Romano (1999:44) – Acontecimento em sentido "événementiale"
ROMANO, Claude. L’événement et le monde. Paris: PUF, 1998
O mesmo não se passa com o acontecimento, no sentido propriamente “événementiale”, na medida em que este se distingue precisamente do simples fato. Enquanto o fato intramundano não se dirige a ninguém em particular, e ocorre indiferentemente a qualquer testemunha, o acontecimento é sempre dirigido, de modo que aquele a quem acontece está propriamente implicado no que lhe acontece. Por conseguinte, compreender o sentido de um acontecimento nunca significa relacionar-se com ele no modo neutro de um puro observador, como se fosse um fato “objetivo” no mundo. O acontecimento nunca é “objetivo” como o fato pode ser, e não se presta a qualquer observação imparcial: aquele que compreende o que lhe acontece como acontecendo precisamente a si próprio está ipso facto envolvido naquilo que compreende, de modo que compreender o acontecimento e dele fazer a experiência insubstituível, experienciá-lo em si como destinado a si mesmo e a nenhum outro, são uma e a mesma coisa. Há aqui uma implicação estrita daquele que compreende no próprio ato de compreender: só posso compreender um acontecimento como sendo a mim dirigido se eu próprio estou em jogo nas possibilidades que ele me destina e pelas quais ele faz história abrindo-me um destino.
Em outras palavras, os fatos intramundanos me acontecem, mas não me põem em jogo a mim mesmo, em minha insubstituível ipseidade. O mesmo não se pode dizer dos acontecimentos que aqui servirão de fio condutor para uma interpretação do advento humano, segundo o enredo histórico da sua própria aventura. Esta hermenêutica do acontecimento da aventura humana à luz do acontecimento, tomado no seu sentido propriamente “événementiale”, constitui a tarefa primeira e última de uma fenomenologia do acontecimento.
