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VERDADE

SCHNELL, Alexander. Wirklichkeitsbilder. Tübingen: Mohr Siebeck, 2015.

  • Nas abordagens filosóficas sobre a verdade que predominam desde o século XX, a teoria da correspondência ainda ocupa o primeiro plano, seja para estabelecer critérios, definir ou fundamentar a verdade, partindo do pressuposto de que se deve buscar “a” verdade quando há dúvida ou possibilidade de falsidade
    • O problema da verdade se coloca quando, diante de um “tapete de fatos”, uma tomada de posição pode ou não “corresponder” a um dos fatos, tratando-se de uma situação determinada, e não da questão sobre se algo é verdadeiro em geral
    • Busca-se perguntar o que fundamenta de forma conclusiva que se possa falar “do” Verdadeiro, o que não coincide com afirmar uma verdade “absoluta” ou “não-relativa”, aproximando-se do que Heidegger disse sobre o “acontecimento” como um “singulare tantum”
  • O que vale para a verdade em geral também vale para a consideração fenomenológica da verdade, onde o problema também é tratado no quadro da determinação tradicional como “adequação” ou “correspondência”, com a definição clássica de verdade como “adaequatio rei et intellectus”
    • Essa definição pode ser compreendida de duas maneiras: como “verdade de proposição”, na qual uma proposição é verdadeira quando se ajusta à “realidade”, ou como “verdade de coisa”, na qual uma coisa ou pessoa é “verdadeira” quando se ajusta a um pensamento
    • A originalidade do tratamento fenomenológico da verdade consiste em elucidar radicalmente a conexão entre “coisa” e “entendimento”, esclarecendo o sentido e a essência da “adequação” ou “correspondência”
  • Se a verdade é tratada segundo as regras da lógica proposicional, atribui-se um sentido unívoco à suposta “Realidade”, mas como ficam afirmações como “os Bororo são papagaios-arara”, onde o “objeto” ou “Realidade” não se limita a constatações sensíveis, mas recebe um sentido simbólico que remete a um conjunto de referências que constituem um “mundo”?
    • A questão fundamental da verdade não é a da “correspondência”, mas, em um nível mais originário, a de como esse mundo é aberto
    • Enquanto se pergunta comumente pelas condições de verificabilidade sensível das proposições e da experiência, a fenomenologia se situa aquém de qualquer experiência realizada, perguntando pelas condições demonstráveis de possibilidade de tal realização

II. Husserls Fenomenologia da Verdade

  • Em Husserl, a verdade sofre um estreitamento da Sexta Investigação Lógica para a Lógica Formal e Transcendental, onde quatro conceitos de verdade são reduzidos a dois
    • Para elucidar o conceito husserliano de verdade, é preciso retornar ao esclarecimento do status da intencionalidade nas Investigações Lógicas, onde o conceito de verdade como “concordância entre entendimento e coisa” só pode ser explicado se a natureza da “coisa” e do “entendimento” e sua “concordância” forem compreendidas
    • Situando-se no nível da “representação” à maneira de Kant, mas não como imagem mental, e sim quanto ao modo de referir-se a um objeto, Husserl analisa a “referência ao objeto”, que pressupõe um “ato intencional” ou “vivido intencional”
    • Em vez de partir do objeto supostamente dado, parte-se dos diferentes tipos de intencionalidade, cujos correlatos irredutíveis são os “objetos intencionais” tais como são visados nos atos intencionais
    • O “fenômeno” pode ser compreendido noeticamente como “vivido” ou noematicamente como “objeto no como de seu ser-dado”, e a verdade se situa na relação entre as diferentes maneiras de apreender o “fenômeno”, deslocando a questão da relação sujeito-objeto para o plano da intencionalidade
    • Russell já apontara que a verdade, para além do plano material, pressupõe uma esfera de “opiniões” e “crenças”, mas Husserl leva a sério essas opiniões e a necessidade de visar os objetos no como de seu ser-dado
  • O ponto decisivo na concepção fundamental da verdade em Husserl é que as significações são intenções “não preenchidas”, e as intenções de preenchimento ou intuições “preenchem” as significações
    • Antes de Husserl, a intuição era entendida como uma representação imediata de um indivíduo, enquanto Husserl determina a significação e a intuição quanto ao modo como dão o objeto, sendo o que muda a maneira de ser-dado, e não o objeto
    • A evidência não é meramente um critério da verdade, mas o que possibilita a relação de concordância característica da verdade
    • A verdade não se determina por uma forma de “Realidade” pressuposta, nem consiste em uma consistência lógica interna, mas se refere ao que uma significação ainda não preenchida contém, ou seja, a uma verdade possível ainda não explicitamente dada, e o preenchimento não significa tanto uma confirmação quanto um esclarecimento
  • Husserl distingue quatro conceitos de verdade no §39 da Sexta Investigação Lógica, sendo o primeiro, fundamental, aquele em que o objeto não é meramente visado, mas dado no sentido mais estrito, constituindo a “evidência” como o “vivido” de uma “síntese de preenchimento mais perfeita”
    • A evidência, que não é um sentimento psicológico, sofre uma “virada ontológica” e se torna a “autodadidade” da coisa no ato de evidência, sendo a verdade definida como o “correlato objetivo” da evidência
    • A verdade é o correlato de uma identificação, a identidade de uma plena concordância entre o visado e o dado, mas Husserl ressalta que isso não é uma percepção adequada da verdade, o que o leva a um segundo conceito de verdade como “ideia da adequação absoluta como tal”
    • O primeiro conceito acaba sendo provisório, pois falta a percepção atual da concordância, e o segundo se torna uma duplicação desnecessária, sendo abandonado em textos posteriores
    • Em Husserl, tudo se passa no nível do conteúdo “ideal” ou “eidético” de um preenchimento objetivo determinado, e não na relação abstrata entre opinião e intuição
  • Na Lógica Formal e Transcendental, Husserl mantém apenas o terceiro e o quarto conceitos de verdade: o terceiro corresponde ao próprio objeto dado, a “plenitude ideal da essência cognitiva específica da intenção”, que “torna verdadeira” uma intenção; o quarto é a “correção” como adequação da opinião em relação ao objeto
    • O quarto conceito não é uma resposta, mas o nome de uma nova dificuldade, que exige a verificação pela evidência, e Husserl responde com o primeiro e o terceiro conceitos
    • O primeiro refere-se ao que torna verdadeira a relação da opinião com a intuição, independentemente do caso particular, sendo “a” verdade, um conceito ideal que coincide com o segundo
    • Husserl dá preferência ao terceiro conceito, chamando “verdadeiro” o objeto que torna a proposição verdadeira, devido ao retorno necessário à evidência, o “princípio de todos os princípios”
  • Como essa autodação pode se dar em evidência mais ou menos “adequada”, Husserl concluirá que a verdade, apesar de tudo, é apenas uma “ideia regulativa”
    • A fenomenologia de Husserl desloca a problemática da verdade da esfera do em-si para o âmbito de nossa referência a ele, sendo a verdade a forma a priori de toda referência ao mundo
    • Em toda consideração da verdade, seja “enquanto verdadeira” ou em uma relação concreta, há um duplo ponto de vista: “subjetivo”, a adequação como “direção” à “objetividade”, e “objetivo”, o fato ou objeto que torna verdadeiro
  • Os três pontos essenciais que resultam do exposto — a verdade como autodadidade da coisa, o questionamento do papel fundamental da evidência para a verdade e a verdade como ideia regulativa — são retomados, de forma modificada, na concepção de verdade de Heidegger

III. Heidegger's Phenomenology of Truth

  • Em Heidegger, no §44 de Ser e Tempo, três níveis da verdade são apresentados, com um quarto implícito que será desenvolvido após a “virada”
    • O primeiro nível, a verdade “ôntica”, destaca a função não derivada da proposição de descobrir o ente tal como ele é em si mesmo, com a estrutura “tal… como…” sendo decisiva
    • A proposição “entdeckt” o ente, e a verdade da proposição deve ser entendida como “ser-descobridor”
    • Heidegger passa despercebido do primeiro para o segundo nível, do sentido “ôntico” para o “ontológico” do verdadeiro, onde o “ser-descoberto” pressupõe um “ser-descobridor”, estabelecendo a dimensão ativa implícita na verdade
  • A proposição só pode mostrar o ente como ele é se este já se mostrou como ente, e a “descoberta” ou “ser-descobridor” é um “modo de ser do ser-aí”, um “existencial” que torna possível uma referência “verdadeira” ao ente
    • O fundamento desse ser-descobridor é a “clareira” do próprio ser-aí, e o ser-aí, como ser-no-mundo, é ontologicamente “na verdade”, onde a verdade remete ao ser-aí e o ser-aí remete à verdade
    • A verdade como ser-descobridor significa que o ente se torna acessível em si mesmo ao ser-aí, e “com” a descoberta do ente, o ente se mostra como aquele que já era antes, sendo esta a maneira de ser da “verdade”
  • Heidegger determina o “fenômeno da verdade mais originário” de duas maneiras: a verdade no sentido mais originário é a clareira do ser-aí, à qual pertence a descoberta do ente intramundano; e o ser-aí é cooriginariamente na verdade e na não-verdade
    • A clareira do ser-aí se articula na disposição, no compreender e no discurso, e a descoberta do ente intramundano corresponde à clareira do ser-aí
    • O “ser-na-verdade-e-não-verdade” implica que todo aparecente pode ser acompanhado por seu “simulacro”, e que toda formação de sentido se mostra também por uma transformação devida à fixação linguística
    • A clareira é um “compreender disposicional” que, como poder-ser do ser-aí, se projeta sobre o sentido, um “projeto” que permanece no estado de “projetado”, mantendo-se na tensão entre uma interpretação que se move no compreender e um compreender que jamais pode ser apreendido de forma mais adequada do que no processo infinito da interpretação
  • O “ser-na-verdade-e-não-verdade” permite a Heidegger explicar o status do ser-aí em contraposição ao “sujeito transcendental”, situando-o aquém da separação entre sujeito “ideal” e “fático”
    • A facticidade do ser-aí, que é cooriginariamente na verdade e na não-verdade, manifesta-se por sua perdição no mundo, e a “cada vez minha” do ser-aí é caracterizada por um “ser-na-verdade-e-não-verdade”, que constitui a origem verdadeira da distinção entre os modos de ser da propriedade e da impropriedade
  • Essa mesma determinação do “ser-na-verdade-e-não-verdade” é decisiva para o conceito de verdade de Heidegger após Ser e Tempo, onde o conceito de “clareira” assume um papel central
    • Heidegger passa a enfatizar que a clareira do ser-aí pressupõe um “aberto” que possibilita a abertura do ente, e nesse aberto se desenvolve um jogo de ocultação e desocultação que caracteriza o ser e a verdade do ser
    • A desocultação é um “desocultar da ocultação”, onde o desocultado é arrancado da ocultação, mas nesse arrancar se revela a própria ocultação como condição da aparência de todo desocultado
    • A “clareira” substitui o conceito de “possibilitação” a partir da década de 1930, designando a claridade dentro e graças à qual todo ente pode aparecer, mas também a abertura pressuposta por essa claridade
    • O status desse aberto é semelhante ao do conceito kantiano de transcendental, mas, ao contrário de Kant, Heidegger reflete sobre o status do que torna possível a revelação do ente, e esse aberto é essencialmente caracterizado por se retirar e se ocultar

IV. As três dimensões da verdade na fenomenologia generativa

  • As conclusões provisórias da fenomenologia generativa para o conceito de verdade, a partir de Husserl e Heidegger, apontam para três dimensões da verdade compreendida como “singulare tantum”
    • A primeira dimensão, a verdade fenomenalizante, é uma condição necessária, mas não suficiente, da verdade, pois toda “verdadeira” proposição pressupõe um manifestar-se, um aparecer
      • A verdade fenomenalizante é “in-finita” porque diz respeito a todo “objeto” da verdade, independentemente de seu modo de aparecimento, e porque vale para todo ente que se manifesta
      • A questão é se todo ente é, de certa forma, “verdadeiro”, o que poderia levar a uma concepção “deflacionária” da verdade
      • A verdade fenomenalizante é uma condição necessária, pois só se pode afirmar algo de algo sob a condição de que ele seja algo, mas isso implica uma manifestação para…, uma aparição para…, uma dadidade para…
      • O “para quem” não precisa estar corporalmente presente, pois a verdade fenomenalizante é uma manifestação para uma “testemunha de direito”, e é preciso distinguir entre as condições “necessárias” e “suficientes” da verdade
    • A segunda dimensão da verdade concerne a um “recolhimento” ou “retraimento” que joga em toda manifestação, e que se apresenta de duas maneiras e em dois níveis diferentes
      • Toda aparição é condicionada, e o condicionante não aparece da mesma maneira que o condicionado, sendo essencial e fundamentalmente retirado do condicionado
      • Esse é o fundamento da epochē e da redução, que garantem o acesso ao condicionante e possibilitam uma “experiência” do transcendental
      • O condicionante ou não aparece ou se petrifica em um mero “dado” objetivo, e o retraimento também se manifesta na “relação de condicionamento recíproco” entre o constituinte e o constituído, que é geneticizada por uma autorreflexão
      • Essa autorreflexão implica um “salto” entre os registros, um constante alternar entre “presença” e “não-presença”, que constitui o caráter de retraimento da verdade
    • A terceira dimensão, a verdade generativa, determina não apenas o caráter de retraimento da verdade de maneira positiva, mas também a dimensão da verdade do procedimento construtivo
      • A verdade generativa é caracterizada por uma circularidade “generativa”, que não é viciosa, mas constitui “a verdade” da circularidade transcendental e hermenêutica
      • A verdade é a reflexão da reflexão, ela confere sentido à possibilitação, abrindo a “espacialidade” para uma “correspondência” ou “adequação”
      • A reflexão da reflexão estabelece uma distância e é a lei do refletir-se, sendo ao mesmo tempo constitutiva da realidade
      • A verdade não se reduz à verificação por um objeto, mas é uma dimensão de referência ao objeto, caracterizada por uma reflexividade produtiva que contém uma dimensão geradora e criadora
  • A tese de que “a verdade é generatividade” tem consequências fundamentais para a fenomenologia compreendida como idealismo transcendental, pois significa a prioridade do transcendental sobre o empírico, sem excluir que o primeiro possa assumir formas concretas diversas
    • A generatividade é o nome para essa capacidade, não como uma faculdade da razão, mas como uma “força” anônima
    • A verdade como generatividade faz a identidade da reflexibilidade transcendental e transcendente, motivando e completando toda construção genética
    • A reflexão se revela como “pedra de toque” da realidade por meio da “hipoteticidade categórica”, uma figura lógica que faz surgir uma necessidade onde algo foi posto hipoteticamente
    • A necessidade de essência e a generatividade justificam a passagem do hipotético ao categórico, onde a concordância entre a construção e o que é construído é um “perder-se” no verdadeiro, que fundamenta a circularidade transcendental e hermenêutica

V. Zusammenfassung

  • A verdade como “singulare tantum” pode ser resumida no esquema: hipoteticidade categórica → recolhimento → revelação (duplicação possibilitadora) (condicionamento recíproco), onde as diferentes dimensões constitutivas constituem a “verdade” de cada momento anterior e, portanto, da verdade como verdade
    • A fenomenologia generativa desenvolve, assim, a constelação conceitual de uma “fenomenologia do conhecimento” que legitima o sentido da constituição do aparecente
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