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MUNDO DA VIDA
SCHNELL, Alexander. Was ist Phänomenologie? Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, 2019.
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O “idealismo transcendental” tem também uma outra face, o que exige um retorno a Husserl tardio, que, em contato com Heidegger e Fink, sofreu influências e reações “imanentes à fenomenologia”
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Esta última obra de Husserl representa um novo começo para a fenomenologia transcendental, após a psicologia descritiva das Investigações Lógicas e a fenomenologia centrada no ego transcendental das Ideias I e das Meditações Cartesianas
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Este novo começo é ancorado em uma série de questionamentos e paradoxos que devem ser apresentados em detalhe
O “motivo fundamental” da filosofia e ciência modernas, segundo Husserl, é a tendência ao “objetivismo”, que se move no solo do mundo pré-dado pela experiência e pergunta por sua “verdade objetiva”, pelo que ela é em si mesma-
A tese de Husserl é que a ciência moderna realiza uma “sub-repção”, substituindo o mundo da vida por um substrato matemático que fornece a medida para o ser e a validade do cognoscível, atribuindo à vida um “vestido de ideias” que expressa a profunda pertença entre matematização e racionalidade universal
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Husserl critica no objetivismo tanto a tomada ilegítima de um substrato de conhecimento meramente construído quanto a suposição de um “ser em si” objetivo no plano ontológico
Em Hume, Husserl encontra um motivo oculto capaz de evitar o objetivismo da sub-repção sem abandonar o ideal de cientificidade, um motivo que consiste na profunda “comoção” do objetivismo pela intuição de que a consciência entra na constituição do mundo-
No entanto, essa constituição da consciência não é apreendida em sua função positiva, mas apenas negativamente, pois em Hume a alma gera o mundo como uma mera “ficção”, ao contrário da tese de Husserl de que a geração de “imagens do mundo” (Descartes) e de “produtos ficcionais” (Hume) deve ser pensada em conjunto com a pretensão fenomenológica de fundamentar a objetividade e o conhecimento
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A comoção do objetivismo consiste em considerar performances imaginativas, em certo sentido icônicas, na constituição da consciência de mundo e objetividade, o que implica consequências para o método fenomenológico, a saber, que a iconicidade do ente fenomênico, a objetividade real e a legitimação do conhecimento devem ser reconhecidas em sua pertença fundamental
A interpretação de Husserl do “problema de Hume” difere da de Kant: para Husserl, o problema não é o da indução, mas o de tornar compreensível a autoevidência ingênua da certeza do mundo-
O mérito de Hume foi ter reconhecido que as verdades objetivas e o próprio mundo objetivo são “formações de vida” que devem ser pensadas em conexão com a “iconicidade do ente fenomênico”
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A questão do “problema do mundo” só pode ser respondida no retorno a “formações de sentido” realizadas subjetivamente e seu caráter icônico
A importância fundamental da conexão entre “formações de sentido” e “iconicidade” se torna mais clara ao considerar a determinação básica de Husserl do conceito de “Transcendental”, que designa o motivo do questionamento retroativo à fonte última de todas as formações de conhecimento e à autorreflexão do conhecedor sobre si mesmo-
“Transcendental” não significa referir-se a meras condições de possibilidade do conhecimento, mas abrir um campo fenomenológico onde a “vida cognoscitiva” contribui ativa e veladamente para a formação de sentido
Para resolver o enigma do mundo e responder à questão da certeza do mundo, Husserl introduz o conceito de “mundo da vida”, que é o solo supostamente autoevidente de nossa referência ao mundo-
A negligência desse solo é a causa da crise da ciência moderna, e para ganhá-lo, Husserl propõe a “epochē do mundo da vida”, que revela que o mundo da vida tem uma “estrutura geral” ou “apriori” próprio, distinto do apriori objetivo-lógico das ciências
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Este apriori do mundo da vida funda a validade do apriori objetivo-lógico, e a tarefa de uma “ciência do mundo da vida” é mostrar como o “objetivo” se funda no apriori “subjetivo-relativo”
O novo apriori da correlação libera o olhar da vinculação à pré-dadidade do mundo para a correlação universal entre mundo e consciência do mundo, abrindo um novo “reino do subjetivo”, um “material espiritual” em constante formação, que constitui “configurações de sentido”-
Este “reino do subjetivo” é caracterizado por um “material espiritual” que se mostra em necessidade essencial como configuração espiritual constituída, em um incessante devir e mudança, onde a formação de sentido tem sua própria “vida” animada pela subjetividade transcendental
A unidade do mundo da vida, como “unidade da conexão de sentido e validade”, corresponde à “subjetividade anônima”, que realiza uma performance constitutiva do mundo e se objetiva como ser humano, sendo estes os dois parâmetros fundamentais para a unidade do sentido de ser e validade-
A elucidação da validade objetiva e da tarefa da ciência exige um retorno ao mundo pré-dado, onde a validade é remetida ao ser
A questão da relação entre gênese e validade é central, e Husserl, seguindo a tradição que distingue entre a história de origem psicológica e a justificação da validade, realiza uma dupla transgressão desse limite, juntamente com Fichte-
Em Husserl, a transgressão consiste em mostrar que ser e validade são cooriginários no conceito de “validade de ser”, exigindo uma tematização específica que se concentra no “como” das maneiras de dadidade, na “totalidade sintética” das performances funcionantes
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A “pré-dadidade” do mundo, que na atitude natural é autoevidente, torna-se um problema na atitude transcendental, onde o “como” da dadidade é tematizado, e o ser não se opõe à validade, mas se reduz a ela ou dela emerge imediatamente
A ideia de uma “ciência do mundo da vida” se concretiza como uma “nova ciência” dos “últimos fundamentos”, que trata do “como” universal da pré-dadidade do mundo e da “unicidade da subjetividade última fungente-realizadora”-
Cinco questionamentos ou dificuldades fundamentais desenvolvidos na obra da Crise abrem novas perspectivas: o horizonte da legitimação do conhecimento, a intuitividade como princípio de todos os princípios, o papel primordial da percepção presentificante, a descrição como método fundamental e a supremacia do ego constituinte
A primeira crítica é dirigida ao horizonte fundamental da legitimação do conhecimento, onde Husserl introduz o conceito de “compreensibilização” como nova tarefa fundamental da fenomenologia, em vez da “legitimação radical do conhecimento”-
A fenomenologia não fundamenta o conhecimento, mas produz compreensibilidade, e a “formação de sentido” torna-se central, localizada no coração da intencionalidade, que passa a ser o título para o verdadeiro “explicar” como “compreensibilizar transcendental”
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A “formação de sentido” envolve uma dimensão de “comunitarização” e “intersubjetividade”, mas não no sentido de uma subjetividade isolada, e sim de um “co-funcionar” da formação de sentido em um “horizonte escuro”, onde “nós” somos reconduzidos a uma dimensão de anonimato e pré-subjetividade
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Propõe-se o termo “indução transcendental” para distinguir esse processo da redução fenomenológica ao ego, completando o método fenomenológico ao precisar o conceito de subjetividade em direção a uma anonimidade subjacente
Husserl também critica o princípio de todos os princípios da evidência intuitiva, reconhecendo a validade de modos de consciência não-intuitivos e estendendo o princípio a maneiras de dadidade que não têm a intuição evidente como pressuposto incondicional-
A tríade ego - cogitatio - cogitatum deve ser compreendida como três modos de intencionalidade, e a abordagem a partir do mundo da vida, em direção inversa à cartesiana, acentua o “questionamento retroativo” e a intersubjetividade, com implicações para a espacialidade e a não-intuitividade
Uma terceira crítica questiona o papel preponderante da percepção presentificante na formação de sentido, mostrando que toda dadidade experienciável é movida por “implicações de multiplicidades de aparecimento não atuais” e por “representações de”-
O “de” designa o apriori universal da correlação, que é a indissociabilidade entre “ser” e “representação”, sem a qual não teríamos objetos ou mundo
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O ser objetivo repousa sobre os diversos modos de presentificação, incluindo a “imaginação” e a “fantasia”, o que já coloca em questão a primazia da tematização objetivante e doxástica
A insuficiência da descrição fenomenológica é apontada como uma quarta crítica, que se manifesta no problema de uma “verdade dupla” entre a perspectiva da ciência objetiva e a da filosofia transcendental, onde a filosofia como ciência objetiva universal não é a ciência universal-
A descrição fenomenológica é insuficiente porque seu solo é “ingênuo” do ponto de vista transcendental, e a tarefa da fenomenologia não é uma descrição, mas uma “investigação” que requer um método construtivo, e não um conhecimento científico objetivo
A quinta crítica é o paradoxo da aniquilação da consciência, onde a subjetividade pertencente ao mundo se mostra ao mesmo tempo como constitutiva do mundo, colocando a questão de como o sujeito pode ser ao mesmo tempo sujeito no mundo e sujeito para o mundo-
A solução de Husserl envolve uma “autodestruição” do eu em direção à formação de sentido anônima, mas sua abordagem enfatiza a tensão entre a atitude natural e a do “observador desinteressado”, onde a fenomenologia deve criar seu próprio solo a partir de uma subjetividade mundanamente “nula”
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A “resolução do paradoxo” se dá em duas etapas: a constituição da esfera primordial e a apercepção do estranho por des-alienação, culminando na auto-objetivação do eu transcendental no homem, deslocando a tensão para a intersubjetividade
Há um duplo antagonismo entre Husserl e Heidegger: quanto à abordagem geral do pensamento e quanto à função da intersubjetividade, onde a posição de Husserl, ao fazer da intersubjetividade uma função constitutiva originária, se aproxima da de Levinas, em contraste com Heidegger, que prioriza a referência ao mundo sobre a ao outroO método fenomenológico, para Husserl, não visa assegurar a objetividade, mas compreendê-la, dedicando-se a uma compreensibilização transcendental que não entra em concorrência com as ciências naturais, pois estas visam a determinação de conteúdo, enquanto a fenomenologia busca o sentido e a validade do cognoscível-
No entanto, esse recurso ao ego é também o que há de questionável e problemático no final do caminho da fenomenologia transcendental a partir do mundo da vida, pois a abertura da problemática da formação de sentido se perde na nova centralização no ego
A comoção do objetivismo pelo empirismo do século XVIII abriu uma tensão entre a formação de “produtos ficcionais” e a necessidade de corresponder à certeza do mundo, e Husserl, em vez de aprofundar a perspectiva da formação de sentido transcendental com suas performances anônimas, preferiu recuar para o papel da “intersubjetividade comunitarizante”-
Esta oportunidade perdida é a principal responsável pela acusação de subjetivismo e solipsismo que lhe é feita
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Resta ver como o projeto de um novo “idealismo transcendental” pode se afirmar na discussão filosófica contemporânea, sem se restringir à oposição entre idealismo transcendental da legitimação do conhecimento e idealismo transcendental da formação de sentido
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