estudos:safranski:heidegger-23
Heidegger nos Anos Cinquenta: Fóruns Alternativos e Recepção Burguesa
RSH
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O Debate sobre a Reincorporação Acadêmica e a Busca de Novos Públicos
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Discussão na Universidade de Friburgo sobre a reintegração de Heidegger como professor emérito, com questionamentos sobre sua respeitabilidade filosófica e acusações de ser um “filósofo da moda” ou “charlatão”.
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Resposta de Heidegger: ao ter vedado o fórum universitário, busca ativamente audiências alternativas em âmbitos burgueses cultos, como o Clube de Bremen e o sanatório de Bühlerhöhe.
As Conferências em Bremen: Ousadia Filosófica em uma Cidade Livre-
Ciclo de conferências iniciado em dezembro de 1949 sob o título “Olhar para o que é”, na sala da Câmara Municipal nova.
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Contexto significativo: Heidegger ainda sob proibição oficial de lecionar; o círculo burguês de Bremen vê o convite como um ato de retificação de uma injustiça e uma afirmação da liberdade da cidade.
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Público característico: grande burguesia hanseática, comerciantes, armadores e diretores de estaleiros, para quem um pensador famoso era uma figura quase lendária.
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Função do fórum: ambiente liberal-conservador com formação humanista sólida, que via a filosofia como uma religiosidade mundana e valorizava o inacessível como marca do elevado.
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Conteúdo filosófico: palco para o lançamento piloto da filosofia tardia de Heidegger, com reflexões difíceis sobre “o dispositivo”, “o olhar”, “o relâmpago” e o “jogo do espelho” do quadrado (terra, céu, divinos, mortais).
O Sanatório de Bühlerhöhe: A “Jargão da Autenticidade” em Cenário de Elite-
Fundado pelo médico Gerhard Stroomann, promovia um tratamento baseado no encontro com o “espírito criador” para uma clientela rica e intelectual.
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As “Noites de Quarta-feira” (1949-1957) reuniam a elite intelectual e social para discutir grandes questões da época.
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Atmosfera descrita: excitação excepcional, sensação de “festa” e “aquecimento ao rubro” durante as apresentações de Heidegger.
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Exemplo de discussão: debate sobre ritmo, arte abstrata e a palavra “espaçar”, com intervenções de um público misto que ia de ministros a damas da alta sociedade, revelando uma recepção por vezes confusa e estetizante.
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Conclusão sobre o ambiente: Bühlerhöhe foi um locus eminente para a “jargão da autenticidade”, onde a linguagem heideggeriana era consumida como um bem cultural de prestígio.
A Conferência sobre a Técnica em Munique e o Debate da Época
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A Polêmica Invasão da Academia Bávara de Belas Artes (1950/1953)
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Convite polêmico: em 1950, Heidegger quase recusa devido a um mal-entendido tipográfico que interpretou como uma imposição de “estilo”.
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Conferência de 1950 (“A Coisa”): lotação esgotada, desistência indignada de um secretário de Estado durante a explanação do “jogo do espelho”.
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Recepção triunfal: a frase final “pois o questionar é a piedade do pensamento” foi ovacionada de pé, como uma “ária de bel canto” filosófica.
O Contexto Intelectual: A Técnica como Destino e o Mal-Estar nos Anos 50-
Diagnóstico compartilhado: a sensação de que a técnica, e não mais a política, havia se tornado o verdadeiro destino, um mal-estar que coexistia com o “milagre econômico”.
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Expressões culturais: movimento “Luta contra a Morte Atômica”, recepção de Kafka como crítico metafísico da técnica, sucesso de “Admirável Mundo Novo” (Huxley) e “O Homem Antiquado” (Anders).
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Obras-chave do debate: “Kafka, pró e contra” (Günther Anders, 1951), “O Terceiro ou o Quarto Homem” (Alfred Weber, 1953), “A Perfeição da Técnica” (Friedrich Georg Jünger, 1953).
As Posições em Confronto no Debate sobre a Técnica-
Críticos da técnica (F. G. Jünger, Anders): a técnica deixou de ser um meio, transformou interiormente o homem e seus fins, levando a uma exploração gigantesca da Terra rumo à entropia.
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Anticríticos (Max Bense): o problema não é a técnica em si, mas a falta de uma teoria e ética adequadas a ela; o homem precisa se aperfeiçoar para o mundo que criou.
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Conceito-chave de Günther Anders: a “vergonha prometeica” do homem, que se envergonha de seus produtos mais perfeitos do que ele próprio.
A Análise de Heidegger sobre a Essência da Técnica
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A Técnica como Modo de Desencobrimento e “Dispositivo” (Gestell)
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Tese central: a técnica moderna não é meramente instrumental, mas um modo específico de “desencobrimento” que “provoca” a natureza.
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Contraste fundamental: entre o “provocar” (Herausfordern) técnico e o “deixar vir à luz” (Hervorbringen) da physis grega ou da experiência poética.
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Exemplo ilustrativo: a central hidrelétrica que “interpela” o rio, transformando-o em “fundo disponível”, versus a ponte que deixa o rio ser ou o hino de Hölderlin.
A Dinâmica Autônoma do “Dispositivo”-
O “dispor” (Bestellen) transforma tudo em “fundo disponível” (Bestand), exigindo seu asseguramento calculado por mais técnica.
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O “dispositivo” é a totalidade desse circuito de provocação, fundo disponível e asseguramento, um sistema cibernético autorregulado onde tudo se relaciona com tudo.
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Consequência: o “dispositivo” torna-se nosso “destino”, um círculo vicioso que apaga a memória de outros modos de ser-no-mundo.
O Perigo e a Possibilidade de uma “Viragem” [Kehre]-
O perigo supremo: não são as máquinas, mas a ameaça à essência do homem, tornando-o incapaz de um desencobrimento mais originário.
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A atitude de abertura: o “desapego” (Gelassenheit) das coisas técnicas, um “sim e não simultâneo” que as deixa repousar em si, referidas a algo superior.
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A esperança na “viragem”: inspirado em Hölderlin (“onde há perigo, cresce também o que salva”), Heidegger vislumbra uma mudança como evento de destino, prenunciada no pensamento “recordativo”.
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Limitação e crítica interna: a plausibilidade de uma “viragem” histórica é questionada, mas Heidegger responde que a “plausibilidade” mesma é uma categoria do pensamento técnico.
As Viagens como Experiência do Lugar: Grécia e Provence
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A Peregrinação à Grécia (1962): Em Busca do Início
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Contexto: viagem presente de aniversário, após anos de hesitação e adiamentos por parte de Heidegger.
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Expectativa e dúvida: medo de encontrar apenas um “objeto da indústria do turismo” e não o “início grego”.
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Desenvolvimento da experiência: desencanto inicial (Corfu, Ítaca), abertura gradual (Olimpia, Micenas) e o momento culminante na ilha de Delos.
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A epifania em Delos: a experiência do “puro fazer-se presente”, da festa da visibilidade, onde o pensado se preenche de presença. Delos se torna o lugar da confirmação de seu pensamento.
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Conclusão melancólica: contrasta com a massificação turística em Atenas e Delfos, onde se perdeu a capacidade de “com-memorar”.
A Descoberta da Provence: A Segunda Grécia-
Contexto: amizade com o poeta René Char, que o convida para sua casa em Le Thor.
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A paisagem como parte do pensar: excursões à cadeia de Sainte-Victoire, o caminho de Cézanne, vivido por Heidegger como análogo a seu próprio caminho de pensamento.
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A comunidade intelectual: atmosfera de veneração relaxada e “alegria serena” sob a luz do sul, renovando a experiência do “mundo em seu melhor lugar”.
Os Seminários de Zollikon: Diálogo com a Psiquiatria
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A Amizade com Medard Boss e a Ponte para a Prática Terapêutica
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Origem: Boss, psiquiatra suíço, descobre em “Ser e Tempo” concepções férteis para a psicoterapia durante o tédio do serviço militar.
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Objetivo de Heidegger: fazer com que suas ideias ultrapassassem as estantes dos filósofos e beneficiassem os que precisam de ajuda.
O Conteúdo dos Seminários (1959-1969)-
Princípio fundamental: explicar o ser-aí como “ser-aberto-para-o-mundo”.
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Aplicação à psicopatologia: interpretar as perturbações psíquicas como distorções dessa abertura originária (ex.: o melancólico ou maníaco que não consegue “sustentar-se para fora” no mundo).
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Crítica ao psicanálise: as teorias sobre a pré-história do sofrimento dificultam a relação com o presente.
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Abordagem holística: não há ruptura entre doença e normalidade; o desvio individual é visto como a expressão aguda da patologia civilizatória moderna (a vontade de poder levada ao extremo).
A Confidência Pessoal: O Sonho Recorrente-
Conteúdo do sonho: Heidegger sonhava repetidamente que tinha de refazer o exame final do colégio com o mesmo professor.
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Interpretação simbólica: o sonho só cessou quando ele, no pensamento desperto, conseguiu experienciar a dimensão do “ser” à luz do “acontecimento”.
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