raiz da diferença ontológica, a transcendência é compreendida como aquilo que torna efetiva essa diferença, na medida em que o Dasein, ao pôr-se como acontecer, geschehen, faz com que a diferença entre ser e ente se realize de modo efetivo.
    • A transcendência é afirmada como essência do Dasein, e por isso é igualmente designada como essência do sujeito e estrutura fundamental da subjetividade.
    • A subjetividade não é tomada como um dado que depois transcende, mas como aquilo que é enquanto transcendência, de modo que ser sujeito significa ser como transcendência.
  • Transcendência como possibilização ontológica da relação sujeito-objeto
    • A transcendência, entendida como subjetividade, não é descrita como relação entre sujeito e objeto, mas como possibilização ontológica dessa relação.
    • Com isso, a transcendência não se acrescenta a uma subjetividade já pronta, mas constitui o campo ontológico no qual algo como sujeito e algo como objeto podem emergir como tais.
    • O sujeito não é definido como instância que, em um segundo momento, supera a imediaticidade do ente presente, mas como o próprio modo originário em que essa superação se dá, isto é, como transcendência.
  • Rejeição da figura de barreira ou abismo entre sujeito e objeto e determinação da transcendência como ecstaticidade essencial
    • A transcendência não é interpretada como ultrapassamento de uma barreira, Schranke, que confinaria o sujeito em um em si, nem como travessia de um abismo, Kluft, posto entre sujeito e objeto.
    • O núcleo é deslocado para a ecstaticidade essencial, isto é, para um ser fora de si que constitui transcendentalmente a abertura na qual o manifestar pode dar-se ao manifestado.
    • A abertura do horizonte extático da transcendência coincide com o constituir-se transcendental desse ser fora de si, em cujo fundamento o manifestar ilumina o manifestado em si mesmo.
  • Reinterpretação do objeto como aquilo que é ultrapassado e não como termo para o qual se vai
    • O ente que está de frente, o objeto, das vergegenständlichte Seiende, não é aquilo para o qual o ultrapassamento procede, woraufzu.
    • O objeto é aquilo que é ultrapassado, isto é, o que é deixado para trás enquanto imediaticidade, de modo que o ultrapassamento não visa um termo objetivo, mas opera como estrutura que supera o ente em sua condição imediata.
    • O que é ultrapassado é todo o ente, incluindo o ente cuja essência é existência, isto é, o próprio Dasein, indicando que a transcendência não é um movimento que preserve o Dasein como ponto fixo intocado, mas o envolve naquilo mesmo que é ultrapassado.
  • Transcendência como mediação da imediaticidade do ente
    • A transcendência é caracterizada como mediação da imediaticidade do ente, pois o ente só pode manifestar-se se sua imediaticidade se puser como tal.
    • Para que a imediaticidade se ponha como imediaticidade, exige-se um recolhimento, um dobrar-se do imediato sobre si, o qual, porém, pressupõe simultaneamente um afastar-se do imediato de si em direção a algo outro que o transcende.
    • Essa estrutura é possível apenas por um ato que manifesta o imediato em si mesmo, e esse ato não pertence ao ente enquanto ente, mas a um ente particular que é o que é precisamente em virtude desse ato manifestante.
  • O ente como ultrapassado enquanto imediato e a orientação do transcender para o outro de si
    • O ente é ultrapassado enquanto imediato, o que significa que o transcender não se dirige ao ente em oposição como se este fosse o alvo, mas funda o manifestar do ente ao mediar sua imediaticidade.
    • Por isso, a transcendência, enquanto manifestação, é simultaneamente mediação do imediato e dobrar-se sobre ele, precisamente no ato em que o transcender se dirige ao outro de si.
    • Nesse dobrar-se constitui-se a dimensão do mediado, isto é, o campo em que algo pode aparecer como determinado e articulado, em vez de permanecer mero imediato não tematizado.
  • Bipartição da zona do mediado e constituição do mesmo do Dasein
    • A dimensão do mediado biparte-se porque o dobrar-se, enquanto ato manifestante do Dasein, alcança de um lado o próprio Dasein e de outro o restante ente.
    • No primeiro caso, o Dasein, ao ultrapassar, alcança o ente que ele é, isto é, alcança a si mesmo enquanto mesmo, e esse alcançar a si constitui o constituir-se da identidade da autoconsciência.
    • No segundo caso, a mediação alcança o ente que não é o Dasein, indicando que o campo do mediado inclui tanto a auto-referência do Dasein quanto sua abertura ao outro ente.
  • Condição da relação ao ente: existir como mesmo e possibilização ontológica da alteridade
    • O Dasein só pode relacionar-se consigo e com o ente na medida em que existe como um mesmo, de modo que a relação ao ente pressupõe a instauração dessa identidade.
    • A transcendência torna ontologicamente possível a alteridade implicada no pôr-se do mesmo, pois o mesmo exclui de si aquilo que é outro de si.
    • A alteridade não surge como fato empírico externo, mas como implicação estrutural do pôr-se do mesmo, cuja possibilidade depende da transcendência.
  • Mediação, Gegen-stand e objetivação como modo do pôr-se do ente
    • A mediação é possibilitada pela transcendência do Dasein, na qual o ente é ultrapassado em sua imediaticidade, e por isso pode pôr-se como Gegen-stand.
    • O pôr-se do ente como Gegen-stand exige que o estar, Stehen, do ente seja referido a algo relativamente ao qual esse estar possa aparecer como um Gegen, isto é, como um contra, um diante.
    • Assim, o ato de ser, Stehen, do ente pode pôr-se como objetivação, Objektivierung, como presentificação, Gegenwärtigung, como vergegenständlichung, isto é, como tornar-se objeto no interior da mediação.
  • Finitude radical do transcender e estrutura do Lassen como não potência sobre o Stehen
    • A objetivação, enquanto mediação, é possível apenas se o ente objetivado for transcendido de tal modo que esse transcender constitua a finitude radical de quem transcende.
    • O transcender é caracterizado como deixar-ser, no sentido em que aquilo que se põe como Gegen só pode aparecer relativamente a um Lassen que não exerce potência sobre o Stehen.
    • Ao mesmo tempo, o pôr-se do Stehen como Gegen-stehen constitui a própria mediação da imediaticidade do Stehen, o que fixa a unidade estrutural entre mediação e deixar-ser.
  • Transcender como transcendência do ente em totalidade e fundamentação demonstrativa do problema da transcendência
    • O transcender transcende o ente em uma totalidade, de modo que o ente transcendido como totalidade configura-se como unidade originária do manifestar do ente.
    • A investigação sobre a estruturação da transcendência é reconduzida à necessidade de explicar o primeiro certo, isto é, a unidade originária do dado: dado o dado, exige-se que a transcendência se estruture de certo modo para que o dado seja como é dado.
    • Por isso, a investigação da transcendência não é tomada como análise fenomenológica imediatamente válida por si, mas como investigação fundada em necessidade demonstrativa, isto é, em exigência de explicação condicionante do dado.
  • Mundo como termo essencial da transcendência e determinação da transcendência como ser-no-mundo
    • Se a imediaticidade da totalidade do ente é o que é ultrapassado, o termo para o qual o Dasein transcende, Woraufhin, é o mundo mesmo.
    • O mundo, enquanto termo essencial da transcendência, determina a transcendência como ser-no-mundo, isto é, define o modo originário em que a transcendência se efetiva.
    • Ser-no-mundo não é então um predicado adicionado a um sujeito previamente constituído, mas a própria determinação essencial da transcendência enquanto estrutura da subjetividade do Dasein.
  • Portata ontológica do ser-no-mundo e distinção em relação ao existir de fato do Dasein
    • Se a transcendência constitui a essência da subjetividade do Dasein e se ser-no-mundo é a determinação mesma da transcendência, ser-no-mundo não significa que o Dasein exista de fato essencialmente.
    • O Dasein é contingente e, portanto, o existir de fato não pode ser considerado como essencial, do mesmo modo que o encontrar-se de fato não é exclusivo do Dasein, mas pertence a todo ente.
    • Ser-no-mundo possui portata ontológica que diz respeito à essência do Dasein independentemente do existir efetivo, e esse existir efetivo é possível apenas porque o Dasein, em sua essência, é ser-no-mundo.
  • O encontrar-se de fato entre os entes como possibilitado pela transcendentalidade do ser-no-mundo
    • O encontrar-se entre os demais entes é ontologicamente possibilitado pela transcendentalidade do ser-no-mundo.
    • O encontrar-se de fato é possível sobre o fundamento da não potência, isto é, da nulidade, do ser-no-mundo, de modo que a possibilidade do factualmente dado depende de uma estrutura que não se confunde com o próprio fato.
    • Assim, o ser-no-mundo é afirmado como condição ontológica de possibilidade do estar de fato no mundo, e não como descrição empírica desse estar.
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