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Ciência e Ideologia
RICOEUR. Du texte à l’action. Paris: Seuil, 1986.
Ciência e ideologia
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A reflexão sobre ciência e ideologia parte da advertência aristotélica de que, nas matérias práticas e políticas, não se deve exigir o mesmo grau de rigor das ciências exatas, pois a verdade aí só pode ser buscada de modo aproximado, esquemático e adequado à natureza variável do objeto.
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A apreciação relativamente positiva do fenômeno ideológico depende da tese aristotélica da pluralidade dos níveis de cientificidade, segundo a qual a política lida com fatos geralmente verdadeiros, mas não sempre verdadeiros, e exige juízo cultivado mais do que especialização técnica.
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O texto aristotélico funciona como advertência contra os perigos do tema da ideologia, especialmente contra a definição inicial em termos de classes sociais, dominação e suspeita.
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A análise da ideologia não deve começar pela classe dominante nem pela função de justificação da dominação, pois isso aprisionaria a investigação em uma polêmica estéril a favor ou contra o marxismo.
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O vínculo entre teoria da ideologia e estratégia da suspeita deve ser afrouxado para que a distorção interessada e inconsciente não seja nem eludida nem pressuposta desde o início.
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A questão epistemológica da teoria das ideologias exige perguntar se existe um ponto de vista sobre a ação capaz de escapar à condição ideológica do saber engajado na práxis.
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A pretensão de uma ciência não ideológica da prática repete a exigência condenada por Aristóteles, pois aplica às matérias éticas e políticas um modelo de rigor próprio das ciências demonstrativas.
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A relação entre ciência e ideologia depende tanto do sentido atribuído à ciência nas matérias práticas e políticas quanto do sentido atribuído à própria ideologia.
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A questão decisiva consiste em saber se, inexistindo uma ciência capaz de escapar à condição ideológica do saber prático, ainda se pode preservar a oposição entre ciência e ideologia.
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A oposição entre ciência e ideologia deve ser salva apenas em sentido dialético, modesto e não disjuntivo, mediante uma crítica das ideologias historicamente situada e capaz de introduzir distanciamento na reinterpretação dos legados culturais.
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A investigação busca uma relação intimamente dialética entre ciência e ideologia, compatível com o grau de verdade possível nas coisas práticas e políticas.
I. Busca de critérios do fenômeno ideológico
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A descrição do fenômeno ideológico deve chegar ao conceito marxista de ideologia em vez de partir dele, cruzando o marxismo sem adotá-lo nem combatê-lo diretamente.
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A análise weberiana da ação social e da relação social fornece o ponto de partida, pois a ideologia aparece no nível em que a ação é significante, orientada reciprocamente e socialmente integrada.
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A ideologia liga-se à necessidade de um grupo social dar a si mesmo uma imagem, representar-se teatralmente e encenar sua própria existência.
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A ideologia nasce da distância entre a memória social e o acontecimento fundador que se procura repetir, difundindo a convicção inicial e perpetuando sua energia para além do momento de efervescência.
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O ato fundador só pode ser retomado e atualizado por uma interpretação que o modela retrospectivamente mediante uma representação de si.
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A ideologia torna-se justificadora ao domesticar o evento fundador pela memória, e só permanece mobilizadora na medida em que também justifica.
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A ideologia possui dinamismo motivacional, pois está para a práxis social como o motivo está para o projeto individual: justifica e impulsiona ao mesmo tempo.
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A ideologia argumenta em favor do direito de um grupo ser o que é, exercendo poder fundador de segundo grau sobre empreendimentos e instituições.
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A ideologia preserva seu dinamismo por meio de simplificação e esquematização, funcionando como grade ou código de visão de conjunto do grupo, da história e do mundo.
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A transformação de sistemas de pensamento em sistemas de crença constitui o fenômeno ideológico, pois ideias perdem rigor para ganhar eficácia social.
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A imagem idealizada de um grupo reforça seu código interpretativo, produzindo ritualização, estereotipia, vocabulário correto e o reino dos “ismos”.
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A ideologia possui caráter doxológico, pois opera no nível da opinião, da racionalização, da máxima, do slogan e da fórmula persuasiva.
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A retórica ideológica deve ser entendida como o preço pago pela eficácia social das ideias, antes de ser denunciada como fraude ou patologia.
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O código interpretativo ideológico é aquilo em que os homens habitam e pensam, e não uma concepção tematizada diante deles.
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A ideologia é operatória e não temática, pois se pensa a partir dela mais do que sobre ela, tornando possível a dissimulação e a distorção da posição social.
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A impossibilidade de tematizar tudo faz da ideologia uma instância não crítica, mas essa não transparência dos códigos culturais é também condição da produção das mensagens sociais.
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A ideologia apresenta inércia e atraso, pois o novo só pode ser recebido a partir do típico sedimentado pela experiência social.
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A função de dissimulação se insere quando realidades efetivamente vividas pelo grupo não podem ser assimiladas pelo esquema diretor.
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A intolerância aparece quando a novidade ameaça a capacidade do grupo de reconhecer-se e reencontrar-se em sua própria imagem.
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A ideologia é simultaneamente efeito de desgaste e resistência ao desgaste, pois perpetua o ato fundador por representação enquanto reduz o campo de suas possibilidades interpretativas.
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A clausura ideológica e o cegamento ideológico surgem quando a interpretação do real se torna obturação do possível.
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A função de dissimulação domina quando a função geral de integração se conjuga à função particular de dominação ligada à organização hierárquica da sociedade.
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A ideologia interpreta e justifica por excelência a relação com a autoridade e com o sistema de autoridade.
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A autoridade busca legitimar-se, mas há sempre excesso da pretensão de legitimidade emitida pela autoridade sobre a crença que os indivíduos podem oferecer-lhe.
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A ideologia funciona como relais dessa mais-valia de legitimidade, tornando-se sistema justificativo da dominação.
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A autoridade é coextensiva à constituição do grupo, pois uma comunidade histórica só se torna realidade política quando se torna capaz de decisão.
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A ideologia-dissimulação interfere com a ideologia-integração porque a autoridade possui uma opacidade essencial e porque todo poder tende a repetir poderes anteriores.
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A distorção e a dissimulação passam ao primeiro plano quando a mediação ideológica encontra a dominação, mas a integração social nunca se reduz inteiramente a autoridade e dominação.
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O conceito marxista de ideologia acrescenta a ideia de distorção por inversão, na qual homens e relações aparecem de cabeça para baixo como em uma câmara escura.
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Em Marx, a ideologia é definida por sua função e por seu conteúdo, tendo a religião como ideologia por excelência enquanto inversão entre céu e terra.
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A ideologia marxista designa a méprise pela qual a imagem é tomada pelo real e o reflexo pelo original.
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A descrição marxista é inseparável da crítica genealógica das produções que vão do real ao imaginário, operando um renversement do renversement.
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O potencial descritivo de Marx consiste em especificar o conceito de ideologia sobre o fundo mais amplo da constituição simbólica do vínculo social e da relação de autoridade.
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As ilusões e fantasmagorias não teriam eficácia histórica se a ideologia não estivesse incorporada ao vínculo social mais elementar como constituição simbólica.
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A representação invertida da realidade só serve aos interesses da classe dominante porque a relação entre dominação e ideologia é mais primitiva do que a análise em classes sociais.
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A contribuição específica de Marx consiste em mostrar que a função justificadora da ideologia se aplica privilegiadamente à dominação nascida da divisão e da luta de classes.
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A limitação do conceito marxista está em definir a ideologia por um conteúdo específico, a religião, e não por sua função.
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A função ideológica pode desprender-se de qualquer conteúdo específico, de modo que ciência e tecnologia também podem operar como ideologias quando justificam o sistema militar-industrial do capitalismo avançado.
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A conjunção do critério marxista com critérios mais amplos liberta seu potencial crítico e permite voltá-lo contra usos ideológicos do próprio marxismo.
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A ideologia é fenômeno insuperável da existência social porque a realidade social possui desde sempre constituição simbólica e interpreta o vínculo social por imagens e representações.
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A questão torna-se então saber se existe um lugar não ideológico de onde se possa falar cientificamente da ideologia.
II. Ciências sociais e ideologia
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As querelas contemporâneas sobre a ideologia costumam rejeitar a advertência aristotélica sobre o caráter aproximativo das ciências práticas e pretendem falar da ideologia a partir de um lugar não ideológico chamado ciência.
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A antítese entre ciência e ideologia exige pôr em questão os dois termos, pois a ideologia só se reduz à consciência falsa quando é colocada diante de uma ciência supostamente não ideológica.
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Em sentido positivista, a oposição entre ciência e ideologia seria nítida apenas se a teoria social global satisfizesse aos critérios de explicação e falsificação das ciências positivas.
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A teoria social global não alcança a cientificidade que autorizaria falar de corte epistemológico em relação à ideologia.
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As ciências sociais globais oscilam entre teorias unificantes pouco verificadas e teorias parciais bem verificadas que renunciam à pretensão integradora.
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A denúncia arrogante da ideologia costuma proceder de teorias unificantes pouco exigentes quanto à verificação e falsificação.
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O recurso ao inconsciente ou ao real oculto não garante cientificidade, embora possua grande poder explicativo.
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O deslocamento das motivações conscientes para estruturas inconscientes pode tornar-se armadilha epistemológica quando a satisfação explicativa substitui a exigência de verificação.
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A eliminação da subjetividade dos agentes históricos não assegura que o discurso sociológico seja sem sujeito.
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A confusão entre explicação por estruturas e discurso sem sujeito enfraquece a vigilância quanto à verificação e à falsificação.
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O reforço formal do aparelho teórico não compensa a falta de verificação empírica, pois apenas fortalece o critério explicativo às custas do critério verificativo.
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O cruzamento entre teoria social das ideologias e psicanálise pode ser fecundo em uma perspectiva não positivista, mas enfraquece a precisão e a decidibilidade exigidas pela falsificação.
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A teoria social não possui autoridade comparável àquela que permitiu à astronomia separar-se da astrologia ou à química separar-se da alquimia.
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O abandono dos critérios positivistas exige abandonar também a concepção disjuntiva entre ciência e ideologia.
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Não se pode rejeitar o modelo positivista de ciência para legitimar a teoria social e conservar esse mesmo modelo para instaurar uma ruptura epistemológica nítida com a ideologia.
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A ciência em sentido crítico remete à tradição dos hegelianos de esquerda e ao subtítulo de O Capital como crítica da economia política.
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A teoria social como crítica deve perguntar se pode alcançar estatuto inteiramente não ideológico segundo seus próprios critérios.
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A primeira dificuldade da ciência crítica aparece quando ela se torna ciência combatente, pois corre o risco de reproduzir os fenômenos quase patológicos que denuncia no adversário.
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A interpretação leninista e althusseriana do marxismo como ciência partidária ameaça transformar a ciência marxista em ideologia segundo seus próprios critérios.
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A análise em classes sociais, inicialmente hipótese fecunda, torna-se dogma quando impede examinar novas estratificações das sociedades industriais, sociedades socialistas e fenômenos nacionalistas.
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A oficialização da doutrina pelo partido converte o marxismo em sistema de justificação do poder do partido e de seus dirigentes.
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O marxismo pós-Marx torna-se a exemplificação mais extraordinária de seu próprio conceito de ideologia quando passa a ocultar sua relação com o real.
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A função crítica do marxismo só pode ser liberada quando seu uso é dissociado do exercício de poder, autoridade e ortodoxia, tornando-se instrumento de trabalho entre outros.
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Marx pensa a ideologia por metáforas de inversão, reflexo, eco, sublimação e nuvens, revelando a permanência de um vocabulário especular e metafísico.
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O fétiche da mercadoria, em O Capital, não supera a analogia religiosa, mas ainda se apoia na forma fantasmagórica de um mundo já transformado e encantado.
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O fracasso em pensar não metaforicamente a produção da ilusão mostra a dificuldade de derivar imagens ideológicas de uma realidade social anterior à simbolização.
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Se o vínculo social é originariamente simbólico, torna-se inútil procurar um real social pré-ideológico de que as imagens seriam apenas reflexos secundários.
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A distorção ideológica deve ser pensada como especificação de um fenômeno mais fundamental: a representação do vínculo social depois de sua constituição simbólica.
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A transparência social não está atrás, na origem, mas adiante, como limite de um processo histórico talvez interminável.
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A separação entre ciência e ideologia é uma ideia-limite, pois não se dispõe atualmente de uma noção não ideológica da gênese da ideologia.
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A dificuldade mais fundamental está na impossibilidade de uma crítica absolutamente radical, pois uma consciência radicalmente crítica exigiria reflexão total.
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A explicação por projetos envolve necessariamente o teórico em sua própria situação e pressupõe a clarificação total de seu projeto.
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A explicação por sistemas também pressupõe um ponto de vista da totalidade, pois precisa de uma teoria da evolução dos sistemas apoiada em modelos físicos, biológicos ou filosóficos.
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Nenhuma teoria social totalizante consegue escapar à condição ideológica, pois não pode realizar reflexão total nem acessar um ponto de vista capaz de exprimir a totalidade.
III. A dialética da ciência e da ideologia
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A oposição mal pensada entre ciência e ideologia não deve ser simplesmente abandonada, pois sua tensão impede tanto a antítese cômoda quanto a confusão ruinosamente indiferenciada.
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A passagem pelo ponto de quase não distinção entre ciência e ideologia possui valor terapêutico, como mostra Karl Mannheim em Ideologia e utopia.
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Mannheim generaliza a crítica ideológica ao mostrar que o marxismo descobriu a ideologia como estrutura de pensamento de grupos, classes ou nações, mas não aplicou suficientemente a suspeita a si mesmo.
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A suspeita generalizada transforma a ciência combatente em sociologia do conhecimento, cujo objetivo é explicitar o condicionamento social de todo pensamento.
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As ideologias e utopias são formas de não congruência em relação à realidade social, distinguindo-se sobretudo por sua orientação retrospectiva ou prospectiva e por sua relação com classes dirigentes ou emergentes.
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A oposição entre ideologia e utopia nunca é total, pois ambas se destacam sobre o fundo comum de uma discordância em relação a uma realidade que só se revela na prática efetiva.
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A ação só é possível porque há um desvio entre pensamento e realidade que não impede, mas acompanha, a adaptação constante a uma realidade em fluxo.
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Na teoria generalizada da ideologia, o lugar de onde fala o pesquisador não existe como exterioridade absoluta, pois ele também está preso à ideologia.
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A neutralidade axiológica weberiana é apenas um estágio necessário, não uma posição final, pois todo ponto de vista é particular a uma situação e deve explicitar suas pressuposições.
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A supressão total de pressuposições conduziria à esterilidade, pois sem pressuposições não há perguntas, hipóteses nem pesquisa.
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Uma sociedade sem ideologia nem utopia seria sem projeto, sem distância de si e sem representação de si.
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Mannheim tenta distinguir relationismo de relativismo por meio da exigência impossível de reinserir todas as ideologias parciais em uma visão total que lhes atribua sentido relativo.
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A busca de uma síntese total depende da utopia de uma intelligentsia relativamente sem classe, capaz de portar uma visão sociológica total.
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A tarefa de uma síntese total é impossível, mas sua impossibilidade não obriga a renunciar a todo juízo de verdade sobre a ideologia.
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A saída exige um discurso hermenêutico sobre as condições de toda compreensão histórica, capaz de reencontrar, a partir da falência da reflexão total, a estrutura da pré-compreensão.
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Todo saber objetivante sobre posição social, classe, tradição cultural ou história é precedido por uma relação de pertença que nunca pode ser inteiramente refletida.
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A pertença histórica, cultural e tradicional implica desde o início a função integradora da ideologia, junto com suas funções de justificação e distorção.
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A pré-compreensão ontológica exclui a possibilidade de um saber totalmente não ideológico.
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O saber objetivante, embora segundo em relação à pertença, pode constituir-se em autonomia relativa graças ao fator de distanciamento próprio da historicidade.
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A hermenêutica da pré-compreensão exige um discernimento crítico entre pré-compreensão e preconceito.
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A distancição não é apenas temporal, mas positiva, pois compreender implica opor um dito a si mesmo como texto e aproximar a coisa do texto por meio da distância.
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A crítica das ideologias deve ser assumida como trabalho da compreensão sobre si mesma, implicando uma crítica das ilusões do sujeito.
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A distancição, dialeticamente oposta à pertença, é condição da crítica das ideologias dentro da hermenêutica, e não fora dela ou contra ela.
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A crítica das ideologias pode organizar-se em saber, mas esse saber permanece parcial, fragmentário e insular, pois a distancição é momento da pertença.
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A não completude da teoria da ideologia funda-se hermeneuticamente na condição originária da compreensão.
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A tese de Habermas segundo a qual todo saber é sustentado por um interesse deve ser assumida, reconhecendo que a crítica das ideologias é movida pelo interesse de emancipação.
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O interesse de emancipação funciona como ideologia ou utopia, sem que se possa decidir antecipadamente qual das duas formas assume.
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O interesse emancipatório não rompe totalmente com os interesses de dominação material, manipulação e comunicação histórica, e por isso não instaura corte epistemológico absoluto.
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A crítica das ideologias, movida por um interesse específico, nunca rompe seus vínculos com o fundo de pertença que a sustenta.
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A crítica das ideologias é tarefa sempre recomeçada e por princípio inacabável.
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O saber arranca-se continuamente à ideologia, mas a ideologia permanece como grade e código de interpretação que ancora o intelectual na substância ética e histórica.
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A tarefa de pensar ciência e ideologia exige renunciar à arrogância da crítica e praticar pacientemente o trabalho interminável de distanciamento e retomada da substância histórica.
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