estudos:schurmann:violencia-1982-46
§46. Da Violência à Anarquia (1982)
RSPA
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Definição do “outro agir” como abertura não-violenta
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O “outro agir” não é captação nem assalto, mas “deixar o campo livre às coisas”
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A tarefa prática de nossa época é afastar tudo o que faz tela entre a coisa e nós
Crítica da violência inerente ao pensamento conceitual e à linguagem-
O conceito tradicional de “coisa” é coextensivo ao conceito de “ente”, pensado como res
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Heidegger argumenta que essa forma comum de pensar, “em sua captação, não apreende a coisa tal como ela desdobra sua essência”
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A natureza do conceito (Begriff) vem de greifen (agarrar, capturar)
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Conceber é capturar; a linguagem conceitual se coloca, por vocação e desígnio, em posição de ataque
A essência agressiva da linguagem resulta de uma complexa relação de fundamentos-
Nosso “relacionamento com a palavra, há mais de vinte séculos, é determinado pela 'gramática'”
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A gramática se funda na “lógica”, que é uma interpretação da essência do pensar própria da metafísica
A convergência entre linguagem e ser é uma imposição, um ato violento que deu origem à civilização ocidental-
É o índice infalível da economia metafísica
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A imposição das formas gramaticais ao “ente em seu conjunto” é patente em Aristóteles e Kant
A violência do conceito se acentuou decisivamente com Descartes-
O ente é o que é posto diante, como objeto (Gegenstand)
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A representação é co-agitatio; como concepção (Begreifen), ela já é ataque (Angreifen)
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Metáforas cinegéticas indicam a violência do cogito
A tecnologia como reveladora e culminação de uma violência de longa duração-
A tecnologia atesta que a violência, em seu começo e essência, não é uma simples questão de conceito ou teoria
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A dominação aparentemente inevitável da técnica é o resultado tardio e extremo de decisões tomadas desde a Grécia clássica
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O assalto como modo de presença é o rebento da lógica, ela mesma rebento da metafísica
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Esta nasceu de decisões que afetam as posições fundamentais, conduzindo a uma violência generalizada
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“Nem precisamos de bombas atômicas, o desenraizamento do homem já está aí […] Este desenraizamento é o fim, a menos que o pensamento e a poesia não atinjam novamente um poder não-violento”
A resposta heideggeriana não é a contra-violência-
À violência institucionalizada, Heidegger não opõe uma contra-violência do mesmo tipo
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Não chama a uma contra-ofensiva; não busca o confronto
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O confronto só reforçaria a violência no cerne de nossa posição histórica fundamental
O “assalto” é ambíguo como a técnica: é a força que encerra a metafísica e torna possível a virada-
Não há nada de dialético na hipótese da clausura, apenas uma posição fundamental de dupla face
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O “assalto” nos constitui autóctones e limítrofes ao mesmo tempo do solo metafísico
Ampliando sem limites o jogo ofensivo, ele também engaja um novo jogo possível: o da verdade da presença-
Para que o verdadeiro possa verdadeiramente vir ao nosso encontro, “tudo deve permanecer provisório e antecipador”
O afastamento (écart) como prática não-violenta: o “deixar-ser”-
A questão é como evitar o modo de interdependência entre palavras, coisas e ações nascido da lógica
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O afastamento não pode ser um projeto calculado para neutralizar a ofensiva da vontade
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A ação de afastar as sobrevivências principiais deve nos colocar fora de sua ofensiva
Para Heidegger, uma única atitude está ao nosso alcance: “O abandono não entra no domínio da vontade”-
O abandono é o jogo preparatório do verdadeiro; preludia a transgressão
A violência que Heidegger adota diante do assalto institucionalizado é a não-violência do pensamento-
Seu “poder não-violento” é fazer o que a presença faz: deixar ser
Heidegger opõe o lassen (deixar) ao überfallen (assaltar), assim como opõe a ação de afastar àquilo que “faz tela” ou se apoderaO abandono não é uma atitude benigna, mas a única saída viável do campo de ataque montado pela razão calculadoraTrês razões pelas quais “deixar ser” é a única saída-
Primeiro, ele desloca o conflito
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Heidegger não opõe uma Grande Recusa dialética à violência
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A dialética ainda é “a potência mais forte até aqui da lógica”; filosofar contra a técnica equivale a uma simples re-ação
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Heidegger não nega a técnica, mas retrogride às condições que a tornam possível como violência ordenada
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Este passo para trás, para a essência, desloca o conflito: em vez de “como fazer frente?”, pergunta-se “o que é da presença?”
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O “campo livre” é o campo de interdependência, do qual a técnica é uma modalidade possível
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Este deslocamento da questão para o originário vai mais direto ao coração da técnica que a questão das alternativas
Segundo, ele é essencialmente ateoleocrático-
“Deixar o campo livre às coisas” é libertar o pensamento das representações de fim
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O pensamento não tem objetivo; é livre da dominação teleocrática
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Sua tarefa é modesta: seguir as coisas em sua emergência a partir da ausência
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Isto nos instrui sobre uma origem sem télos, sempre outra e sempre nova, que desliga o complexo técnico-científico
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O conselho heideggeriano contém um imperativo: “Estamos em nossa existência historicamente perto da origem?”
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Estar perto da origem seria seguir, no pensamento e no agir, a emergência “sem porquê” dos fenômenos
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A poesia e o pensamento entalam a teleocracia; Mestre Eckhart traduziu esta entaladura na ação: o justo nada busca em suas obras
Terceiro, ele é preparador de uma economia anárquica-
“Deixar o campo livre às coisas” é engajar-se na passagem da violência à anarquia
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Passagem de um lugar onde os entes são forçados sob um princípio epocal a um lugar onde sua contingência radical é restaurada
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Passagem das “substâncias” determinadas por uma arché e um télos imutáveis às “coisas” emergindo com precariedade em seu mundo
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Esta inocência reconquistada do múltiplo é sugerida sobretudo nos textos sobre a obra de arte
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A obra de arte institui uma rede de referências e produz a verdade como uma esfera contingente de interdependência
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Ela é o paradigma do modo não-principial pelo qual uma coisa vem ao mundo e o mundo vem à coisa
Condição prática para a anarquia econômica e resposta à violência tecnológica-
Para que uma economia possa assim restituir todas as coisas a seus mundos, a condição prática é a queda das últimas figuras teleocráticas da presença
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À pergunta “Que fazer?”, deve-se responder: desalojar esses vestígios de uma economia teleocrática e assim liberar as coisas de sua “captação” sob os princípios epocais
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Na situação ambígua de transição, a fenomenologia pode responder ao “assalto” tecnológico mostrando a fissura que o abandono introduz nas constelações sociais fixas
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Heidegger liga o aparecimento de uma constelação nova a um pré-requisito prático
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Se a constelação tornada possível pela tecnologia é essencialmente ateoleocrática, a praxis requerida consiste em adotar a descontinuidade do evento de apropriação
O obstáculo principal que faz tela ao evento de apropriação vem dos “fundamentos metafísicos gregos da frase como relação do sujeito ao predicado”-
Seria preciso poder dizer “Há ser” e “Há tempo” sem ouvi-los como proposições
Heidegger designa diretamente a ambiguidade do sítio econômico contemporâneo - a ambiguidade do “princípio de anarquia” - ao lamentar que a conferência “Tempo e Ser” ainda tenha podido “falar apenas enunciando proposições”Exigência de uma fluidez radical na prática social-
As implicações práticas do pensamento de Heidegger exigem que uma fluidez radical seja introduzida nas instituições sociais e na prática em geral
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Com a essência bi-frontal da técnica, legitimar a prática não pode mais significar referir o fazível a uma instância primeira, a uma razão última ou a um fim último
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Trata-se de um reverso do princípio de razão: não são os entes presentes que reclamam um fundamento, mas a presença sem fundo que interpela a existência e reclama um agir igualmente sem fundo
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Assim se compreende o vínculo complexo, na última frase do exergo, entre gramática da proposição, diferença “coisa e mundo” e afastamento dos obstáculos como pré-requisito para o evento de apropriação
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