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ROMANO (1999:165-166) – LUTO COMO UMA AMPUTAÇÃO

Essa morte para os outros como morte para si mesmo (luto), para aquele “mesmo” de singularidade que era tal apenas a partir do acontecimento impessoal do encontro em que os outros se manifestam pela primeira vez; o autor (Marcel Proust) de La Recherche compara esse desfecho, no sentido literal, das eventualidades que se entrelaçam para articular nossa aventura comum, à dor que os amputados sentem em seu “membro fantasma”; na ocasião de um belo dia ensolarado, propício para uma caminhada, surge a ideia de que Albertine sem dúvida teria ido a Touraine para um passeio de bicicleta: “Mas, como acontece com os amputados, a menor mudança no clima renovava minha dor no membro que não existia mais” : a perda do amado é tanto uma perda de mim mesmo que pode ser comparada aqui a um seccionamento de minha carne; mas se a dor dos amputados ainda é “localizável” — precisamente no “membro fantasma” -, o sofrimento do amor não é. É essa dor onipresente e onipresente, que nunca é tão intensa quanto é por causa dos detalhes minuciosos — objetos que um dia pertenceram a ela, frases que ela costumava usar etc. — que estão neste mundo como o “membro fantasma”. — Detalhes nos quais o mundo antigo de repente brilha intensamente, como se fôssemos transportados de volta a ele. Aqui, como no caso da ferida do amputado, é uma ferida da qual não há “cura”, se “cura” significa a restauração da integridade corporal: uma ferida única e irremediável, produzida em nós pela perda do único e disto que, de nós, para ela, era único, ou melhor, de “aquele” (o “quem” da singularidade) que ela amava, e que existia como tal apenas para ela, nessa “relação” de amor absolutamente singular e singularmente absoluta. Nada pode, de fato, curar a perda daquilo que não pode, de forma alguma, ser substituído. Em uma mesma eventualidade, várias feridas podem coexistir, correspondendo a lutos sucessivos, mortes sucessivas para outros e, consequentemente, para si mesmo .

[ROMANO, Claude. L’événement et le monde. Paris: PUF, 1999]

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