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Intencionalidade Histórica

RICOEUR, Paul. Temps et récit I. Paris: Éd. du Seuil, 1983.

Introdução

  • Este capítulo explora o vínculo indireto que deve ser preservado entre a historiografia e a competência narrativa analisada no terceiro capítulo da primeira parte, vínculo esse que não pode ser direto, como resulta da confrontação entre os dois capítulos anteriores.
  • A cisão epistemológica entre o conhecimento histórico e a competência de seguir uma história afeta esta em três níveis — procedimentos, entidades e temporalidade —, sendo que, ao nível dos procedimentos, a explicação histórica se autonomiza da trama do relato para se tornar objeto de um processo de autenticação e justificação, situando o historiador na posição de um juiz que busca garantias, sobretudo a prova documental.
  • Essa autonomização da explicação comporta três corolários que acentuam a ruptura entre história e relato: um trabalho de conceituação ligado ao debate dos universais históricos, do qual o narrador não se ocupa; um problema de objetividade histórica, definida por Maurice Mandelbaum como a exclusão da possibilidade de que a negação de um juízo seja igualmente verdadeira, sustentada pela esperança de que fatos e resultados de diferentes pesquisas se conectem e se completem; e uma reflexividade crítica que permite à história reconhecer suas próprias implicações ideológicas, ao contrário da ingenuidade do narrador.
  • Uma segunda cisão, semelhante, afeta as entidades que o historiador toma por objeto: enquanto o relato tradicional refere a ação a agentes identificáveis por nome próprio, a história-ciência recorre a entidades anônimas — nações, sociedades, classes, mentalidades —, substituindo os grandes homens hegelianos por forças sociais irredutíveis a agentes individuais, tornando a nova história aparentemente sem personagens.
  • Uma terceira cisão resulta das duas anteriores e concerne ao estatuto epistemológico do tempo histórico, que parece dissociado da memória e da espera de agentes individuais, dispersando-se numa multiplicidade de tempos de escala variável — tempo curto do acontecimento, tempo médio da conjuntura, longa e muito longa duração —, sem relação discernível, à primeira vista, com a intratemporalidade heideggeriana da ação.
  • Apesar dessa tríplice ruptura epistemológica, a história não pode romper todo vínculo com o relato sem perder seu caráter histórico, nem esse vínculo pode ser direto a ponto de a história constituir, como quer Gallie, uma simples espécie do gênero story.
  • A crítica do modelo nomológico diversificou a explicação sem renegar sua vocação explicativa, enquanto, do lado narrativo, um movimento simétrico buscou elevar os recursos explicativos do relato ao encontro desse movimento, sendo os narrativistas corretos em dois pontos fundamentais: que narrar já é explicar, graças à conexão causal instaurada pelo di’allèla aristotélico, o que distingue história de crônica e permite dissociar o ponto de vista do narrador da compreensão limitada dos agentes; e que as teses narrativistas responderam à diversificação dos modelos explicativos com uma diversificação comparável dos recursos explicativos do relato, como mostram os trabalhos de Danto, Mink e Hayden White, este último levando ao ponto de dissolver a própria função narrativa num éclatement.
  • Um destino comparável ao do modelo nomológico atingiu assim a tese narrativista simples, que se diversificou até se desintegrar, subsistindo um hiato entre explicação narrativa e explicação histórica que impede identificar a história a uma espécie do gênero story.
  • A solução proposta é um método de questionamento regressivo, inspirado na fenomenologia genética de Husserl na Krisis, aplicado agora à intencionalidade da própria historiografia, que remete não a um vivido imediato, mas a um mundo cultural já configurado pela atividade narrativa através dos estágios da mimesis.
  • A hipótese de trabalho consiste em explorar por quais vias indiretas o paradoxo do conhecimento histórico transpõe, em grau superior de complexidade, o paradoxo constitutivo da operação configurante narrativa, investigando como a tríplice cisão epistemológica deriva da ruptura instaurada por mimesis II e continua, ainda assim, a visar obliquamente a ordem da ação própria de mimesis I.
  • A reconstrução seguirá a ordem já apresentada — autonomia dos procedimentos explicativos, autonomia das entidades de referência, autonomia do tempo histórico —, retomando a questão da causalidade em Weber e von Wright não mais para opô-la à explicação por leis, mas para nela discernir a transição entre explicação nomológica e mise en intriga, autorizando falar de quasi-intriga por transferência analógica.
  • De modo paralelo, as entidades postas em cena pelo discurso histórico ordenam-se hierarquicamente em torno de entidades de primeiro grau — povos, nações, civilizações — que servem de objeto transicional entre os artefatos da historiografia e os personagens de um relato possível, constituindo quase-personagens.
  • Por fim, será preciso mostrar que o tempo construído pelo historiador se ergue sobre a temporalidade configurada de mimesis II ao mesmo tempo que remete à temporalidade práxica de mimesis I, buscando-se no destino do acontecimento histórico o índice desse duplo movimento de afastamento e de reenvio.

A imputação causal singular

  • A imputação causal singular é o procedimento explicativo que faz a transição entre a causalidade narrativa do um-por-causa-do-outro aristotélico e a causalidade explicativa do modelo nomológico, apoiando-se nas análises de Dray e von Wright, sendo o elo entre análise causal e explicação por razões operado pela explicação quase causal, que remete, através de sucessivos encaixamentos, à noção de imputação causal singular.
  • A exposição mais precisa dessa lógica encontra-se no estudo crítico de Max Weber sobre Eduard Meyer, complementado pela Introduction à la philosophie de l’histoire de Raymond Aron, consistindo essencialmente em construir imaginativamente um curso diferente de acontecimentos, pesar suas consequências prováveis e compará-las ao curso real, como no exemplo da decisão de Bismarck de atacar a Áustria-Hungria em 1866.
  • Esse raciocínio olha simultaneamente para dois lados — para a mise en intriga e para a explicação científica —, sendo o historiador, segundo Weber, comparável ao agente que pesa suas opções antes de agir, mas com “chances mais favoráveis” por já conhecer o desfecho, e comparável ao criminalista que investiga a causalidade sem, contudo, acrescentar-lhe a imputação ética.
  • A imputação causal comporta uma análise fina em fatores segundo o interesse histórico do investigador, a modificação mental desses fatores para construir cursos alternativos, e sobretudo o recurso a “regras da experiência” de caráter nomológico, ainda que geralmente apenas disposicional.
  • O verdadeiro traço distintivo de cientificidade advém da aplicação, à pesagem comparada das causas, da teoria da possibilidade objetiva emprestada por Weber ao fisiologista von Kries, que gradua a probabilidade entre o polo da causalidade acidental e o da causalidade adequada, sem que essa gradação deva ser reificada como forças antagônicas concretas.
  • A continuidade entre mise en intriga e imputação causal singular reside no papel da imaginação, enquanto a descontinuidade está na análise em fatores, no recurso a regras da experiência e na atribuição de graus de probabilidade que definem a causalidade adequada, distinguindo o historiador do simples narrador, pois aquele argumenta e sabe que se pode explicar de outra forma.
  • A continuidade e a descontinuidade se repetem entre explicação causal singular e explicação por leis, sendo esta relação melhor esclarecida por Raymond Aron, para quem o hasard pode ser acidental em relação a uma série e adequado em relação a outra, sendo necessário considerar também a incerteza que afeta a delimitação dos sistemas e séries.
  • A relação entre história e sociologia é exemplar dessa continuidade: a sociologia busca estabelecer leis enquanto a história se limita a narrar acontecimentos singulares, mas a causalidade histórica constitui simultaneamente um limite interno à pretensão científica da sociologia e a fonte de que esta extrai suas regularidades, de modo que a causalidade sociológica remete à causalidade histórica em vez de absorvê-la.
  • A originalidade de Aron em relação a Weber está em subordinar sua epistemologia a uma filosofia da história voltada contra a ilusão retrospectiva de fatalidade, mostrando que as construções irreais preservam no passado a incerteza que foi o futuro dos personagens históricos, conferindo à causalidade histórica uma significação moral e política que excede sua função puramente epistemológica.
  • Contra a objeção de que o exemplo de Bismarck confinaria o argumento à esfera política e à explicação por razões, mostra-se que a imputação causal se distingue tanto da responsabilidade ética quanto da explicação nomológica, coincidindo, no fundo, com a explicação quase causal de von Wright, que compõe segmentos teleológicos e segmentos epistêmicos.
  • A extensão analógica da imputação causal singular a encadeamentos coletivos, e não apenas individuais, confirma-se em outro exemplo de Weber — as cartas de Goethe a Madame von Stein —, que mostra como um fato individual pode servir para revelar séries causais mais amplas, singulares embora integrem fatos típicos, sendo essa singularidade das séries causais o que distingue a imputação causal da explicação nomotética.
  • A batalha de Salamina exemplifica ainda a extensão da imputação causal singular a acontecimentos não redutíveis a ações individuais, ao se comparar imaginativamente o desenvolvimento cultural que teria ocorrido em caso de derrota grega com o que efetivamente se seguiu à vitória.
  • A obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo oferece um exemplo notável de imputação causal singular fora do campo da decisão individual e da história político-militar, ao isolar metodicamente a ética do trabalho protestante e o espírito de aquisição capitalista, construindo por imaginação um curso alternativo sem o fator espiritual considerado para concluir, por cálculo de probabilidade, pela adequação causal da conexão.
  • Essa extensão da imputação causal singular a desenvolvimentos onde já não se discernem decisões individuais autoriza a estender analogicamente a noção de intriga a todas as imputações causais singulares, justificando o emprego do termo intriga por Paul Veyne, preferindo-se aqui, por rigor, falar de quasi-intriga.

As entidades de primeira ordem da historiografia

  • A cisão epistemológica entre entidades historiográficas e personagens narrativos é a pressuposição de partida: um personagem pode ser identificado por nome próprio e responsabilizado por suas ações, ao passo que as forças sociais que agem por trás das ações individuais são, em sentido próprio, anônimas, erro este que o individualismo metodológico comete ao exigir uma redução direta impraticável.
  • Existe, contudo, um relé análogo à imputação causal singular, sob a forma de entidades de primeira ordem — entidades societais indecomponíveis em uma poeira de ações individuais, mas que fazem menção, em sua definição, a indivíduos suscetíveis de serem personagens de um relato — chamadas entidades de pertença participativa.
  • A obra de Maurice Mandelbaum, The Anatomy of Historical Knowledge, oferece dupla contribuição: a ordenação das entidades assumidas pelo discurso histórico e a correlação entre essas entidades de primeira ordem e o procedimento de imputação causal, situando-se o autor equidistante do modelo de subsunção e da versão narrativista.
  • A tese central é que o objeto irredutível da história é de ordem societal, distinguindo-se a história geral, cujo tema são sociedades particulares de existência contínua, das histórias especiais, dedicadas a aspectos abstratos da cultura sem existência contínua própria, definição de sociedade que se apoia em três componentes: organização territorial, estrutura institucional atribuindo estatutos e papéis, e continuidade temporal ininterrupta.
  • A capacidade do fenômeno societal de se deixar analisar em aspectos ou facetas assegura a transição entre história global e histórias especializadas, cuja semi-autonomia permite relacioná-las tanto às constelações singulares de um fenômeno societal quanto às classes de produtos que definem um fenômeno cultural.
  • A noção de sociedade oferece relé para a derivação das entidades históricas a partir dos personagens do relato por dupla razão: nada na noção de personagem exige que este seja um indivíduo, e o fenômeno societal comporta uma referência oblíqua aos indivíduos que o compõem, permitindo tratar a sociedade como um grande indivíduo, à maneira da Cidade platônica como uma alma escrita em letras maiúsculas ou das “personalidades de ordem superior” de Husserl.
  • Essa referência oblíqua funda-se no vínculo de pertença participativa, ontologicamente anterior à consciência que dele se possa tomar, podendo ser vivido com intensidade — patriotismo, consciência de classe — ou negado por renegados, dissidentes ou exilados, sem que isso invalide sua anterioridade ontológica.
  • A tríplice referência do fenômeno societal ao indivíduo corresponde a três gestos fundamentais: habitar, corresponde à organização territorial; assumir papéis, corresponde à estrutura institucional; e o elo entre gerações, que entrelaça amor e morte, corresponde à continuidade da existência societal.
  • O transfere de vocabulário do indivíduo às entidades de primeira ordem é apenas analógico, mas bem fundado no fenômeno de pertença participativa, permitindo à história e às ciências sociais escapar às dificuldades do individualismo metodológico ao dar peso igual ao grupo e ao indivíduo, situado desde logo, segundo Hannah Arendt, na esfera pública de aparição.
  • A noção de quasi-personagem deve-se tanto ao fato de que cada sociedade é composta de indivíduos e se comporta como um grande indivíduo, quanto ao fato de que a técnica do relato já ensinou a desligar o personagem do indivíduo real, sendo a categoria de personagem, própria de mimesis II, o relé necessário entre as entidades históricas de primeira ordem e os indivíduos agentes de mimesis I.
  • A simetria entre quasi-personagem e quasi-intriga deve-se ao fato de que a imputação causal singular tem seu campo privilegiado de aplicação justamente nas entidades de primeira ordem, cuja existência contínua é traço maior, sendo esta uma das teses centrais de Mandelbaum, que rompe com a tradição humeana ao recusar o caráter atomista de causa e efeito, definindo a causa como o conjunto completo dos fatores responsáveis por uma ocorrência particular.
  • Dessa tese decorrem duas consequências importantes: as generalidades e leis, quando inseridas numa explicação causal singular, fornecem o cimento e não os materiais da explicação; e a necessidade causal permanece condicional, dependente de um sistema fechado, sem implicar qualquer determinismo universal.
  • A afinidade entre raciocínio causal e caráter contínuo dos fenômenos sociais explica-se pela autonomização da pergunta “por quê” em relação à pergunta “o quê”, reconstrução essa que segue duas vias — análise longitudinal, apoiada na densidade indefinidamente divisível do tecido histórico, e análise estrutural, apoiada na malha institucional de uma sociedade —, cuja relativa autonomia mútua encoraja o éclatement da história geral em histórias especiais.
  • A distinção entre necessidade causal condicional e determinismo universal é homogênea à distinção entre história geral e histórias especiais, já que a pluralidade irredutível das sociedades singulares — nações, classes, povos, civilizações — engendra tantos quasi-personagens quantas são as quasi-intrigas de que são heróis, não havendo, para o historiador, nem uma intriga única nem um personagem histórico único.
  • As entidades de segundo e terceiro grau construídas pelo historiador — objetos das histórias especiais como técnica, ciência, arte, religião — são fenômenos descontínuos, delimitados por estipulação do próprio historiador, e derivam das entidades de primeira ordem, como mostra o exemplo do invariante imperialismo em Paul Veyne, sendo erro esquecer essa derivação e tratar tais entidades como realidades autônomas.
  • Correlativamente à derivação das entidades de segundo grau, situa-se a derivação da explicação nomológica à explicação causal singular, questão que remete à querela dos universais históricos, sendo o nominalismo moderado defendido por vários epistemólogos, entre eles Henri-Irénée Marrou, que distingue cinco categorias de conceitos históricos: conceitos de ambição universal, usos analógicos ou metafóricos, nomenclatura de termos especiais, tipos-ideais weberianos e designações singulares como Antiguidade Clássica ou Renascença.
  • Essa última classe designa entidades de terceira ordem, mais abstratas que as demais apesar de sua aparência concreta, cuja base narrativa é cada vez menos reconhecível, de modo que apenas através da relação de derivação das entidades de segundo grau a partir das de primeiro grau pode essa filiação com a compreensão narrativa ser reativada.

Tempos da história e destino do acontecimento

  • A questão do tempo histórico constitui o verdadeiro enjeu de toda esta segunda parte, sendo antecipada pela estreita parentela entre a imputação causal singular e a posição de entidades de primeira ordem, cuja existência contínua remete constantemente à questão do tempo histórico.
  • O relé buscado para demonstrar que o tempo construído pelo historiador deriva, por uma série de desvios, da temporalidade própria do relato é encontrado no uso ambíguo que os historiadores fazem da noção de acontecimento.
  • Reformulando, no quadro da teoria da intriga sob o título de mimesis II, os postulados epistemológicos de singularidade, contingência e desvio que acompanham a noção corrente de acontecimento, mostra-se que as intrigas são simultaneamente singulares e não singulares, combinam contingência e verossimilhança ou necessidade, e combinam submissão a paradigmas e desvio, de modo que os acontecimentos narrados são ao mesmo tempo singulares e típicos, contingentes e esperados, desviantes e tributários de paradigmas.
  • A tese central é que os acontecimentos históricos não diferem radicalmente dos acontecimentos enquadrados por uma intriga, sendo possível estender à noção de acontecimento histórico a reformulação que a noção de acontecimento-em-intriga impôs aos conceitos de singularidade, contingência e desvio absolutos.
  • Retomando os Écrits sur l’histoire de Braudel, propõe-se mostrar que a própria noção de história de longa duração deriva do acontecimento dramático, isto é, do acontecimento-em-intriga, partindo-se da ideia irrecusável da pluralidade dos tempos sociais e da decomposição da história em planos escalonados.
  • A resposta ao que torna pensável a distinção entre história quase imóvel, história lentamente ritmada e história à dimensão do indivíduo está no princípio de unidade que, apesar da distinção das durações, mantém coesas as três partes de La Méditerranée, sendo o duplo título da obra — o mar e Filipe II — um convite a reconhecer o caráter de intriga do conjunto.
  • Uma leitura atenta da obra revela o papel considerável de estruturas de transição que asseguram a coerência do conjunto, permitindo tratar todo o arranjo em termos de quasi-intriga, sendo o primeiro nível, aparentemente consagrado ao espaço, já impregnado de história, com montanhas, planícies, mares e ilhas figurando como cenário de relações de dominância econômico-política e de conflitos entre os impérios espanhol e turco.
  • O segundo nível articula três sistemas concorrentes de organização — a conjuntura econômica, a física política dos impérios rivais e as civilizações —, sendo notável a insistência crescente de Braudel na questão de saber se pode existir um modelo unificado de economia mediterrânea, resposta hesitante diante da persistência dos acontecimentos datados que atravessam a economia dos grandes portos comerciais.
  • As civilizações são descritas por Braudel como os personagens mais complexos e contraditórios do Mediterrâneo, fraternas e exclusivas, móveis e permanentes, sendo nos pontos de contato e de conflito entre civilizações — o naufrágio do Islã ibérico, o destino dos judeus, as formas de guerra — que renascem os acontecimentos, entrelaçando-se as conjunturas longas das civilizações às das economias.
  • A terceira parte da obra, consagrada à política e aos homens, não é concessão à história tradicional, pois os acontecimentos testemunham as massas profundas da história e colocam, em seu próprio nível, o problema de sua coerência, selecionados segundo sua importância retrospectiva e segundo o julgamento dos próprios contemporâneos.
  • A morte de Filipe II, embora não seja grande acontecimento do ponto de vista da grande história do Mediterrâneo, era-o de primeira grandeza para os protagonistas da época, revelando um destino individual que não se inscreve exatamente na trama de uma explicação medida por outro tempo que não o tempo mortal.
  • A segunda tese proposta é que os três níveis da obra constituem juntos uma quasi-intriga no sentido amplo de Paul Veyne, cujo termo final não é a morte de Filipe II, mas o declínio do Mediterrâneo como herói coletivo na cena da história mundial e o deslocamento da história rumo ao Atlântico, sendo esta grande intriga, ao contrário do romance unificado de um Tolstói, tratada analiticamente por Braudel em subintrigas parciais que apenas interferem para engendrar uma imagem implícita do todo.
  • Essa intriga virtual permite arbitrar entre duas leituras opostas da obra — uma que subordina o evento à longa duração e esta ao tempo geográfico, outra que faz derivar a qualidade histórica de cada nível de sua capacidade de sustentar o nível seguinte —, situando-se a longa duração como ponto de equilíbrio instável entre ambas.
  • Esse longo desvio pelo caráter de quasi-intriga permite repensar a noção de acontecimento tida por Braudel como canônica: o acontecimento não é necessariamente breve e nervoso como uma explosão, mas uma variável da intriga presente em todos os níveis, com funções diversas, perdendo ou ganhando importância conforme sua travessia pelos demais níveis.
  • O acontecimento é o que distingue o conceito de estrutura do historiador daquele do sociólogo ou economista, pois investe as estruturas de dentro de duas formas: pela discordância entre velocidades diferentes da vida, e pela atenção do historiador aos pontos de ruptura e à caducidade das estruturas mais estáveis.
  • Notações semelhantes em outros historiadores franceses confirmam esse retorno ao acontecimento pelo viés da longa duração: Jacques Le Goff, em Pour un autre Moyen Age, resiste à sedução dos modelos intemporais ao pontuar a longa duração de festas, cerimônias e ritos, e ao insistir que os sistemas mentais são historicamente datáveis, definindo o Moyen Age como distância da “memória constituinte”, isto é, o tempo dos avós.
  • Georges Duby vê igualmente o acontecimento infiltrar-se nas estruturas ideológicas por meio de dissonâncias e desníveis de temporalidade entre situações objetivas e representações mentais, sublinhando os “períodos críticos” em que a pressão das estruturas materiais e políticas agudiza o conflito ideológico, o que autoriza falar de quasi-acontecimento.
  • O veículo do quasi-acontecimento é ainda a quasi-intriga, como mostra a análise dos Trois Ordres ou l’Imaginaire du féodalisme de Duby, que dramatiza a representação trifuncional da sociedade — os que rezam, os que combatem, os que trabalham — construindo uma história com começo nas formulações de Adalbéron de Laon e Gérard de Cambrai e fim na batalha de Bouvines em 1214, cujo meio é constituído pelas peripécias de “circunstância”, “eclipse” e “ressurgência” que dramatizam esse sistema simbólico até sua “adoção” final.
  • É no campo da história política, porém, que o retorno ao acontecimento se faz mais premente, como mostra François Furet em Penser la Révolution française ao interrogar como pensar a Revolução Francesa livrando-se da alternativa entre comemoração e execração, cruzando o modelo de Tocqueville, que vê na Revolução o parachèvement da obra da Monarquia, com o modelo de Augustin Cochin, que explica pelas “sociedades de pensamento” a nova sensibilidade política jacobina.
  • Nenhum dos dois modelos esgota, porém, o acontecimento Revolução, pois a própria tomada do poder pelo jacobinismo, com sua mentalidade de complô, permanece um acontecimento não deduzido do sistema ideológico, retornando o evento com força pela via da intriga, de modo que Termidor é pensado apenas até certo ponto, restando o acontecimento como resíduo de cada tentativa de explicação, como dissonância entre estruturas explicativas e como vida e morte das próprias estruturas.
  • Sem esse retorno ao acontecimento, a longa duração correria o risco de arrancar o tempo histórico da dialética viva entre passado, presente e futuro, reconduzindo simplesmente o tempo humano ao tempo da natureza, sendo essa consequência desastrosa evitável apenas se preservada uma analogia entre o tempo dos indivíduos e o tempo das civilizações — analogia de crescimento e declínio, de criação e morte, analogia de destino.
  • Essa analogia temporal é da mesma natureza que a analogia preservada no nível dos procedimentos, entre imputação causal e mise en intriga, e no nível das entidades, entre sociedades e personagens do drama, de modo que toda mudança entra no campo histórico como quasi-acontecimento, sem que isso represente um retorno sorrateiro ao acontecimento breve criticado pela história de longa duração, ele próprio um artefato metodológico e uma filosofia da história.
  • O quasi-acontecimento permanece correlativo às extensões análogas das noções de intriga e personagem, correspondendo ao que Aristóteles chamava mudança de fortuna — metabolè — em sua teoria formal da mise en intriga, de modo que a pluralidade dos tempos históricos preconizada por Braudel constitui uma expansão do traço cardinal do tempo narrativo, sua aptidão para combinar em proporções variáveis o episódico e o configurante, sendo significativo que, apesar de suas reticências, Braudel não tenha podido deixar de encerrar sua obra magnífica com o quadro de uma morte — não a do Mediterrâneo, mas a de Filipe II.
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