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Consciência histórica
RICOEUR, Paul. Temps et récit III. Paris: Éd. du Seuil, 1985.
Rumo a uma hermenêutica da consciência histórica
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Abandonado Hegel, resta a via da mediação aberta, inacabada, imperfeita — uma rede de perspectivas cruzadas entre a espera do futuro, a recepção do passado e o vivido do presente, sem Aufhebung numa totalidade onde razão e efetividade da história coincidiriam, decisão estratégica que exige inverter a ordem dos problemas e partir do projeto da história a fazer para nele reencontrar a dialética entre passado e futuro no presente.
O futuro e seu passado
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Para combater a abstração do passado enquanto passado, adota-se como fio condutor a polaridade proposta por Reinhart Koselleck entre espaço de experiência (Erfahrungsraum) e horizonte de expectativa (Erwartungshorizont): a experiência tende à integração, a expectativa ao desdobramento, condicionando-se mutuamente sem que uma se deixe derivar da outra.
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A análise semântica de Koselleck sobre o vocabulário histórico alemão do século XVIII revela a emergência do termo Geschichte como singular coletivo, unindo os sentidos de curso dos acontecimentos e de relato, e mostra como a ideia de progresso serviu de elo entre essas duas acepções, condição sob a qual pôde constituir-se a noção de história universal.
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Três topoi caracterizam a nova experiência histórica moderna: a crença em tempos novos (Neuzeit), a aceleração do progresso e a disponibilidade da história — “fazer a história” —, sendo este último tema o mais frágil, pois esquece que a humanidade só faz sua própria história em circunstâncias que não fez, como já observava Marx no 18 Brumário.
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Esses três topoi declinaram em nossa época: a ideia de tempos novos revela-se ligada à ilusão da origem; a aceleração do progresso não é mais crível diante do afastamento crescente entre horizonte de expectativa e espaço de experiência, que converte a esperança em utopia; e a maestria da história esbarra na estrutura permanente de sermos ao mesmo tempo agentes e pacientes da história.
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Ainda assim, as próprias categorias de horizonte de expectativa e espaço de experiência permanecem transcendentais válidos além desses topoi datados, sendo sua universalidade garantida por suas implicações éticas e políticas permanentes, na esteira de Apel e Habermas: a tarefa é impedir que a tensão entre esses dois polos se converta em cisma, o que exige, de um lado, determinar e aproximar as expectativas do presente por meio de projetos intermediários alcançáveis e, de outro, resistir ao estreitamento do espaço de experiência reabrindo no passado potencialidades inacabadas.
Ser-afetado-pelo-passado
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A ideia de “fazer a história” reclama o passo inverso, do futuro ao passado: somos agentes da história apenas na medida em que somos também seus pacientes, sendo as vítimas da história as testemunhas por excelência dessa estrutura, extraída aqui de seus aspectos emocionais para a estrutura mais primitiva do ser-afetado-pelo-passado, correlativa do espaço de experiência.
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Tomando como guia o tema gadameriano da “consciência exposta à eficácia da história” (Wirkungsgeschichtliches Bewusstsein), submete-se à prova a aparente antinomia entre descontinuidade e continuidade histórica formulada por Michel Foucault na Arqueologia do Saber: aceita-se sem reservas epistemológicas o privilégio metodológico da descontinuidade nos saberes anônimos, mas rejeita-se a associação da continuidade a uma pretensão de consciência soberana e constituinte, pois a memória histórica afetada pelo trabalho da história requer o mesmo descentramento do sujeito invocado por Foucault.
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Distinguem-se três sentidos do termo tradição: a tradicionalidade, estilo formal de encadeamento que assegura a continuidade da recepção do passado, articulada pela dialética gadameriana entre distância temporal e fusão de horizontes; as tradições, conteúdos transmitidos providos de sentido através de cadeias de interpretação e reinterpretação, ligadas à estrutura linguística da comunicação; e a tradição propriamente dita, enquanto instância de legitimidade que reivindica pretensão à verdade, sendo apenas este terceiro sentido o que dá origem à polêmica entre Gadamer e Habermas.
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Contra a crítica habermasiana de que o preconceito favorável gadameriano carece de legitimidade, propõe-se a noção de presunção de verdade: o crédito concedido de saída a toda proposição de sentido, na medida em que nunca estamos no começo do processo de verdade, noção que lança uma ponte entre a inevitável finitude da compreensão e a validade absoluta da ideia de verdade comunicacional, unindo assintoticamente o inevitável e o válido.
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Essa hermenêutica da eficácia histórica permite reconectar-se com as análises anteriores: a dialética do Mesmo, do Outro e do Análogo ganha coloração nova ao ser submetida ao pensamento da eficácia do passado, que faz bascular toda a problemática do conhecer para a do ser-afetado; e a noção de traço, ligada à de tradição, revela sua afinidade profunda com o documento, a sucessão das gerações e o tempo calendário, todos eles mediações comparáveis entre o passado e nós.
O presente histórico
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Sob a égide do conceito de iniciativa, propõe-se pensar o presente histórico não como categoria do ver, mas do agir e do padecer, sendo o verbo “começar” — dar às coisas um curso novo a partir de uma iniciativa que anuncia uma continuação — mais apropriado que qualquer substantivo, inclusive o de presença.
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Partindo do “eu posso” merleau-pontiano, radicado na carne como mediadora originária entre o vivido e o mundo, passa-se pela distinção dantoana entre ações de base e ações derivadas, que estende nosso poder-fazer além da esfera imediata e situa as consequências distantes de nossa ação na esfera do agir humano, até a noção wrightiana de intervenção, que assegura o fechamento de um sistema ao colocá-lo em movimento a partir de um estado inicial determinado pela própria intervenção.
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O caráter ético da iniciativa manifesta-se na promessa, ato de fala que me obriga desde já para o futuro (from now on) e cuja dimensão dialógica — não posso prometer senão a alguém — se transpõe do plano ético ao plano político mediante o espaço público regido pelo pacto social, onde a discussão prevalece sobre a violência.
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O presente histórico apoia-se sobre a mesma dupla assentada do calendário — o momento axial, modelo de todo começo — e da sucessão das gerações — o reino dos contemporâneos de Alfred Schutz, “envelhecer juntos” —, sendo a iniciativa histórica a incessante transação entre aproximar do presente as expectativas utópicas e resistir ao estreitamento do espaço de experiência, transação que expressa a própria forma do presente enquanto enfrentamento da crise.
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Nietzsche, na segunda Consideração Intempestiva, pensou a “força do presente” ao romper com a questão do saber em favor da questão da vida, distinguindo história monumental (que ensina e engana por analogia), história antiquária (que preserva mas pode momificar) e história crítica (cujo tribunal é a vida forte, não a razão, e que condena todo passado em nome da justiça, mais rara que a imparcialidade objetiva), sendo apenas em virtude da força suprema do presente que se tem o direito de interpretar o passado.
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Esse iconoclasmo nietzschiano em relação ao passado enquanto simplesmente revoluto constitui condição necessária do poder refigurador do tempo histórico: o presente é, a cada época, tanto o termo último de uma história já feita — fazendo de nós retardatários — quanto a força inaugural de uma história ainda por fazer — qualificando-nos como primeiros a chegar —, sendo necessário um tempo de suspensão para que nossas visadas de futuro tenham a força de reativar as potencialidades inacabadas do passado.
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