estudos:schurmann:totalizacao-impropria-2008

TOTALIDADE IMPRÓPRIA (2008)

CRITCHLEY, S.; SCHÜRMANN, R. On Heidegger’s being and time. London: Routledge, 2008

  • A absorção no que está simplesmente dado (Vorhandenheit) caracteriza o modo inautêntico de ser-no-mundo, no qual o Dasein compreende a si mesmo a partir de um contexto objetivo de coisas, como se ele próprio fosse algo simplesmente presente entre outros entes.
    • O Dasein inautêntico compreende a si mesmo nos termos de um “contexto objetivo de coisas”.
    • Essa é uma modificação imprópria (imprópria) do ser-no-mundo.
    • O Dasein se compreende como se fosse algo simplesmente presente (Vorhanden) entre outros entes.
  • Nessa modalidade imprópria de existência, a totalidade (Ganzheit) do Dasein é compreendida como uma soma ou reunião posterior de experiências e fatos dispersos e objetivamente dados, um processo de “reunir-se” a partir da dispersão.
    • Heidegger descreve a totalidade imprópria como um perder-se que exige um posterior “reunir-se” a partir da dispersão.
    • A totalidade é pensada como uma unidade que abrange um “junto” (together) de experiências passadas.
    • O indivíduo, retrospectivamente, soma os eventos passados e conclui: “isto sou eu”.
  • Essa totalidade imprópria, que mais tarde Heidegger denomina “pensamento calculador”, opera por acumulação anedótica e só pode compilar dados objetivamente dados (Vorhanden), fracassando em revelar o Dasein como um todo, pois apenas coisas simplesmente presentes podem ser assim compiladas por um pensamento “exato” que fragmenta o todo em dados singulares.
    • A inautenticidade, quando o Dasein se torna “pensamento”, é chamada de “pensamento calculador”.
    • A totalidade imprópria procede por acumulação anecdótica (cálculo, adição de fato a fato).
    • Esse cálculo jamais pode revelar o Dasein como um todo, pois apenas o que é simplesmente presente (Vorhanden) pode ser assim compilado.
    • A “exatidão” desse tipo de abordagem reside em sua fragmentação do todo do Dasein em dados singulares e objetivamente dados.
  • A existência imprópria falha em perceber a totalidade por dois motivos fundamentais: primeiro, porque os fragmentos da biografia só podem aparecer como tais devido à antecipação (Vorlaufen) sempre já presente do Dasein, que transforma tudo em algo simplesmente presente (Vorhanden), e segundo, porque só se pode falar em dispersão daquilo que foi originalmente um todo.
    • Os fragmentos da biografia só são possíveis porque o Dasein é sempre já antecipatório (anticipatory).
    • É o ato de antecipação totalizante que, no modo calculador, transforma tudo o que é em algo simplesmente presente (Vorhandenes).
    • A totalidade imprópria (calculadora) ignora o caráter totalizante de seu próprio projeto de compreender o mundo como soma total de dados.
    • Só se pode falar de dispersão (zerstreuung) daquilo que outrora foi um todo.
    • A constituição cumulativa da totalidade do Dasein só é possível porque o Dasein é, estruturalmente, já sempre um todo.
    • Apenas um ser que é originalmente um todo pode, subsequentemente, ser “objetivamente” remontado como se fosse um quebra-cabeça.
  • A totalidade imprópria se manifesta com clareza a partir da perspectiva da temporalidade, na qual a compreensão do tempo como atomizado, composto de momentos datáveis (agoras), paralela a compreensão do si mesmo como fragmentos verificáveis e tem como primado o presente (o que está simplesmente presente, Vorhanden).
    • O presente (Gegenwart) é a determinação temporal primária no trato com as coisas simplesmente presentes (Vorhanden).
    • A atomização do si em fragmentos verificáveis resulta de uma compreensão do tempo como atomizado, composto de momentos datáveis.
    • O processo de “databilidade” (Datierbarkeit), a existência imprópria e a primazia da estase do presente são fenômenos paralelos.
  • Os elementos componentes da existência não formam uma “estrutura” no sentido de um todo empírico constituído a posteriori de maneira calculadora, pois a contextualidade originária (o entrelaçamento) de futuro, passado e presente se retrai quando se investiga “o que é o caso” (o simplesmente presente), sendo a soma biográfica apenas a consequência de uma compreensão linear do tempo como uma sucessão de agoras.
    • A totalidade do Dasein constituída a posteriori de maneira calculadora é um todo empírico.
    • A contextualidade originária de futuro, passado e presente se retrai diante da investigação do que é simplesmente presente (Vorhanden).
    • A databilidade (Dating) relaciona-se com o que está simplesmente presente (Vorhanden).
    • A soma biográfica é apenas a consequência de uma compreensão do tempo como linear, constituído por uma soma de momentos-agora (now-moments).
  • A temporalidade imprópria aparece, assim, como uma sequência de “agoras” constantemente simplesmente presentes (Vorhanden), que passam e chegam simultaneamente, como um fluxo ou curso de tempo, no qual o Dasein encobre a função totalizante do presente e esquece que o tempo só é um todo na tríplice éstase, representando-o como uma série infinita e flutuante de agoras.
    • A temporalidade imprópria é uma sequência de “agoras” constantemente simplesmente presentes (Vorhanden).
    • O tempo é compreendido como sucessão, como uma corrente fluente de agoras, como o “curso do tempo”.
    • Com essa compreensão do ser (enquanto compreensão do tempo), o Dasein encobre a função totalizante do presente.
    • A temporalidade imprópria esquece que o tempo só é um todo na tríplice éstase (futuro, passado, presente).
    • A representação imprópria do tempo é a de um tempo infinitamente corrente, de um curso de agoras simplesmente presente e flutuante em si mesmo.
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