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Contribuições à Filosofia (1936-1938)

RSH

  • A versão pública do pensamento de Heidegger em torno de 1938 sintetiza-se na ideia de que “com o ser não há nada que fazer”, pois o ser se sustai quando tentamos capturá-lo diretamente, convertendo-se todo intento de apreensão em um ente objetificado dentro da ordem do saber ou dos valores humanos.
    • O ser não é um ente supremo (como Deus), mas o horizonte aberto no qual os entes nos aparecem; a pergunta pelo ser visa criar uma distância que permita experimentar essa relação mesma, uma experiência que transforma o homem, abrindo nele um “espaço de jogo” e uma liberdade frente ao mundo.
      • Em uma lição sobre Nietzsche, Heidegger sugere que quando o homem, em sua mirada ao ser, se deixa atrair por ele, é arrebatado e elevado para fora de si, estado que denomina “eros”, insinuando assim uma dimensão passional e extática na relação com o ser.
  • As “Contribuições à Filosofia” [GA65], escritas entre 1936 e 1938 como um texto não destinado à publicação, constituem um documento singular desse “eros filosófico”, um laboratório para a invenção de uma nova linguagem sobre Deus e o ser através de exercícios de pensamento que buscam o arrebatamento.
    • Heidegger procede segundo um modelo clássico de fundação religiosa: primeiro encena o crepúsculo dos ídolos, criticando as representações objetivantes de Deus na modernidade e a substituição do divino por noções como “causa primeira” ou “sentido da história”, todas pertencentes ao registro do ente, que deve ser “derrubado” para que o ser (Seyn) se mostre.
      • O exercício do pensamento do ser começa, portanto, com um esvaziamento (Gelassenheit), análogo ao praticado por mestres místicos como Eckhart ou Böhme, para que o coração vazio possa ser preenchido.
    • O Deus que emerge nesse pensamento esvaziado não é um ente, mas um acontecimento: Heidegger arrisca a fórmula de que “o ser (Seyn) é o estremecimento do divinizar”, deslocando o foco de Deus ou dos deuses para o processo de “divinizar” que nos afeta.
      • Este “divinizar” se manifesta através de uma “mina” de afecções fundamentais (Grundstimmungen) como espanto, contenção, ternura, júbilo e timidez, das quais o “pensamento essencial” deve extrair suas frases, evitando degenerar.
      • A linguagem das Contribuições, com suas repetições, heptacórdios e letanias, assemelha-se a um “rezo do rosário” cuja função é menos comunicar um conteúdo semântico do que produzir um estado de ânimo e fazer ressoar o silêncio, a “lógica” própria da filosofia quando esta se aproxima do ser.
  • A pretensão radical das Contribuições é que nelas não se descreve o ser, mas o próprio dizer é o “essenciar-se do ser” (Wesung des Seyns), como se o ser falasse através de Heidegger, numa audaz analogia com o espírito do mundo em Hegel.
    • Este dizer direto do ser expressa-se num “dadaísmo metafísico” de frases que parecem vazias de conteúdo, o que, no entanto, é uma informação fiel sobre um Deus que se sustai, sendo a obra um pensamento que sofre sob “fenômenos de sustação”.
    • Embora Heidegger destrua com precisão a tradição filosófica (tendo um objeto claro para sua crítica), o vazio que se segue à destruição permanece sem preenchimento, pois não ocorre o evento de uma nova consumação ou revelação plena.
  • O projeto ambicioso das Contribuições é produzir, a partir do puro pensamento, o evento real do divino, abandonando a separação estrita entre fé e filosofia que Heidegger defendera em 1927.
    • Como o divino não assume uma figura clara no pensamento, Heidegger recorre à noção de que “a proximidade ao último Deus é silêncio” e se designa como um precursor que aponta para um Deus vindouro, cuja esperança começa justamente nessas Contribuições.
    • A obra é subtitulada “Sobre o Evento” (Ereignis), referindo-se a dois eventos: a era moderna como “época do absurdo consumado” (o primeiro evento, do qual Heidegger crê ter se desvencilhado) e o “viragem” ou reviravolta que seu pensamento prepara, evento ainda solitário que anuncia uma nova época.
  • A estrutura das Contribuições é rigorosamente articulada como uma “fuga” musical, com seções que delineiam um caminho desde o esquecimento do ser até sua iluminação: “Mirada Previa”, “Assonância”, “Jogo Recíproco”, “Salto”, “Instauração”, “Os Advenientes”, “O Último Deus” e “O Ser”.
    • Nessa visão de conjunto, o nacional-socialismo é incluído entre as “manipulações” e o “sentimentalismo” plano da era moderna, incapaz de mudar a “necessidade essencial” do homem; todas as ideologias (seja humanismo, cristianismo, nacionalismo ou socialismo) são nulas para Heidegger, pois todas partilham o erro de fazer do homem o “centro do ente”, forma de “liberalismo” que inclui até o “liberalismo biológico” do racismo nazista.
      • Politicamente, na perspectiva do pensamento do ser, “todos os gatos são pardos”; a verdadeira iluminação só ocorre no diálogo solitário de Heidegger consigo mesmo, num cenário de “Heidegger contra o resto do mundo”.
  • Nas Contribuições, Heidegger não apenas filosofa a partir do evento do pensamento, mas também filosofa sobre si mesmo como um fato da história do ser, imaginando-se como “buscador, conservador e guardião” e tecendo fantasias sobre como seu pensamento, através de uma aliança iniciática, poderia penetrar silenciosamente no corpo social.
    • Ele se descreve como parte de um círculo íntimo de “poucos indivíduos” que fundam as novas paragens, seguidos por “confederados” e por “muitos referidos”, numa “história própria” oculta, distante do ruído das revoluções da “história universal”.
    • Contudo, essa visão carece de concretude política, derivando para metáforas de grandiosidade: as grandes filosofias são como “montanhas elevadas” que orientam o povo na planície, e a própria filosofia de Heidegger aspira a ser uma dessas montanhas no “país do ser”.
      • Esta imagem contradiz a filosofia da finitude e da contingência do ser-aí que Heidegger defendera antes, revelando um desejo de inscrição durável e uma inclinação para o “descolante” que beira a epifania de uma esfera eterna ou transcendente.
  • Enquanto se projeta nesse cenário grandioso da história do ser, Heidegger permanece cego para o exame de sua própria vida factual e de suas ações durante os anos do regime nazista, prática filosófica do conhece-te a ti mesmo que ele ignora.
    • Os “espinhos” de que falara a Jaspers (a perda da fé de origem e o fracasso do reitorado) são sublimadas nas Contribuições como destino da época e derrota gloriosa, numa “abstração por essencialização” (Habermas) que separa a esfera pessoal e moral da grandiosa coisa do pensamento.
    • Esta falta de reflexão moral não é apenas um traço de caráter (notado por Jaspers e Arendt como “impureza” ou “falta de caráter”), mas um problema filosófico: implica a renúncia a uma prudência que leve a sério a finitude, incluindo a possibilidade da culpa contingente, e abandona o ideal da transparência do ser-aí para consigo mesmo.
  • O poder do pensamento heideggeriano subjuga o próprio pensante, que se experimenta como um médium através do qual “isso me faz pensar em mim”, numa existência medial marcada pela “consciência de ter sido atingido… com a tarefa do pensamento” (Picht) e pela sensação de ser possuído por uma verdade estranha e única.
    • Esse estado gera um vaivém entre a solidão extática e a sensação de malfeita ou indiferença perante a grandeza da tradição filosófica, como expresso em cartas a Blochmann e Jaspers, onde oscila entre a euforia do “grande logro” e o sentimento de que seu trabalho é “totalmente indiferente e desleixado”.
    • Apesar do tormento, há também júbilo (Freude) nesse processo: o júbilo, junto com a angústia e o tédio, forma uma “trindade sagrada” de afecções fundamentais nas Contribuições, sendo no júbilo que o ser-aí se torna o céu onde o mundo e as coisas aparecem no admirável “fato de que são”.
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