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Ecos

(JS1990:15-18)

1. A palavra em questão porta em si o sentido de lançamento e de duplicação: voz lançada através de um espaço apenas para ser devolvida, quase como se proviesse de outros, duplicada indefinidamente — fala por bespeaking, por um excesso de significação anterior ou exterior à significação do sentido da palavra, tal como um ato de fala pode significar por si mesmo, ou anunciar algo mostrando-o antes de ser dito; fala também por ser ela mesma bespoken, engajada por aquilo a partir do que fala.

(a)

2. Algumas histórias abrem o percurso.

3. A primeira, antiga, contada por Ovídio na Antiguidade tardia, é a história de Eco, familiar a ponto de parecer conter um sentido demasiado evidente, quase mera superfície sem espaço de ressonância — e no entanto convidada a ser ouvida agora com ouvidos atentos ao seu eco através de dois milênios, quase toda a história da metafísica.

4. Juno, buscando surpreender Júpiter em seus amores entre as ninfas, é interceptada pela ninfa Eco, cuja tagarelice permite a fuga das demais, e por essa artimanha Eco é punida com a privação do poder da fala originária, restando-lhe apenas repetir as últimas palavras ouvidas.

5. A fala de Eco reduz-se, a partir de então, à mera repetição do que outrem acabara de dizer, como se sua voz não lhe pertencesse mais, expropriada pelas palavras alheias.

6. A tentativa frustrada de Eco de seduzir Narciso, a quem só pode dirigir-se repetindo fragmentos finais de sua própria fala, termina em rejeição, tal como ele rejeitava a todos.

7. O corpo de Eco resseca e desaparece até restar apenas voz e ossos, e depois somente voz, pois os ossos se tornam pedra; oculta nos bosques, invisível, mas sempre audível, sua voz é, ao fim, nada mais que as palavras de outrem — a morte da voz viva, ou a vida da voz morta.

8. Uma outra história, contada séculos depois por Longo, faz de Eco filha de uma ninfa, instruída pelas Musas no canto e na música, provocando a ira de Pã tanto por invejar-lhe a arte quanto por ser repelido por ela, que, amante de sua virgindade, fugia de todo macho, homem ou deus.

9. A loucura enviada por Pã aos pastores leva-os a despedaçar Eco como feras, espalhando seus membros ainda cantantes pela terra, a qual, por reverência às ninfas, os sepulta preservando-lhes a música, de sorte que, por decreto eterno das Musas, ainda hoje exalam uma voz — frenesi bacânico que dispersa e dissemina a voz de Eco, fazendo-a soar ainda sob a terra, invisível.

10. Uma terceira história, de mundo distinto e mais próximo da natureza, é a estada de Thoreau às margens do lago Walden, onde o abandono gradual dos livros clássicos cede lugar à linguagem que todas as coisas e eventos falam sem metáfora, repetindo, à sua maneira, tanto a virada cartesiana ao grande livro do mundo quanto, invertendo-a, a virada socrática.

11. No capítulo de Walden dedicado aos sons, a solidão indevassada da reverie estival em meio aos sons do bosque contrasta com o som intrusivo da ferrovia, que mantém Thoreau ligado à sociedade mesmo em seu retiro.

12. Com a passagem dos trens e o afastamento ainda maior da sociedade, chega a Thoreau, vindo por sobre a natureza, o som distante dos sinos, uma melodia natural que se impõe à floresta não como intrusão, mas como se as agulhas de pinheiro fossem cordas de uma harpa dedilhada, despertando as vozes da natureza.

13. A melodia recebida pelo ar, tendo conversado com cada folha e agulha do bosque, retorna como eco — não mera repetição do som dos sinos, mas parcialmente a própria voz do bosque, as mesmas palavras triviais entoadas por uma ninfa das árvores —, eco dito, ainda que impropriamente, um som original.

  • O esquema clássico segundo o qual o eco seria mera imagem decadente do original desloca-se aqui, atribuindo-se à própria voz da natureza a produção de uma divergência original em relação ao original.
  • A invocação, sem nome, da ninfa Eco devolve o eco à sua origem clássica, ecoando essa própria origem.

14. Uma última história, situada nos Alpes sob um céu de transparência quase siciliana, é a travessia de uma crista até um vale alto onde, salvo o eventual tilintar de um sino de vaca, reina o silêncio, tornando excepcional a escuta precisamente pela quase ausência de sons a ouvir.

15. Esse vale, cercado de picos nevados, forma um recinto aberto no qual a voz se expande e ressoa, tornando impensável o monólogo e sua interioridade, pois o espaço reclama a voz e, de certo modo, toma posse dela, dispersando-a e multiplicando-a ao mesmo tempo que a devolve como se proviesse de outras vozes — experiência do silêncio não como simples oposto da fala, mas como o espaço aberto da própria voz.

16. Cada uma dessas histórias faz soar um eco diferente do que, antes de todas elas, se teria chamado originalmente Ήχώ: a Eco da primeira história nomeia um deslocamento da fala a partir da origem, uma perda de voz reduzida à repetição vazia; a Eco da segunda história é ainda mais dispersa e disseminada, porém abrigada pela terra; o eco de Thoreau é som original que diverge originalmente do original justamente por ser abrigado pela terra; a última história devolve o eco às montanhas de onde outrora viera, liberando a voz no recinto aberto oferecido pela terra.

17. Não obstante a pluralidade irredutível desses ecos, um traço de coerência entre eles autoriza falar da figura do eco, estipulando-se que o artigo definido e a forma singular remetem não a uma unidade ou singularidade, mas a esse traço de coerência entre os ecos — ainda que só à custa de uma redução inconciliável pudesse haver um conceito de eco, razão pela qual apenas a figura permanece em causa, suspensa entre o um e o múltiplo.

18. A figura é, antes de tudo, representação: ecoando figura, que traduz σχήμα, ecoa também Schema, representando assim, nem como conceito nem como particular, mas como imagem suspensa entre ambos — em aberto se o que a figura de eco representa é um original, Ήχώ, apenas representado à distância, ou antes um fenômeno acústico esquematizado pela representação, ou ainda, por representação metafórica, algo distinto do próprio eco, ainda que a linha entre o literal e o metafórico se revele difícil de traçar, visto que a própria fala humana é acústica e ecoa a si mesma.

19. A figura é, assim, também figura de linguagem, ainda que a figura pluralizante do eco ameace turvar os limites nos quais sempre se apoiou a teoria da retórica.

20. A figura de eco é igualmente a forma corpórea de Eco, tal como as diferentes histórias a narram: o corpo que resseca até restar só voz e ossos convertidos em pedra; a beleza virginal desmembrada pela fúria de Pã; e a forma ou espaço do eco enquanto espaço natural, recinto aberto no qual a voz é lançada e relançada.

21. A figura é, ainda, geométrica, embora o espaço no qual os ecos ressoam não possua nem a linearidade nem o centro das autorrepresentações geométricas clássicas da metafísica, exigindo, para acomodar a terceira história, ao menos duas linhas paralelas e opostas em direção, ou, como na última história, a figura de um recinto aberto que reúne, numa só imagem, o fechamento da caverna e a abertura exterior.

22. Se a figura é figura de eco ou de Eco permanece em questão, isto é, se se trataria de um nome próprio que nomearia a coisa mesma, τό πραγμα αυτό, dado que um eco é sempre também algo impróprio, nunca simplesmente ele mesmo, mas eco de algo diferente, um retorno do outro ao próprio, ou antes uma mescla — o que sugere escrever o nome de modo a deixá-lo indeciso entre Echo e echo.

23. Poder-se-ia, no entanto, simplesmente dizer o que é um eco, pondo de lado as histórias, tal como a filosofia sempre fez ao voltar-se das narrativas para as coisas mesmas com sua pergunta τί έστι.

24. Um eco é reflexão do som numa superfície sólida, exigindo um intervalo suficiente entre a emissão do som original e a produção e audição do eco — sob pena de mera reverberação —, bem como certa preservação da qualidade do som originário, produzida naturalmente, sem artifício humano, mesmo quando ocorre em contextos artísticos, arquitetônicos ou musicais, permanecendo sempre imitação do eco natural, eco de um eco.

25. O eco pode ser dito imagem sonora produzida naturalmente, ou, enfatizando a recepção, imagem acústica, ou ainda, enfatizando a preeminência do som vocal, imagem de voz — deslizando-se, nesse último caso, para a metáfora, representando o todo por uma parte, deixando escapar a coisa mesma.

26. Se o som originário é suficientemente breve, o eco devolve-o com relativa clareza, ainda que com certa distorção segundo o esquema clássico; mas, se o som originário se prolonga além do intervalo necessário ao retorno do eco, interfere com este, confundindo-se imagem e original até a cessação do som originário, de modo que o eco devolve apenas o fragmento final do som estendido — tal como as respostas de Eco às palavras de Narciso.

27. As imagens sonoras são mais propensas à proliferação que as imagens visíveis, reecoando-se sucessivamente em séries de intensidade decrescente, sobretudo em superfícies complexas como cavernas, e de modo semelhante, com menos confusão, nas montanhas, onde as distâncias entre superfícies refletoras fazem os ecos parecerem vozes distintas e incorpóreas, sempre sob o risco — que a imaginação converte em delícia ou êxtase — de confundir a imagem com o original.

(b)

28. Depois de Heidegger, permanece em aberto se ainda é possível não deslizar para a metáfora, se é possível evitar ou escapar a esse deslizamento, ou se, ao contrário, seria agora permitido ceder a ele — e mesmo se, depois de Heidegger, o deslizamento seria ainda propriamente um deslizamento para a metáfora, ou para algo diverso.

29. O sentido mesmo do depois — depois de Heidegger — permanece em questão, sem que se possa supor intactos e delimitados fora do alcance da interrogação seus sentidos, mesmo após o deslocamento radical que a obra heideggeriana impõe ao conceito de tempo que, por mais de dois milênios, determinou o sentido do depois.

30. Depois de Heidegger começa — na verdade já começou — a caçada: caçada pelos resíduos da metafísica que contaminariam seu texto, caçada pelos sinais de reinscrição e dívidas textuais segundo uma economia clássica dificilmente sobrevivente ao abalo provocado por sua obra, caçada ainda pelos traços de sua biografia e, sobretudo, pelo episódio político de 1933-34, como se a relação entre vida e pensamento houvesse alguma vez sido clara.

31. A legitimidade dessa caçada não é contestada, embora seus limites permaneçam em questão; depois de Heidegger há mais armadilhas do que jamais se poderia supor, das quais os caçadores só poderão escapar pensando.

32. O interesse reside não na busca de resíduos alheios ao texto heideggeriano, mas no próprio texto, em ouvir o que ele mesmo pode dizer — ainda que já não se possa falar do próprio (itself) do mesmo modo, uma vez que a obra de Heidegger submeteu o próprio a um repensar radical, revelando na própria linguagem uma operação de impropriedade.

33. Por pertencerem os ecos à própria linguagem, todo texto — inclusive o de Heidegger — está exposto à possibilidade de diferir de si mesmo; ao voltar-se para esse texto, importa atenção aos fantasmas que o assombram e nele reproduzem precisamente aquilo que o texto submeteria à Destruktion, não para reencerrá-lo em si mesmo, mas para deixá-lo dizer o que pode, ecoando a própria linguagem.

34. O deslizamento para a metáfora já começou desde que se fala dos ecos de um texto, pois o texto é algo escrito e visível, de modo que falar de seus fantasmas já é deslizar de uma ordem de visibilidade a outra, e falar de seus ecos é deslizar ainda mais longe, do fenômeno sonoro para um sentido metafórico aplicado a textos escritos — deslizamento talvez inevitável, ao qual não haveria razão de resistir, desde que se mantenha consciência da diferença entre sentido metafórico e sentido literal.

35. Esse risco, contudo, dificilmente se evita depois de Heidegger, sobretudo à luz de sua afirmação de que a metáfora só existe dentro da metafísica (“Das Metaphorische gibt es nur innerhalb der Metaphysik”): torcido o pensamento para fora da oposição entre inteligível e sensível, a própria delimitação da metáfora como aplicação do sensível ao não-sensível se vê perturbada, tornando-se ainda mais difícil controlar e assegurar a diferença entre o eco mesmo e a figura de eco, sobretudo se também a oposição entre sensível e linguístico for desconstruída.

36. Anuncia-se assim uma leitura à deriva entre diversas espécies de ecos: ecos textuais, de elementos semânticos ou sintáticos dentro de um texto ou entre textos; ecos entre as coisas mesmas, die Sachen a serem pensadas, notadamente entre o Ser (Sein) e seu sentido; ecos próprios da linguagem; ecos da metafísica no pensamento ao fim da metafísica; e, mais provocadoramente, ecos de uma duplicação e de um retorno que duplica tal como o eco duplica um som ao devolvê-lo — ecos de ecos —, duplicação de retorno que não estará simplesmente presente nem simplesmente ausente no texto heideggeriano, mas nele figurará decisivamente.

37. A figura de eco ecoa também deslocamentos decisivos e irreversíveis depois de Heidegger: primeiramente, o deslocamento daquela plenitude de visão sempre sonhada pela metafísica em direção à fala, à voz, uma voz desprendida da intuição e do sonho de presença — não a voz da filosofia transcendental, incapaz de ecoar, mas uma voz lançada no espaço, tão desprendida da subjetividade e da origem quanto os ecos incorpóreos devolvidos no recinto aberto das montanhas, uma voz que escuta para além de si mesma, extaticamente.

38. Segue-se o deslocamento da condição da visão, a luz, para a condição de uma voz que ecoa, isto é, o recinto aberto que Heidegger chamará clareira (Lichtung), bem como o deslocamento do tempo, medido sobretudo pelo curso da luz e do sol, para uma mescla de tempo e espaço na ressonância de um eco através de um recinto aberto, na clareira.

39. Por fim, um deslocamento em direção ao limite da presença, em direção ao que se anunciaria sem aparecer como tal, assim como um eco assinala sonoramente o limite do espaço em que ressoa.

40. Trata-se, então, de reinscrever diversos textos de Heidegger de modo a conduzi-los até esse limite, mobilizando a figura de eco para libertá-los a dizer o que podem dizer, depois de Heidegger, ao longo de linhas definidas pelas questões do tempo, do sensível (das Sinnliche), da imaginação (Einbildungskraft), da mortalidade, da compreensão (Verstehen), da poesia e da tradução, escutando, em todos esses espaços, os ecos de um retorno duplicador que ecoaria, ele mesmo, o que os gregos pensaram como a mesmidade, a copertença, do caminho para cima e do caminho para baixo.

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