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Do Texto à Ação

RICOEUR. Du texte à l’action. Paris: Seuil, 1986.

  • O volume reúne os principais artigos publicados na França e no exterior nos últimos quinze anos, dando seguimento a Le Conflit des interprétations, sem manter o mesmo título por já não sentir necessidade de justificar a legitimidade de uma filosofia da interpretação frente à semiótica ou à psicanálise
  • Os três primeiros ensaios ainda carregam uma exigência de legitimação, situada não frente a concorrentes mas frente à própria tradição de pensamento — afirma-se que a hermenêutica, ou teoria geral da interpretação, nunca terminou de se explicar com a fenomenologia husserliana, da qual ela sai nos dois sentidos do termo
    • Reconstitui-se a linhagem de ancestrais que a hermenêutica contemporânea, pós-heideggeriana, conjuga com sua ascendência husserliana, inscrevendo o nome de Schleiermacher ao lado do de Husserl sem substituí-lo
    • O tema da distanciação marca a contribuição pessoal à escola fenomenológico-hermenêutica, caracterizada pelo papel atribuído à instância crítica em todas as operações de pensamento próprias da interpretação
  • Os textos da segunda série ilustram melhor a tonalidade irênica assumida na obra, afirmando-se uma dominante que é a reinscrição progressiva da teoria do texto na teoria da ação
    • O que sempre mais interessou na análise semiótica ou semântica dos textos é o caráter paradigmático de sua configuração em relação à estruturação do campo prático em que os homens figuram como agentes ou pacientes
    • Os textos, sobretudo literários, são conjuntos de signos que romperam suas amarras com as coisas designadas, mas entre essas coisas ditas há homens agentes e sofredores, e os discursos são eles mesmos ações, de modo que o vínculo mimético entre o ato de dizer e ler e o agir efetivo nunca se rompe de todo, tornando-se apenas mais complexo pela cisão entre signum e res
    • Os ensaios da segunda seção produzem, grau a grau, a inversão de prioridade pela qual o cuidado prático reconquista a preeminência que uma concepção limitada da textualidade começa por obliterar, indo do texto e sua estruturação interna até um esboço do conceito de razão prática e a irrupção do agir no tempo presente sob a figura da iniciativa
    • O ensaio inédito em francês, de fortuna em língua inglesa sob o título Le modèle du texte: l'action sensée considérée comme un texte, marca o giro de uma problemática à outra, sem que a noção de texto perca seu caráter paradigmático, passando de modelo de a modelo para, segundo fórmula do antropólogo Clifford Geertz
    • A velha polêmica entre explicar e compreender pode então ser retomada em termos novos, menos dicotômicos e mais dialéticos, com campo de aplicação mais amplo, estendendo-se ao texto, à historiografia e à práxis, anunciando-se ainda o papel da imaginação no trabalho de configuração do texto e refiguração da ação
  • Reúnem-se na última seção alguns ensaios em que predomina o tema da ideologia, ligados ao grupo precedente pelo papel atribuído à imaginação criadora e ao esquematismo no plano da prática social
    • Essa função específica da imaginação aproxima-se do papel atribuído a ela em La Métaphore vive e em Temps et Récit
    • O exame do fenômeno ideológico reencontra a crítica ideológica no sentido de K. O. Apel e de Jürgen Habermas, oferecendo exemplo concreto de integração da instância crítica ao processo interpretativo
    • O conjunto termina com uma reflexão pouco técnica sobre as relações entre ética e política, esboçando uma pesquisa mais sistemática ainda por fazer sobre as conexões estreitas entre teoria da ação, teoria narrativa e teoria ético-política
  • Julgou-se útil colocar à frente da coletânea um trabalho originalmente destinado a um público de língua inglesa, cuja ambição era oferecer uma visão de conjunto da pesquisa em filosofia, ao lado de uma dezena de outros filósofos franceses
    • O trabalho foi integrado ao volume por dar um panorama dos estudos recentes sobre a função metafórica e a função narrativa, compensando a eliminação voluntária dos artigos que sustentaram a construção das obras sistemáticas nesses dois campos
    • O ensaio percorre em sentido inverso as etapas que conduziram dos primeiros trabalhos sobre Husserl à redação de La Métaphore vive e de Temps et Récit, conduzindo ao término desse itinerário o leitor ao limiar da primeira série dos ensaios aqui reunidos
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