RESPONSABILIDADE (1987)
SCHÜRMANN, Reiner. Heidegger on Being and Acting: from principles to anarchy. Tr. Christine-Marie Gros with the author. Bloomington: Indiana University Press, 1987
O que seria um conceito não-metafísico e não-calculativo de responsabilidade? Deve ser um conceito que desconstrua a dívida de responsabilidade e a autoridade à qual ela é devida. A desconstrução da instância justificadora é a destituição dos princípios epocais. Heidegger delineia a desconstrução da essência calculadora com a ajuda de algumas etimologias. O verbo latino reor deu origem ao verbo alemão rechnen. Esta palavra, Heidegger não a entende no sentido vulgar de “contar”, “calcular”: “Ora, “orientar algo sobre outra coisa”, é esse o sentido do nosso verbo rechnen.” Ereignis, portanto, cuja estrutura de apelo já vimos. A essência responsorial da responsabilidade retira-a do domínio moral para a implantar no da linguagem: uma resposta à “injunção em que a diferença chama o mundo e as coisas”. Uma resposta ao acontecimento da apropriação que se articula no silêncio e que é “nada humano”. “Tal apropriação ocorre na medida em que o desdobramento essencial da linguagem, a reunião do silêncio, faz uso da fala mortal.” (GA12) Esta reimplantação topológica não faz, no entanto, da responsabilidade um fenómeno linguístico: apelo e resposta combinam-se num modo de ser. A “via para a palavra” designa um unterwegs que não se limita nem à inteligência (não é um itinerarium mentis) nem ao indivíduo (não é uma conversio). O acontecimento de entrar na presença “usa” os homens, situando-os de tal modo que tudo o que empreenderem será uma resposta à economia que os encerra.
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A base do fenômeno da responsabilidade, na concepção metafísica ocidental, reside no reconhecimento de um compromisso recíproco entre duas partes, implicando uma estrutura de prestação de contas (um “por” e um “para”) perante uma instância normativa que transcende os atos e os mede, permitindo sua legitimação e imputação.
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A etimologia de responsabilidade (do latim respondere, 'comprometer-se em retorno') remete a uma estrutura de promessa e compromisso bilateral.
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Ser responsável significa estar pronto para dar razão (rationem reddere) dos próprios atos e deeds a um tribunal (consciência, poder institucional, divindade) perante o qual alguém se encontra obrigado.
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A responsabilidade implica um “por” (os atos) e um “para” (uma autoridade competente), sendo a legitimaçãeste o ato bem-sucedido de responder por seus atos a essa instância.
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A instância legitimante (o referente, do latim re-ferre, 'reportar') transcende os atos e os mede, fazendo com que eles “retornem” (re-) ao agente e pesem em sua conta, o que constitui o fundamento da imputação.
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As principais línguas ocidentais ligam responsabilidade à ideia de prestar contas, de um acerto de contas (Rechenschaft, rendre raison).
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A desconstrução heideggeriana do conceito recebido de responsabilidade não abole os dois traços dominantes (a prestação de contas e a autoridade julgadora), mas os desloca, transmutando-os de corolários de disposições de faculdades morais (humanismo) em corolários de disposições do presentificar-se ontológico (economias).
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O deslocamento atinge a liberdade em dois golpes: a prestação de contas não se origina mais no sujeito como faculdade de escolha, e a medida (o tribunal) não é mais uma instância transcendente que limita a liberdade como ausência de constrangimento.
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A liberdade moral (capacidade de espontaneidade prática) aparece, então, como uma liberdade derivada.
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Ambos os traços devem ser compreendidos agora em termos das economias epocais do presentificar-se.
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Heidegger demonstra a condição originária da responsabilidade ao recorrer à sua fonte original, a diferença temporal, mostrando que a representação-guia de contar e prestar contas nasce da restrição do legein (reunir) ao cálculo, uma obfuscacão do presentificar-se como evento que se manifesta linguisticamente na palavra ratio.
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A essência da reviravolta que inicia a metafísica consiste na redução do legein (reunir, colher) ao cálculo e à razão calculadora (ratio).
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O sentido nativo de ratio é a razão calculadora, oriunda da linguagem dos mercadores romanos, e sua essência é “constatar, manter, justificar”, ou seja, contar ou calcular com algo.
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O ser como o fundamento sobre o qual se pode “contar” é a condição ontológica para qualquer prestação de contas “por” e “para”.
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A história epocal do presentificar-se é marcada pelo traço destinal do fundamento (Fundament), da ratio, do cálculo, da conta prestada.
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Nos tempos modernos, a razão exige que se preste contas da própria possibilidade da calculabilidade universal, exigindo um referente que dê conta da prestação de contas como tal.
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O auge dessa prestação de contas na filosofia moral é o utilitarismo, e, para Heidegger, a ética, a ciência e a metafísica são três figuras de uma mesma época (epoché) na qual o prestar contas é o modo predominante de desencobrimento.
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O utilitarismo, com seu “grande contador” Jeremy Bentham, representa o clímax da accountability na filosofia moral, alvo de críticas de Karl Marx.
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Para Heidegger, a ética é essencialmente um empreendimento de prestação de contas pela mesma razão que a ciência é essencialmente técnica e a metafísica, essencialmente racionalista.
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Essas três são figuras de uma mesma época (epoché) do ser, na qual o prestar contas impera como modo de desencobrimento.
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O segundo traço do conceito metafísico de responsabilidade, o tribunal normativo e justificador, é desconstruído por meio da genealogia dos princípios epocais, que mostra sua natureza derivada e histórica.
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(O texto remete a uma “genealogia dos princípios epocais” realizada anteriormente como base para essa desconstrução.)
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Uma compreensão não metafísica e não calculadora da responsabilidade deve partir da inviabilidade de prestar contas a um referente atemporal, mostrada por Heidegger através do recuo do fenômeno do cálculo para o da direcionalidade (richten), no qual agir responsavelmente significa seguir a direção ou o veio de uma dada economia e agradecer (danken) ao presentificar-se.
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O definhamento dos princípios epocais acarreta a impossibilidade de prestar contas a um referente, pois não há mais um fundamento atemporal disponível sobre o qual contar.
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A etimologia liga o verbo alemão rechnen (calcular) a richten ou ausrichten (orientar, endireitar), permitindo o recuo do cálculo para a direcionalidade.
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Atos responsáveis são aqueles que seguem a direção ou o veio de uma economia, adotando as orientações (bearings) das coisas em uma dada era.
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Agir responsavelmente é agradecer (danken) ao presentificar-se, alinhando-se ao modo como as coisas entram em seu mundo, sem que esse agradecimento seja uma quitação (paying-off).
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No passo atrás do cálculo para a direcionalidade temporal, o que está em jogo são as modalidades do presentificar-se (liberdade no sentido alethiológico) como condição originária para a ação (liberdade no sentido moral), de modo que ser responsável não significa mais “responder por” (answer for) ações perante um tribunal, mas sim “responder a” (respond to) as constelações alethiológicas nas quais os atos estão inseridos.
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A responsabilidade como resposta (respondence) não é algo que a fenomenologia do ser como tempo possa, por sua vez, explicar (account for), sob pena de anular a diferença temporal.
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Deslocada para as economias, a responsabilidade significa resposta ao “apelo da diferença” (o evento da diferença entre mundo e coisa).
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A resposta se dirige à sempre nova modalidade em que o mundo desdobra as coisas e as coisas configuram (gebärden) o mundo, à sua “intimidade”, ao “entre” onde mundo e coisa diferem, ao evento de sua constelação mútua (Ereignis).
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A essência responsorial da responsabilidade a remove do domínio moral e a aproxima da linguagem, sendo uma resposta à “injúria” (interpelação) silenciosa do evento de apropriação, que “usa” a fala dos mortais.
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Essa reimplantação topológica implica que a fala é sempre uma resposta às modificações históricas do evento, mas não reduz a responsabilidade a um fenômeno meramente linguístico, pois apelo e resposta só podem ser conjungados num modo de ser.
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O deslocamento da responsabilidade do moral para o econômico não elimina a possibilidade da irresponsabilidade (não-resposta), uma vez que a ordem econômica, como rede de potenciais que “apela” adiante de nós, não enquadra o agente no atual, e a irresponsabilidade, para Heidegger, consiste na adikia (injustiça) anaximândrica, ou seja, numa infração contra o modo como o presentificar-se ocorre e nos interpela.
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O deslocamento não absorve o projeto (projeção) no ser-lançado (thrownness), pois a ordem econômica apela como se viesse adiante de nós, como uma rede de potenciais, não um quadro do atual, evitando o automatismo da resposta.
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Na concepção metafísica, irresponsabilidade é a infração contra um princípio de ordem (lei, consciência, Deus, razão, etc.), é não responder à convocação para prestar contas.
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Na perspectiva heideggeriana, irresponsabilidade é desviar-se (breach) do modo epocal de encobrimento e desencobrimento que nos interpela.
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No hipotético fim da metafísica, a irresponsabilidade não consiste no mesmo tipo de infração, pois não há mais uma ordem referencial de presença a transgredir.
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Na era do fechamento (da metafísica), ser irresponsável é contrariar a rede do presentificar-se sistêmico, ou seja, é qualquer ente ou ato que se fixe na permanência (que “segure firme a afirmação de sua estada”), o que se aplica primordialmente aos próprios princípios epocais, que são o que é irresponsável essencialmente.
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O que contraria o evento múltiplo do phuesthai (mostrar-se) é qualquer ente ou ato que busca a “pura persistência na duração”, fixando-se em sua estada.
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Essa fixação na permanência (hubris da estada) só surge sob e através do domínio dos princípios epocais.
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Os princípios epocais são, eles mesmos, o que é essencialmente irresponsável.
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Com o passo atrás heideggeriano para um outro tempo (não o da duração), o que é irresponsável para o homem é qualquer a priori prático que clame por persistência contra o fluxo e contribua para a sobrevivência da economia principial.
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O rompimento que surge com o (possível) fim da metafísica desestabiliza tanto aquilo por que (for which) quanto aquilo perante que (to which) alguém pode ser responsabilizado, deslocando a responsabilidade não apenas para as economias, mas também para a anarquia, situando a existência em seu lócus originário, onde se vive pelo evento da apropriação mútua (Ereignis) entre as coisas que compõem um mundo histórico.
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O deslocamento dissolve o “por que” ao subverter o “perante que” da responsabilidade.
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O fenômeno da responsabilidade é retirado da regência de representações últimas e situado no entre (in-between) da presença (ente) e do presentificar-se (ser).
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A existência é situada em seu lócus originário, onde vive pelo único evento da apropriação mútua entre as coisas que perfazem um mundo histórico.
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O deslocamento da responsabilidade para a anarquia econômica é a condição prática para pensar a diferença entre mundo e coisa como temporal.
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Numa economia desprovida de qualquer princípio epocal, a existência responsorial (ação responsável) será uma resposta aos novos modos pelos quais as coisas se unem num mundo e dele diferem, respondendo-se ao “apelo da diferença” unicamente através da práxis, ao inscrever os próprios atos no jogo de identidade e diferença entre mundo e coisa.
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A ação responsável responde aos sempre novos modos de união e diferença entre mundo e coisa.
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Responde-se ao “apelo da diferença” inscrevendo os atos no jogo de identidade e diferença entre mundo e coisa.
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A pergunta “O que você faz da diferença?” só pode ser respondida através da práxis.
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