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Querer

RICOEUR, Paul. Écrits et conférences III. Paris: Seuil, 2013.

Fenomenologia do querer e abordagem pela linguagem ordinária

  • O propósito consiste em prestar homenagem aos dois ensaios de Alexander Pfänder, Phänomenologie des Wollens e Motive und Motivation, reativando seu sentido a partir de um horizonte deliberadamente estranho à fenomenologia, a saber, a filosofia da linguagem ordinária aplicada ao problema da ação, tal como se desenvolveu a partir dos parágrafos 611 a 660 das Investigações filosóficas de Wittgenstein, dedicados às formas de discurso pelas quais o homem diz seu fazer.
  • Longe de se opor à fenomenologia como escola rival, a análise linguística remete a ela como fundação do próprio discurso ordinário, situando-se em níveis distintos: a análise linguística no plano dos enunciados, a fenomenologia no plano do sentido do vivido, cada uma fornecendo à outra respectivamente um plano de expressão e um plano de constituição.

I

  • A escola da linguagem ordinária opõe-se, à primeira vista, à fenomenologia, ao contestar o recurso a intuições privadas do vivido, consideradas derivações parasitárias de enunciados públicos, e ao preferir partir das formas de discurso em que se organiza a experiência, tomando o próprio uso ordinário como tesouro conservador das distinções mais finas forjadas pela seleção linguística ao longo do tempo.
  • As contribuições dessa filosofia da linguagem ao estudo da ação se distribuem em três níveis: conceitual, proposicional e discursivo.
  • No nível conceitual, exemplificado por Elizabeth Anscombe, Stuart Hampshire e Abraham Melden, o conceito de intenção se reparte em três usos contextuais correspondentes a jogos de linguagem distintos, sendo a intenção tratada não como entidade mental oculta, mas como caráter próprio da ação que a distingue do movimento físico; dentro dessa rede noção, a conexão mais notável liga intenção e motivo, correspondendo exatamente ao que Pfänder examinou em 1911, sendo o motivo, ao contrário da causa, internamente ligado ao sentido da ação que ele explica; também a atribuição de uma ação a um agente identificável ecoa, no vocabulário ordinário da imputação, o que Pfänder chamou consciência de querer em sentido estrito.
  • No nível proposicional, a análise dos atos de discurso, sobretudo a teoria dos enunciados performativos de Austin, mostra como formas verbais como estimar, preferir, escolher e ordenar aproximam o vouloir psicológico de enunciados que, ao serem ditos, realizam o que dizem, distinção retomada e sistematizada por Searle entre atos locucionários, ilocucionários e perlocucionários, sendo especialmente nos atos ilocucionários que o discurso da ação se diferencia, aproximando a volição de uma estrutura linguística determinada.
  • No nível discursivo, a análise da argumentação parte da observação de que a intenção com que se faz algo liga sintaticamente uma ação a outra segundo a fórmula fazer P de modo que Q, o que reatualiza o silogismo prático aristotélico e conduz, através de teorias semi-formais como a de Chaïm Perelman, até as teorias matemáticas da decisão e dos jogos, nas quais se abandona inteiramente a análise da linguagem ordinária em favor de modelos formais dedutivos.

II

  • Confrontam-se então análise linguística e fenomenologia quanto às suas convergências e divergências: a primeira evita as dificuldades da introspecção e da apreensão intuitiva de essências, mas padece de uma incapacidade de refletir sobre si mesma e de garantir que suas distinções não sejam meras particularidades idiomáticas do inglês, dificuldade evidenciada pela recusa wittgensteiniana de qualquer relação de espécie a gênero entre jogos de linguagem, ao contrário do que Strawson tentou para os particulares de base em Individuals.
  • Ainda assim, a análise linguística remete à fenomenologia porque, tal como esta, não fecha a linguagem sobre si mesma mas a mantém aberta à experiência, segundo a fórmula de Austin de que se clarifica a linguagem para melhor analisar a experiência, a ponto de ele próprio chamar seu método de fenomenologia linguística.
  • A hipótese de que o vivido fenomenológico é o referente implícito da análise da linguagem ordinária se confirma pelo paralelismo entre a reação do segundo Wittgenstein e de Austin contra o atomismo lógico e a oposição husserliana entre essências exatas e inexatas, ambas as escolas praticando uma arte da distinção e da diferença, opostas à composição dialética.
  • A diferença de princípio, contudo, subsiste: o vivido fenomenológico não é o vivenciar natural, mas um império de sentido nascido do ato de redução, interpretável como o nascimento mesmo da função simbólica, fundamento daquilo que o filósofo analítico faz sem saber por quê ao se voltar dos fatos para os enunciados.
  • O vivido husserliano é, desde a redução, um campo estruturado e dizível, sujeito a análise eidética, sendo essa dizibilidade fundamental que permite fundar uma teoria dos enunciados, distinguindo a fenomenologia da análise linguística por operar não na clarificação de enunciados mas na apreensão mesma das essências, situando o problema não apenas na língua mas no modo de doação das coisas.
  • A convergência mais profunda decorre da intencionalidade: dizer que a fenomenologia é ciência eidética descritiva e dizer que ela trata da intencionalidade é dizer a mesma coisa, pois é possível dizer o cogito pela cogitatio e a cogitatio pelo cogitatum ou noema, sendo o noema exatamente o que funda a dizibilidade de princípio do vivido, de modo que Husserl termina onde Austin e os demais começam, situando os enunciados como camada suplementar sobre o sentido ligado ao noema.

III

  • Resta mostrar como essa fenomenologia linguística, resultante da conjunção entre a análise dos enunciados e a análise eidética dos conteúdos noemáticos da consciência, permite fazer justiça à fenomenologia do querer de Pfänder, que descreveu o vouloir em apreensão direta antes mesmo de Husserl estabelecer os fundamentos da análise descritiva, algo que o próprio Husserl nunca fez, tendo tratado os fenômenos afetivos e volitivos apenas como camada erigida sobre os atos objetivantes.
  • Pfänder analisa diretamente a consciência do tender-para, que engloba desejar, esperar, ansiar, temer e detestar, voltando-se para seu correlato — aquilo para o qual se tende — antecipando assim a correlação noese-noema de Husserl, e isolando dentro da relação do Eu a algo o visar como relação do Eu ao que não está presente, do qual deriva o representar como componente da visada do tender.
  • A passagem do tender ao querer em sentido restrito se dá por um estreitamento de sentido definido pela crença na possibilidade de realizar, pelo próprio fazer, aquilo a que se tende, distinguindo o querido do simplesmente desejado, sendo sobre essa relação entre Streben e Glaube que Pfänder constrói o conceito de motivação, separando rigorosamente, já em 1911, a razão do querer de sua causa, tomando consciência de que sua obra constituía já não uma psicologia mas uma doutrina dos atos volitivos análoga à lógica.
  • Essa doutrina revela-se tributária de uma análise linguística implícita, pois o próprio Pfänder reconhece que o ato de vontade se exprime linguisticamente em proposições da forma eu quero P, sendo tais proposições projetos nos quais se exprime a pré-posição prática própria de cada um, confirmando ponto por ponto a análise dos atos ilocucionários; do mesmo modo, a distinção entre determinação por motivos e determinação por tendências, entre razão e causa, encontra-se já conservada no vocabulário de Pfänder — ouvir espiritualmente imperativos, reconhecer, apoiar-se — em contraste com outra série de expressões ligadas ao sofrer e ao ser impelido.
  • Essa análise verifica ao mesmo tempo que toda fenomenologia é linguística, guiada pelas distinções da língua ordinária, e que a análise linguística não tem fundamento em si mesma, mas nos conteúdos noemáticos da consciência, tendo Pfänder reconhecido mais tarde na epoché uma etapa essencial da abordagem fenomenológica.
  • Ao ir diretamente ao Streben e ao Wollen sem passar pelo desvio dos atos objetivantes, Pfänder tematizou a noção mesma de ato que em Husserl permanece subordinada ao primado da percepção e do ver, prestando à fenomenologia pós-husserliana o serviço de romper o quadro do modelo perceptivo: a um cogito que é olhar corresponde um mundo que se dissipa em espetáculo impalpável, enquanto a um cogito que é fazer corresponde um mundo tão obstáculo quanto caminho, sendo a grandeza de Pfänder ter atingido diretamente, por uma fenomenologia do querer e da motivação, o núcleo de ato que faz do sujeito consciente um sujeito responsável.
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