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estudos:rorty:1991:4

4 Literatura

(RR1999)

HEIDEGGER, KUNDERA E DICKENS

1. A hipótese de uma destruição termonuclear do Ocidente permite imaginar sociedades asiáticas e africanas empenhadas em apagar sua memória, enquanto pequenos grupos preservam clandestinamente livros, obras de arte e outros testemunhos culturais.

2. A recuperação futura desses testemunhos permitiria produzir numerosas histórias do Ocidente, centradas em diferentes realizações e transformações, cujo interesse dependeria das necessidades específicas das sociedades que as elaborassem.

3. A tentativa filosófica de reduzir essas histórias a uma descrição da essência do Ocidente prolongaria um essencialismo que, embora fecundo nas ciências naturais, tem demonstrado pouca utilidade para compreender culturas, trajetórias históricas e escolhas humanas.

4. A tendência de tratar o Ocidente como uma estrutura acabada, em vez de uma aventura ainda em curso, reflete a influência de Nietzsche e Heidegger e um pessimismo político que desconfia das esperanças de liberdade e igualdade e procura no Oriente uma possível redenção.

5. A interpretação heideggeriana do esgotamento das possibilidades do Ocidente não deve ser tomada como conclusão definitiva, pois sua força imaginativa depende de uma perspectiva concentrada na filosofia e na poesia lírica, cuja adoção irrestrita constitui uma deformação profissional dos filósofos.

6. Dickens oferece uma alternativa à interpretação heideggeriana porque seus romances permitem reconhecer na esperança de liberdade e igualdade, e na capacidade de protesto moral da literatura, um legado ocidental mais importante do que o domínio tecnológico.

7. A oposição entre Heidegger e Dickens pode ser desenvolvida pela aproximação do primeiro ao sacerdote ascético e pela compreensão kunderiana do romance como resistência ao domínio desses sacerdotes e como gênero associado à democracia, à liberdade e à igualdade.

8. A história heideggeriana do ser interpreta o Ocidente como um processo de formação de dualismos e intensificação da vontade de domínio, culminando numa época em que seres e acontecimentos são enquadrados como meios disponíveis para manipulação ou fruição estética.

9. A essencialização heideggeriana nivela acontecimentos politicamente e moralmente distintos, subordinando diferenças de sofrimento, liberdade e felicidade a uma interpretação abrangente que as considera manifestações superficiais de um mesmo processo.

10. A procura de uma essência subjacente à história explica a desvalorização heideggeriana da narrativa, inicialmente subordinada à ontologia e posteriormente considerada insuficiente até mesmo para realizar a tarefa de pensar a história da metafísica.

11. Apesar da preferência pela lírica e da desconfiança diante da narrativa, a principal originalidade de Heidegger reside na construção de uma história dramática da filosofia ocidental inspirada pela interpretação nietzschiana do sacerdote ascético e de sua vontade de poder.

12. A interpretação de Nietzsche como último metafísico permite a Heidegger procurar uma saída da vontade de domínio e do próprio Ocidente, passando da narrativa da história do ser ao pensamento do acontecimento apropriador (Ereignis) e da estrutura épica à expressão lírica.

13. A tentativa heideggeriana de resumir e ultrapassar o Ocidente reproduz o gesto do sacerdote ascético que procura purificar-se de sua época, afastando-se das lutas humanas e atribuindo à própria interpretação uma importância redentora.

14. A busca de uma purificação capaz de abrir o indivíduo a algo inteiramente outro aproxima Heidegger de tradições orientais que também valorizam o afastamento das ocupações comuns e a receptividade a uma realidade não subordinada às relações entre os seres.

15. A concentração do diálogo intercultural em tradições filosóficas pode ocultar elementos como o romance e limitar a comparação a diferentes manifestações de um mesmo tipo humano, o sacerdote ascético que procura afastar-se de seus semelhantes pelo contato com uma realidade superior.

16. O gosto profissional dos filósofos pela essência e pela teoria exige cautela diante da suposição de que seus equivalentes em outras culturas sejam as melhores fontes de compreensão intercultural, pois a filosofia comparada pode apenas confrontar adaptações locais de um mesmo caráter.

17. O sacerdote ascético procura ultrapassar ou purificar a linguagem comum para alcançar o inefável, desprezando a possibilidade de que a felicidade e a redução do sofrimento constituam compensações suficientes para aquilo que considera esquecimento do ser.

18. A busca ascética de pureza e simplicidade associa-se a uma hierarquização falocêntrica que deprecia as mulheres e as atividades comerciais, reservando ao sacerdote a superioridade de um suposto acesso à realidade oculta pelas aparências.

19. Apesar de sua distância da felicidade cotidiana, os sacerdotes ascéticos contribuíram decisivamente para a cultura ao produzir novidades linguísticas e projetos que enriqueceram as possibilidades de vida das gerações posteriores.

20. A oposição entre a preferência ascética pela essência e a preferência romanesca pela diversidade encontra expressão na concepção de Kundera de que o romance nasce do humor e desfaz as certezas ideológicas construídas por teólogos, filósofos e outros produtores de sistemas.

21. A comparação intercultural pode tornar-se mais fecunda quando inclui tradições de antiteoria e formas de humor que contestam os sábios, em vez de se limitar aos diálogos entre representantes das respectivas tradições filosóficas.

22. O humor dirigido contra os sistemas teóricos pode expressar a reação das pessoas comuns à indiferença dos pensadores pelo sofrimento, especialmente quando estes subordinam acontecimentos concretos a padrões históricos destinados a conferir importância universal às suas próprias obsessões.

23. A pretensão filosófica de alcançar uma realidade superior às preocupações comuns torna-se cômica quando serve para ignorar as buscas alheias de felicidade e para tratar o aumento ou a diminuição do sofrimento como meras aparências.

24. O romance substitui a oposição entre realidade e aparência por uma pluralidade de descrições e reconhece como realização humana a capacidade de compreender perspectivas diferentes, garantindo a todos o direito de ser entendidos sem atribuir a ninguém a posse exclusiva da verdade.

25. A utopia democrática sugerida pelo romance é uma comunidade orientada pela tolerância, pela curiosidade e pela redução do sofrimento, na qual nenhuma religião ou filosofia estatal autoriza alguém a impor aos demais uma verdade superior.

26. Embora ambos rejeitem a metafísica, Heidegger procura uma abertura ao ser associada à simplicidade pastoral, enquanto Kundera valoriza uma convivência carnavalesca de indivíduos diversos, sem conceder a ninguém uma autoridade fundada no contato com algo superior à humanidade.

27. O desejo de julgar antes de compreender sustenta religiões e ideologias que exigem identificar inequivocamente culpados e inocentes, revelando uma dificuldade de aceitar a relatividade dos assuntos humanos e a ausência de um juiz supremo.

28. A aproximação kunderiana entre o esquecimento do ser e o esquecimento da relatividade humana não corresponde plenamente a Heidegger, cuja valorização de pensadores e poetas preserva a ideia de momentos privilegiados em que a existência é legitimada pelo contato com algo inteiramente outro.

29. Enquanto Heidegger procura momentos capazes de redimir e condensar a história, Kundera propõe participar de seu desenvolvimento contingente e reconhecer, com Flaubert, que a estupidez acompanha o progresso em vez de desaparecer diante da ciência e da educação.

30. A esperança de eliminar a estupidez deve ceder à tarefa de reduzir seus efeitos dolorosos, reconhecendo as grandezas e limitações de cada época sem recorrer a essências ou destinos históricos, pois até a historicização heideggeriana pode reproduzir a tentativa de escapar ao tempo e ao acaso.

31. A concepção kunderiana do romance como uma sequência aberta de descobertas contrapõe-se ao diagnóstico heideggeriano de esgotamento do Ocidente, recusando tanto uma essência fixa do gênero quanto um limite previamente estabelecido para suas possibilidades.

32. O valor do romance e da história europeia não pode ser decidido pelo destino político posterior do Ocidente, pois a capacidade do futuro de julgar o passado não lhe confere competência nem autoridade para determinar seu significado.

33. O vínculo com o legado de Cervantes oferece uma alternativa à submissão ao julgamento futuro e à procura de garantias em Deus, na nação, no povo ou no indivíduo.

34. A singularidade incategorizável das personagens de Dickens permite substituir classificações morais abstratas por comparações concretas e orientar a reflexão para formas de convivência e instituições que ampliem o direito de cada pessoa a ser compreendida.

35. A busca dickensiana de uma convivência confortável contrasta com os projetos ascéticos de transformação universal da humanidade, pois exige sobretudo atenção às pessoas concretas e reconhecimento de seu direito à compreensão, sem impor um modelo de ser humano novo.

36. Dickens contribuiu para a liberdade e a igualdade por meio da sensibilidade e da indignação generosa, atacando instituições com grande intensidade sem perder a confiança nas pessoas nem impedir que os próprios criticados reconhecessem o valor de sua obra.

37. A capacidade de Dickens de criticar sem se tornar odiado decorre de sua atenção a situações específicas de sofrimento e indiferença, que lhe permite falar como integrante da comunidade e despertar uma indignação compartilhável.

38. A indignação generosa de Dickens distingue-se da ira ascética por atribuir os males à falta de atenção entre pessoas concretas, esperando que o reconhecimento do sofrimento favoreça sua reparação sem exigir uma reconstrução integral da humanidade.

39. Embora a expectativa de corrigir o mal pela atenção ao sofrimento nem sempre se confirme empiricamente, ela sustenta uma atitude moral na qual a teoria serve à narrativa e à compreensão concreta, relação historicamente mais fecunda para a transformação social.

40. O balanço dos efeitos de romancistas e teóricos favorece uma educação política que amplie a identificação imaginativa com os governados, em vez de subordinar suas vidas a ideias gerais cuja aplicação autoritária despreza os detalhes humanos.

41. A atenção dickensiana aos pormenores permite reconhecer na crescente tolerância à diversidade uma realização importante do Ocidente, tratando aparentes inconsistências como limites de nossos vocabulários e favorecendo sociedades pluralistas orientadas ao alívio do sofrimento.

42. Apesar de seu racismo, sexismo e imperialismo, a cultura ocidental desenvolveu uma consciência crítica dessas práticas e uma sensibilidade à diversidade que deve mais aos romancistas do que aos filósofos ou aos poetas.

43. A valorização da tolerância e da convivência confortável dispensa a busca de uma grandeza histórica redentora e permite compreender a autodepreciação ocidental como outra manifestação da antiga demanda ascética de pureza, cujo abandono pode favorecer trocas mais úteis entre culturas.

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