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A Filosofia do Evento e a Profundidade da Finitude (1929-1930)
RSH
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Ao assumir a cátedra de Husserl em Friburgo em 1928, Heidegger vê-se submetido a uma prova: resistir à sedução da erudição e à fama pública, mantendo o foco na atividade filosófica viva, não na mera continuação ou sistematização de “Ser e Tempo”.
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Heidegger desvaloriza “Ser e Tempo” em cartas a Jaspers, ressentindo-se de sua recepção como um sistema antropológico completo; ele rejeita a ideia de uma filosofia “redonda” sobre o homem, pois isso contradiz a finitude e historicidade constitutivas do ser-aí, cujo único fim real é a interrupção contingente pela morte.
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Seu objetivo é “fluidificar” novamente o pensamento, dissolvendo sua própria ontologia fundamental no movimento vivo do filosofar, evitando que se petrifique em método ou citação.
As grandes lições do semestre de inverno de 1929-30, “Os Conceitos Fundamentais da Metafísica: Mundo — Finitude — Solidão”, marcam um “começo totalmente novo” e inauguram um estilo de “filosofia do evento”.-
A filosofia é concebida como o “turbilhão” que arremessa o homem para compreender o ser-aí sem fantasias, um “ataque” a toda certeza e confiança no mundo, cujos conceitos permanecem vazios se não formos antes “tocados” pelo que devem compreender.
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Sua tarefa real e difícil não é demonstrar verdades, mas “empurrar a própria existência e a dos outros para uma problematicidade fértil”, despertando o “acontecer fundamental na existência humana”.
Para esse filosofar “selvagem e perigoso”, que exige uma “disposição elementar para a periculosidade da filosofia”, é necessário que “o ser-aí escolha seus heróis” — homens com a “surpreendente tarefa de ser para os outros uma incitação para que desperte neles o filosofar”.-
Heidegger se conta entre esses homens carismáticos, consciente de sua missão e do “isolamento surpreendente” que isso traz, sentindo-se, como escreve Jaspers, “livre como sob um céu puro” em sua companhia.
O ponto alto dramático dessa filosofia do evento é a análise extensiva (150 páginas) do *tédio* (Langeweile) como evento de iniciação metafísica, um mergulho no vazio para ouvir o “sussurro fundamental da existência”.-
Heidegger descreve três formas de tédio, escalando em profundidade: 1) tédio “com algo” (causa externa identificável); 2) tédio “por ocasião de algo” (a situação torna a si mesmo entediante); 3) o tédio profundo e anônimo: “Um se entedia” (Es langweilt einen).
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Este último é um “estar à mercê do ente que se nega a conceder-se em sua totalidade”, uma tripla negatividade: um não-eu, um todo armado de nada e uma falta de referência como relação negativa.
Nesse tédio, o tempo não quer passar, “desterra” e paralisa, revelando que nós “temporalizamos” o tempo e que, ao parar, experimentamos o tempo puro, a pura presença.Este ponto de paralisia e vazio é a peripécia do drama: diante da tripla negatividade, a única saída é o *desprendimento* e a *resolução* (Entschlossenheit).-
A resolução não se apoia em uma identidade compacta, mas a inventa; no “instante da resolução” que brota do tédio, o si-mesmo nasce e se abre, colocando o ser-aí em movimento.
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Assim, o “tempo desterrador” produz complementariamente uma “impulsão do ser-aí ao cume daquilo que propriamente possibilita”: a liberdade.
Heidegger conecta essa experiência íntima do vazio com um diagnóstico da época (inverno de 1929-30, início da Grande Depressão), argumentando que a agitação defensiva contra todas as necessidades palpáveis (desemprego, crise política) impede que aflore a “indigência no conjunto” — o apremio essencial do ser-aí como tal, sua carga e mistério.-
Esse “mistério” que provoca “espanto” (Schrecken) — termos que aludem ao numinoso de Rudolf Otto — é o próprio ser-aí como o enigma espantoso do fato de que há ente e não o nada puro.
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Infundir esse espanto e despertar o filosofar é, no momento presente, tarefa do filósofo carismático (Heidegger mesmo), não de eventos políticos ou da guerra mundial; trata-se de “conjurar” o ser-aí para derrubar os “edifícios” das concepções de mundo.
A análise do tédio é uma preparação para experienciar os conceitos fundamentais: *mundo, finitude, solidão*. O “mundo como um todo” nos aparece justamente em sua retirada, no sustrair-se experimentado no tédio e na angústia.-
O movimento tripartido é: 1) dispersão cotidiana no mundo; 2) o grande vazio e a distância; 3) o retorno do arrebatado com nova intensidade: o si-mesmo e as coisas se tornam “mais entes”. O objetivo é “reconquistar essa dimensão original… para voltar a “ver” todas as coisas com mais simplicidade, força e persistência.”.
Na segunda parte das lições, Heidegger desenvolve, como um enclave único em sua obra, uma filosofia da natureza, respondendo ao desafio das antropologias filosóficas de Scheler e Plessner, que situavam o homem no contexto natural sem naturalizá-lo.-
Ele investiga a diferença ontológica no “ter mundo”: a pedra é “sem mundo” (weltlos); o animal é “pobre em mundo” (weltarm), embargado em seu “anel desinibidor” (Umring) ambiental; o homem é “formador de mundo” (weltbildend).
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A abertura do homem para o mundo é um “espaço de jogo” (Spielraum) ou liberdade, onde o ente pode se apresentar desde o horizonte do possível e do aniquilador, ganhando contorno, agudeza e singularidade. Só o homem, familiarizado com a nada, experimenta a presença como tal.
Esta abertura é o “lugar aberto” (die offene Stelle) no homem, onde a natureza, segundo o pensamento de Schelling retomado por Heidegger, “abre os olhos e nota que está aí”. Sem o homem, o ser seria mudo.-
As lições, que começaram com o arrebatamento pálido do tédio, terminam no arrebatamento oposto do entusiasmo filosófico: “O homem é aquele não poder permanecer e ao mesmo tempo não poder mover-se do lugar… E só onde há a periculosidade do estremecimento, há também a felicidade da admiração, aquele arrebatamento desperto que constitui o alento de todo filosofar”.
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