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Iniciativa
RICOEUR. Du texte à l’action. Paris: Seuil, 1986.
A iniciativa
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A meditação filosófica sobre a iniciativa visa esclarecer a posição do presente pessoal e histórico na arquitetura do tempo e, ao mesmo tempo, desenvolver seu alcance prático, ético e político como presente vivo, ativo e operante que responde às dificuldades da especulação.
I
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O presente só é pensado em oposição ao passado e ao futuro, ora como origem que projeta horizontes para trás e para diante, ora como trânsito em que expectativa e memória se cruzam.
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A relação entre presente, passado e futuro pode ser externa, quando as três dimensões se distinguem como não mais, ainda não e é, ou interna, quando passado e futuro aparecem como modificações positivas do próprio presente.
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A triplicidade do presente como presente do futuro, presente do passado e presente do presente confirma simultaneamente sua condição de origem e sua distensão íntima como passagem.
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A oposição entre presente e instante introduz uma terceira dialética, pois o presente vivo comporta espessura de iminência e recência, enquanto o instante exprime a incidência pontual, irruptiva e representável do agora.
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O instante tem direito próprio porque permite representar, medir e delimitar partes do tempo por pontos e intervalos, articulando-se ao movimento físico e à representação cosmológica do tempo.
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A polaridade entre tempo fenomenológico e tempo cosmológico é especulativamente insuperável, pois o tempo vivido depende da representação objetiva para se figurar, e o tempo físico depende de uma alma ou entendimento que distingue instantes e conta intervalos.
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A polaridade entre presente vivo e instante qualquer deve ser mantida como limite da fenomenologia do tempo, pois há um agora do presente vivido e um agora qualquer produzido por cortes no contínuo da mudança.
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A prática articula-se a esse paradoxo especulativo mediante a iniciativa, que oferece uma síntese prática entre presente vivo e instante qualquer.
II
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A preparação da síntese prática entre tempo sem presente e tempo com presente exige introduzir um terceiro tempo, expresso privilegiadamente pelo calendário.
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O calendário nasce na junção entre o tempo astronômico dos astros e o tempo cotidiano ou festivo dos ritmos biológicos e sociais, harmonizando trabalhos, dias, festas, estações e anos.
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Todo calendário escolhe um evento fundador que abre uma nova era e funciona como ponto zero ou momento axial a partir do qual os acontecimentos podem ser datados.
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A partir do momento axial, o tempo pode ser percorrido nos dois sentidos, do passado ao presente e do presente ao passado, incluindo a vida pessoal e comunitária nessa dupla orientação.
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O calendário utiliza unidades de medida derivadas de recorrências cósmicas, como dia, ano e mês, permitindo nomear intervalos constantes.
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O tempo calendárico reúne componentes físicos e fenomenológicos, pois combina a linearidade segmentável dos instantes quaisquer com a referência a um presente histórico vivo.
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A data faz coincidir um instante qualquer com um quase-presente, no qual se pode ingressar imaginativamente, e situa os acontecimentos em relação ao momento axial.
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A data só se determina como futura ou passada em relação ao presente da enunciação, pois um mesmo dia do calendário pode designar evento futuro ou passado conforme o discurso que o pronuncia.
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O tempo calendárico ocupa posição mediana, cosmologizando o tempo vivido e humanizando o tempo cósmico ao fazer coincidir um presente notável com um instante qualquer.
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A iniciativa encontra seu primeiro modelo no momento axial do calendário, pois initium significa começo e designa um evento capaz de dar novo curso às coisas.
III
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A iniciativa deve ser considerada primeiramente no plano individual e depois no plano coletivo.
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No plano individual, começar é experiência decisiva, pois a vida já se encontra marcada pela passividade de um nascimento não escolhido, mas, sobre esse fundo, ainda pode dar novo curso às coisas.
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A inteligibilidade da iniciativa individual pertence à categoria do fazer e não do ver, pois o começo deve ser pensado como ato de começar e como aquilo que se faz acontecer.
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A categoria do “eu posso”, segundo Merleau-Ponty, mostra que o corpo próprio é o mediador originário entre mundo e vivido, pois nele se articulam poderes, não poderes, circunstâncias, obstáculos e vias praticáveis.
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A teoria da ação esclarece a iniciativa ao distinguir ações de base, que se sabe poder fazer sem ação prévia, e aquilo que se faz acontecer mediante essas ações.
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A distinção entre observar o curso das coisas e intervir no mundo impede extrapolar determinismos parciais ao universo inteiro, pois o fazer mostra que a realidade não é totalizável.
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A teoria dos sistemas permite pensar a intervenção como junção entre o poder-fazer do agente e as relações internas de condicionalidade de um sistema fechado.
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A intervenção isola um sistema, põe-no em movimento a partir de um estado inicial e mostra que a ação está implicada na própria descoberta das relações causais.
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A explicação causal nunca alcança completamente a convicção do poder-fazer, pois a capacidade de produzir estados iniciais participa da constituição dos próprios sistemas causais.
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A iniciativa implica responsabilidade, e essa mediação passa pela linguagem, porque a ação humana se inscreve em regras, normas, avaliações e em uma ordem simbólica.
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Os atos de linguagem comprometem o locutor, especialmente os comissivos, cujo paradigma é a promessa, na qual alguém se coloca sob obrigação de fazer algo.
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Toda iniciativa comporta uma intenção de fazer e, portanto, um compromisso, como promessa silenciosa a si mesmo e tácita a outrem, sendo a promessa a ética da iniciativa.
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A fidelidade à palavra dada garante que o começo tenha uma sequência e que a iniciativa inaugure efetivamente um novo curso das coisas.
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A análise da iniciativa atravessa quatro fases: poder, fazer, intervir e perseverar na promessa.
IV
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A iniciativa coletiva permite formular a questão do presente histórico dos contemporâneos em contraste com predecessores e sucessores.
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O presente histórico deve ser pensado na interseção entre horizonte de expectativa e espaço de experiência, segundo as categorias de Reinhart Koselleck.
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O espaço de experiência designa o passado adquirido e estratificado, seja experiência privada, tradição transmitida ou instituição presente, formando uma estrutura que escapa à cronologia simples.
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O horizonte de expectativa inclui esperança, temor, desejo, vontade, cuidado, cálculo e curiosidade, configurando o futuro tornado presente como abertura para o ainda não.
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Espaço de experiência e horizonte de expectativa não são simétricos, pois a experiência tende à integração e a expectativa ao desdobramento de perspectivas, condicionando-se mutuamente.
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O presente histórico nasce da variação incessante entre horizonte de expectativa e espaço de experiência.
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A filosofia das Luzes introduziu uma nova percepção do presente histórico como puxado por expectativas, marcada pela novidade do futuro, pela aceleração do progresso e pela crença de que os homens fazem sua própria história.
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A ideologia do progresso foi abalada pela história efetiva, pela suspeita sobre a razão instrumental, pelos desastres recentes e pelo afastamento crescente entre experiência e expectativa.
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O presente moderno pode refletir-se como crise quando o horizonte de expectativa recua para um futuro incerto e o presente se vê dividido entre um passado ultrapassado e um fim último sem etapas intermediárias.
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A ideia de domínio da história é particularmente vulnerável e perigosa, pois ignora os efeitos perversos da ação, a imprevisibilidade das expectativas e o fato de que a ação histórica ocorre em circunstâncias não produzidas por ela.
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A ligação entre ação histórica e passado recebido preserva a dialética entre horizonte de expectativa e espaço de experiência.
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A crítica aos lugares comuns do progresso não deve negar a validade das categorias de horizonte de expectativa e espaço de experiência, que funcionam como transcendentais da pensamento histórico.
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A variação histórica entre experiência e expectativa revela a temporalização da história e confere às categorias de Koselleck seu estatuto meta-histórico.
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A implicação política dessas categorias é que deve ser preservada a tensão entre horizonte de expectativa e espaço de experiência para que ainda haja história.
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É preciso resistir às expectativas puramente utópicas, pois, sem ancoragem na experiência, elas desesperam a ação e não conseguem formular caminhos praticáveis.
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As expectativas devem ser determinadas, finitas e relativamente modestas, aproximando o horizonte de expectativa do presente por meio de projetos intermediários ao alcance da ação.
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A tarefa kantiana de uma história comum da humanidade permanece válida, desde que inclua direitos sociais e direitos à diferença sem abandonar o Estado de direito como condição de sujeitos individuais e coletivos de direito.
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Também é preciso resistir ao estreitamento do espaço de experiência, reabrindo o passado para suas potencialidades não cumpridas, impedidas ou destruídas.
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A tarefa consiste em tornar as expectativas mais determinadas e as experiências mais indeterminadas, pois somente expectativas determinadas revelam retroativamente o passado como tradição viva.
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A força do presente, nomeada por Nietzsche na Segunda consideração intempestiva, corresponde no plano coletivo ao equivalente da iniciativa.
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Nietzsche concebe a interrupção que o presente vivo opera sobre a fascinação exercida pelo passado, especialmente quando a historiografia torna o passado uma abstração fechada em si mesma.
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A reflexão intempestiva privilegia a vida contra o saber livresco e exige saber esquecer quando o passado histórico se torna fardo insuportável.
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A história crítica é necessária quando a história monumental e a história antiquária impedem a ação vital do presente sobre o passado.
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A força superior do presente dá o direito de interpretar o passado e de reconhecer a grandeza antiga a partir da grandeza atual.
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A força do presente é a capacidade histórica de refigurar o tempo, reativando potencialidades não cumpridas do passado transmitido em função de visões éticas e políticas do futuro.
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