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Texto e Leitor
RICOEUR, Paul. Temps et récit III. Paris: Éd. du Seuil, 1985.
Mundo do texto e mundo do leitor
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Perguntar o que, do lado da ficção, corresponde ao passado “real” da história seria insensato nos termos tradicionais da referência, já que apenas o historiador pode referir-se a algo observável por testemunhas, ao passo que personagens e experiências da ficção são “irreais”; mas essa dissimetria já foi rompida ao questionar-se o próprio conceito de “realidade” do passado, cuja passeidade não é observável, e sim memorável, o que fundamentou a noção de representância ou tenência-de-lugar.
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Simetricamente, é preciso revisar o conceito ingênuo de “irrealidade” aplicado à ficção: sua função é revelante e transformante — revela traços dissimulados da experiência prática e transforma a vida ao examiná-la —, ponto em que descobrir e inventar tornam-se indiscerníveis e o vocabulário da referência deve ceder lugar ao da aplicação, herdado de Gadamer em Verdade e Método.
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A aplicação (ou apropriação) só se completa pela mediação da leitura, pois o mundo do texto, introduzido ao final da terceira parte como transcendência imanente ao texto, permanece em suspenso ontológico até que a leitura o atualize e a ação efetiva, instruída pelas obras recebidas, transmute a configuração em refiguração — sendo esta a razão pela qual, ao contrário da Métaphore vive, não se pode mais operar um curto-circuito direto entre ver-como e ser-como no plano da narratividade sem passar pela confrontação entre o mundo fictício do texto e o mundo real do leitor.
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Três momentos correspondem a três disciplinas distintas na teoria da leitura: a estratégia fomentada pelo autor e dirigida ao leitor (retórica), a inscrição dessa estratégia na configuração literária, e a resposta do leitor como sujeito leitor ou público receptor (fenomenologia e estética da recepção).
Da poética à retórica
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A retórica da ficção de Wayne Booth reintroduz o autor sem recair na “intentional fallacy”, pois não trata do processo presumido de criação, mas das técnicas de comunicabilidade repetíveis na obra, sendo o único autor relevante o autor implícito, cuja voz narrativa dá o texto a ler ao leitor virtual.
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A categoria de autor implícito dissolve falsas querelas: o apagamento do narrador moderno é apenas uma técnica retórica entre outras, e o direito de descrever o interior das almas faz parte do pacto de confiança entre autor e leitor, sendo a busca de verossimilhança no romance realista uma dissimulação ainda mais sutil do artifício, não sua abolição.
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A noção de narrador digno ou indigno de confiança introduz no pacto de leitura uma nota de confiança comparável à prova documental na historiografia, sendo o narrador indigno de confiança, ao contrário do que pensa Booth, um recurso que estimula uma leitura mais ativa e reflexiva, exigindo um novo tipo de leitor, ele próprio desconfiado, que trava um combate com o autor implícito em vez de nele confiar cegamente.
A retórica entre o texto e seu leitor
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Contra a ilusão de que o texto é estruturado em si e a leitura lhe seria extrínseca, Michel Charles, em Rhétorique de la lecture, mostra através de textos exemplares — Les Chants de Maldoror, o “Prólogo” de Gargantua, Adolphe, “Le chien et le flacon” de Baudelaire, o Quart Livre — que a leitura está inscrita no próprio texto, ainda que essa inscrição seja tão ambígua que, ao desorientar o leitor, acabe por libertá-lo.
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O paradoxo culminante é que, se de um lado a tese da “leitura no texto” sugere um leitor aterrorizado por sua leitura predestinada, de outro a perspectiva de uma leitura infinita, que estrutura o próprio texto que a prescreve, restitui à leitura uma inquietante indeterminação, posicionando essa retórica da leitura numa posição mediana entre a análise centrada no autor implícito e aquela que institui o ato de ler como instância suprema.
Fenomenologia e estética da leitura
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A teoria da leitura de Roman Ingarden mostra o texto como duplamente inacabado: por oferecer “vistas esquemáticas” a serem concretizadas pela atividade imageante do leitor, deixando “lugares de indeterminação”; e por se constituir como correlato intencional de uma sequência de frases que só se torna um todo mundano quando tomado a cargo pelas expectativas do leitor, num jogo husserliano de retenções e protenções.
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Wolfgang Iser desenvolve essas noções na fenomenologia do ato de leitura por meio do conceito de “ponto de vista viajante” e da noção de despragmatização dos objetos, identificando três dialéticas do trabalho de leitura: a réplica do leitor à estratégia de decepção que o obriga a configurar a obra em vez de apenas figurá-la; a revelação de um excesso de sentido não escrito por trás de todo texto selecionado; e a oscilação entre ilusão irresistível e insustentável que define a “boa” distância à obra.
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A simetria aparente entre autor implícito e leitor implícito revela-se enganosa: enquanto o autor real se apaga no autor implícito, é o leitor implícito que ganha corpo no leitor real, sendo este último, em carne e osso, o polo adverso do texto na interação da qual procede a significação da obra, o que justifica a preferência por Iser sobre as distinções mais abstratas entre leitor visado, ideal ou competente.
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A Estética da recepção de Hans-Robert Jauss visa renovar a história literária a partir da relação dialógica entre obra e público, exigindo a reconstituição do horizonte de expectativa — o repertório de tradições, gêneros e temas — para identificar os desvios estéticos sucessivos entre esse horizonte e a obra nova, segundo a lógica gadameriana da pergunta e da resposta, recusando-se, contra Gadamer, a hipostasiar o “clássico” como verdade intemporal.
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A função de criação social da literatura exerce-se precisamente na articulação entre as expectativas voltadas para a arte e as expectativas constitutivas da experiência cotidiana, sendo a literatura mais eficiente aquela que coloca o leitor na situação de encontrar por si mesmo as perguntas apropriadas à solução que a obra lhe oferece.
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Ampliada para uma hermenêutica literária plena, a Estética da recepção assume a tríplice tarefa de compreender, explicar e aplicar, sendo o primado dado à compreensão — ligada ao prazer (Genuss) — o que distingue a leitura literária da leitura teológica ou jurídica, articulando-se em três leituras sucessivas: a compreensão perceptiva imediata, a releitura reflexiva guiada pela lógica da pergunta e resposta, e a leitura histórica de controle que restitui a alteridade do horizonte passado da obra.
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A aplicação ganha contorno mais nítido ao ser reposicionada na tríade poiesis, aisthesis, catharsis: esta última designa o efeito moral e cognitivo da obra, ligado à identificação com o herói, à clarificação distanciadora dos próprios afetos e à capacidade de comunicabilidade e alegorização — sendo essa capacidade de alegorização, ligada à catarse, a réplica mais próxima da apreensão analogizante do passado na dialética da dívida e do vis-à-vis.
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Do percurso pelas teorias da leitura emergem quatro tensões dialéticas conclusivas: entre a liberdade das variações imaginativas e a necessidade interior que a visão de mundo do autor implícito impõe ao leitor, espelhando a dívida do historiador para com os mortos; entre sedução, terror e fusão de horizontes, ecoando a dialética do Mesmo, do Outro e do Análogo; entre comunicabilidade e referencialidade, unidas numa comunidade leitora que decontextualiza e recontextualiza as grandes obras; e, por fim, entre a leitura como interrupção da ação e como reenvio à ação, dupla estase e envio que constitui o tipo-ideal da leitura sem, contudo, esgotar o problema da refiguração do tempo pelo récit.
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