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Identidade
Os paradoxos da identidade pessoal
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A questão da identidade pessoal perde-se em dificuldades e paradoxos paralisantes sem o fio condutor entre mesmidade e ipseidade e sem o recurso à mediação narrativa, como os filósofos de língua inglesa e cultura analítica aprenderam primeiro com Locke e com Hume
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De Locke reteve-se a equação entre identidade pessoal e memória, ao preço de uma inconsistência argumentativa e de uma inverossimilhança nas consequências
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No capítulo XXVII do Essai philosophique concernant l'entendement humain, intitulado Identité et diversité, Locke introduz a ideia de identidade de uma coisa consigo mesma, dizendo — quando perguntamos se uma coisa é a mesma ou não, refere-se sempre a algo que existiu em tal tempo e lugar, do qual se tinha certeza de que naquele momento era idêntico a si mesmo
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Na primeira série de exemplos — o navio cujas peças foram todas trocadas, o carvalho acompanhado da bolota à árvore, o animal e o homem seguidos do nascimento à morte — prevalece a mesmidade pela permanência da organização
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Ao chegar à identidade pessoal, Locke atribui à reflexão instantânea a mesmidade consigo mesmo, estendendo depois esse privilégio à duração por meio da memória como expansão retrospectiva da reflexão, operando assim um renversement conceitual em que a ipseidade substitui silenciosamente a mesmidade
A tradição creditou a Locke a invenção de um critério de identidade psíquica, opondo-se a este o critério de identidade corporal, abrindo uma discussão sobre critérios que suscitará apologias opostas-
Contra Locke levantam-se aporias psicológicas quanto aos limites e falhas da memória, e aporias ontológicas, perguntando J. Butler se não seria mais plausível atribuir a continuidade da memória à existência contínua de uma alma-substância
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Locke assume sem hesitar o caso paradoxal do príncipe cuja memória é transplantada para o corpo de um sapateiro, decidindo-se em favor da primeira solução, enquanto leitores modernos concluirão pela indecidibilidade, abrindo a era dos puzzling cases
Com Hume abre-se a era da dúvida e da suspeita, apresentando no Traité de la nature humaine um conceito forte de identidade — temos uma ideia distinta de um objeto que permanece invariável e ininterrupto durante uma variação suposta de tempo; a essa ideia chamamos identidade ou sameness-
Diferentemente de Locke, Hume introduz graus na atribuição de identidade desde os primeiros exemplos e não inverte seus critérios ao passar das coisas animadas para o si-mesmo
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Buscando, como bom empirista, uma impressão correspondente a cada ideia, Hume não encontra impressão invariável relativa à ideia de um si-mesmo e conclui que esta é uma ilusão
Essa conclusão não fecha o debate, antes o abre, perguntando Hume o que nos dá a propensão de superpor uma identidade a percepções sucessivas-
A imaginação e a crença entram em cena como dois conceitos novos, sendo a imaginação capaz de transformar diversidade em identidade e a crença o que preenche o déficit da impressão, impressionando fortemente Kant
Objeta-se que Hume buscava o que não podia encontrar, um si-mesmo que fosse apenas um mesmo, pressupondo o si-mesmo que não buscava, como se lê em seu argumento principal — quanto a mim, quando penetro o mais intimamente possível no que chamo de mim mesmo, sempre esbarro numa ou noutra percepção particular, calor ou frio, luz ou sombra, amor ou ódio, dor ou prazer; nunca me atinjo a mim mesmo em momento algum fora de uma percepção e nada mais posso observar além da percepção-
Chisholm, em Person and Object, observa que ao menos alguém se encontra tropeçando, observando uma percepção, de modo que a questão quem? faz retornar o si-mesmo no momento em que o mesmo se esquiva
A discussão sobre se o melhor critério de identidade é corporal ou psicológico não será aprofundada, por diversas razõesNão se deve supor que o critério psicológico teria afinidade privilegiada com a ipseidade e o corporal com a mesmidade, pois o critério psicológico não se reduz à memória e o critério corporal não é estranho à ipseidade, já que a pertença do corpo a mim mesmo é o testemunho mais maciço da irredutibilidade da ipseidade à mesmidade-
Por mais semelhante a si mesmo que um corpo permaneça — o que nem sempre ocorre, bastando comparar os autorretratos de Rembrandt — não é sua mesmidade que constitui sua ipseidade, mas sua pertença a alguém capaz de se designar como aquele que tem seu corpo
Há dúvida quanto ao uso do termo critério nesta discussão, pois critério é o que permite distinguir o verdadeiro do falso, e a questão é saber se ipseidade e mesmidade se prestam da mesma forma à prova do juízo de verdade-
No caso da mesmidade o termo critério tem sentido preciso, designando as provas de verificação e falsificação de enunciados sobre identidade como relação — mesmo que — noção presente em Locke, Hume e na primeira categoria kantiana da relação, a substância
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Quanto à ipseidade, pergunta-se se a pertença do corpo a mim mesmo, e a memória enquanto suposto critério psicológico privilegiado, não caem antes no campo da atestação, discussão que só poderá ser conduzida após estabelecida firmemente a distinção entre ipseidade e mesmidade e percorrido o leque de casos entre sua superposição e disjunção, o que só se fará ao término das reflexões sobre a identidade narrativa
Preferiu-se, em vez de discutir os critérios de identidade pessoal, medir-se com a obra de Derek Parfit, Reasons and Persons, que se dirige diretamente às crenças ligadas à reivindicação de identidade pessoal, reconhecendo nela o adversário mais temível para a tese da identidade narrativa-
A obra evoca Locke pelo recurso aos casos paradoxais e Hume pela conclusão cética, conduzindo os puzzling cases de Parfit a pensar que a própria questão da identidade pode revelar-se vazia de sentido
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A questão será saber se Parfit, como Hume, não buscou o que não podia encontrar, um estatuto firme da identidade pessoal em termos de mesmidade, escrevendo — Personal identity is not what matters (a identidade pessoal não é o que importa)
Parfit ataca as crenças de base subjacentes ao manejo dos critérios de identidade, decompostas em três séries de asserções — a existência separada de um núcleo de permanência, a possibilidade de sempre haver resposta determinada sobre tal permanência, e a importância da questão para que a pessoa reivindique o estatuto de sujeito moral-
A estratégia de Parfit consiste em desmantelar essas três séries de asserções, da mais manifesta à mais dissimulada
A primeira tese de Parfit reformula a crença comum nos termos da tese adversária, dita reducionista, segundo a qual a identidade através do tempo se reduz ao encadeamento (connectedness) entre eventos físicos ou psíquicos, descritos impessoalmente sem afirmar que a pessoa existaA tese reducionista reintroduz a noção neutra de evento já discutida a propósito das teses de Donald Davidson sobre ação e evento, formulando-se assim — a existência de uma pessoa consiste exatamente na existência de um cérebro e de um corpo e na ocorrência de uma série de eventos físicos e mentais ligados entre siA tese reducionista exclui que sejamos entidades existentes separadamente, sendo a pessoa, para a tese não reducionista, um fato separado suplementar distinto do cérebro e do vivido psíquico, ideia que Parfit chama de Conception du Fait Supplémentaire (Further Fact View)É a tese reducionista que estabelece o vocabulário de referência — evento, fato, descrito impessoalmente — em relação ao qual a tese adversária se define pelo que nega e pelo que acrescenta, elidindo o fenômeno central da posse por alguém de seu corpo e de seu vividoDessa desconsideração resulta a falsa aparência de que a tese não reducionista se ilustraria no dualismo espiritualista associado ao cartesianismo, quando na verdade o que a tese redutora reduz é, mais fundamentalmente, a mienneté do próprio corpo-
A verdadeira diferença entre as teses não coincide com o dualismo entre substância espiritual e corporal, mas entre pertença própria e descrição impessoal, reduzindo-se o corpo próprio a um corpo qualquer, o que facilita a focalização no cérebro nas experiências de pensamento
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O cérebro difere de outras partes do corpo por carecer de estatuto fenomenológico e de traço de pertença própria — não há relação vivida com o próprio cérebro, ao contrário da mão, do olho, do coração ou da voz, e dizer meu cérebro só faz sentido pelo desvio pelo corpo inteiro
Os fenômenos psíquicos colocam problema comparável, sendo o ponto mais crítico da empreitada a tentativa de dissociar o critério psicológico do traço de pertença própria-
Se o Cogito cartesiano não pode ser despojado da marca da primeira pessoa, Parfit pretende definir a continuidade mnêmica sem referência ao meu, ao teu, ao seu, criando uma réplica da memória de um no cérebro de outro e tratando a memória como equivalente a um traço cerebral, definindo um conceito amplo de quase-memória
O caso da memória é o mais frisante na continuidade psíquica, estando em jogo a atribuição do pensamento a um pensador, parecendo intraduzível em termos impessoais a substituição de eu penso por isso pensaA segunda crença atacada por Parfit é a de que a questão da identidade é sempre determinável, subjacente à anterior, servindo os puzzling cases construídos com auxílio da ficção científica para insinuar a vacuidade da questãoA questão da identidade sempre suscitou interesse por casos paradoxais, como as crenças religiosas sobre transmigração das almas, imortalidade e ressurreição da carne, testemunhadas na resposta de São Paulo aos coríntios em 1 Cor 15, 35 e seguintes-
Locke usou um caso imaginário perturbador para testar sua própria tese, sendo seus sucessores que o transformaram em puzzling case, multiplicando-se depois transplantes de cérebro, bisseção e duplicação de hemisférios cerebrais, além dos casos clínicos de desdobramento de personalidade
A seleção dos puzzling cases de Parfit é regida pela hipótese reducionista, como na experiência fictícia de teletransporte que abre a terceira parte de Reasons and Persons, em duas versões envolvendo a cópia exata do cérebro transmitida a outro planeta-
Na primeira versão, cérebro e corpo são destruídos, sendo indecidível se sobrevivo em minha réplica ou se morri; na segunda, sobrevivo com o coração danificado enquanto coexisto com minha réplica em Marte, que promete tomar meu lugar
A fabricação desses casos pressupõe cenários imagináveis ainda que tecnicamente irrealizáveis, centrados em manipulações tecnológicas sobre o cérebro tomado como equivalente da pessoa, eliminando por princípio a questão da ipseidadeA conclusão de Parfit é que a própria questão era vazia, pois nenhuma das três soluções é plausível — não existe ninguém que seja o mesmo que eu; eu sou o mesmo que um dos dois indivíduos resultantes da experiência; eu sou o mesmo que os dois indivíduos-
O paradoxo é um paradoxo da mesmidade, equivalendo-se indevidamente as perguntas vou sobreviver? e haverá uma pessoa que seja a mesma pessoa que eu?, dissociando os puzzling cases o que na vida cotidiana tomamos por indissociável, a conexão psicológica e o sentimento de pertença a alguém capaz de se designar como possuidor de suas lembranças
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Ao menos um traço parece incontornável nessas experiências de teletransporte, a temporalidade do viajante teletransportado, que teme, crê, duvida e se pergunta se vai morrer ou sobreviver
A terceira crença submetida à crítica de Parfit refere-se ao juízo de importância atribuído à questão da identidade, resumido na fórmula — Identity is not what matters (a identidade não é o que importa), e na afirmação — sabendo isso, sabemos tudoEsse ataque ao juízo de importância ocupa posição estratégica central na obra, destinada a resolver o problema da racionalidade da escolha ética posto pela moral utilitarista, atacando Parfit sobretudo a self-interest theory (teoria do interesse próprio)-
A tese de Parfit é que a disputa entre egoísmo e altruísmo não pode ser resolvida sem antes decidir que tipo de entidades são as pessoas, dando título à obra Reasons and Persons
Questiona-se a que identidade se pede para renunciar — à mesmidade que Hume já considerava inencontrável, ou à mienneté que constitui o núcleo da tese não reducionista —, parecendo que Parfit, pela indistinção entre ipseidade e mesmidade, visa a primeira através da segunda, correndo o risco de jogar fora a criança com a água do banho-
Ainda que as variações imaginativas sobre identidade pessoal conduzam a uma crise da própria ipseidade, não se vê como a questão quem? poderia desaparecer nos casos extremos em que fica sem resposta, pois a pergunta sobre o que importa pressupõe a quem a coisa importa, remetendo ao cuidado de si constitutivo da ipseidade
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A persistência dos pronomes pessoais, mesmo na formulação da tese reducionista, trai a resistência da questão quem? à sua eliminação numa descrição impessoal
Trata-se, em última análise, de mudar a concepção que fazemos de nós mesmos e de nossa vida efetiva, estando em causa nossa maneira de ver (our view) a vidaObjeta-se que o quase-budismo de Parfit não deixa intacta a própria afirmação de ipseidade, pedindo Parfit que nos preocupemos menos conosco mesmos, com nosso envelhecimento e morte, dando menos importância a saber se tais ou tais experiências provêm de mesmas vidas ou de vidas diferentes, e fazendo da unidade da vida mais obra de arte que reivindicação de independência-
Reconhece-se a objeção, mas ela pode ser incorporada à defesa da ipseidade frente à sua redução à mesmidade, pois a reflexão moral de Parfit provoca finalmente uma crise interna à ipseidade, ambígua entre posse e posse
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Pergunta-se se um momento de desapossamento de si não é essencial à autêntica ipseidade, e se, perdendo minha identidade toda importância, a de outrem não se tornaria também sem importância
Essas mesmas questões serão retomadas ao final do plaidoyer em favor de uma interpretação narrativa da identidade, que também tem seus casos estranhos reconduzindo a afirmação de identidade a seu estatuto de questão — por vezes sem resposta — quem sou eu na verdade?, ponto em que a teoria narrativa será convidada a explorar sua fronteira comum com a teoria éticaestudos/ricoeur/si-mesmo/identidade.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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