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Hermenêutica e Simbolismo
RICŒUR, Paul. Écrits et conférences II. Paris: Éd. du Seuil, 2008.
I. Hermenêutica e simbolismo
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A descoberta dos problemas do simbolismo ocorreu de modo progressivo e histórico, à medida que cada obra respondeu a uma questão limitada e deixou abertas novas questões para investigações posteriores.
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A questão do simbolismo surgiu inicialmente no percurso de uma Filosofia da vontade, em conexão com os símbolos do mal e com os limites de uma análise puramente reflexiva e eidética das estruturas do voluntário e do involuntário.
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A análise da vontade buscava oferecer, no campo prático, um contraponto à Fenomenologia da percepção de Merleau-Ponty, articulando Husserl e Gabriel Marcel numa ontologia da desproporção entre domínio de si e submissão à necessidade.
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A ontologia da desproporção foi elaborada em O homem falível por meio de três polaridades e três mediações frágeis, conciliando pensamento reflexivo e pathos da miséria numa antropologia filosófica marcada pela tensão entre vitalidade simples e humanidade dúplice.
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A fenomenologia da vontade, mesmo ampliada em antropologia fundamental, permanecia formal e incapaz de alcançar a vontade má em sua figura histórica, exigindo o desvio pelos símbolos, pelos mitos e pela mediação cultural.
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A passagem à Simbólica do mal introduziu a reflexão concreta, na qual a vontade só se reconhece má e culpada ao meditar os símbolos e mitos transmitidos pelas grandes culturas formadoras da consciência ocidental.
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A incorporação dos símbolos da mancha, do pecado, da culpabilidade e dos mitos da queda à filosofia reflexiva nasceu da pressão de uma dupla cultura bíblica e grega, antes que a interpretação desses símbolos recebesse plenamente o nome teórico de hermenêutica.
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A primeira aproximação do problema hermenêutico definiu o símbolo como expressão de duplo sentido, na qual a significação literal remete a um sentido segundo acessível somente por esse desvio.
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O símbolo autêntico distingue-se da alegoria porque o sentido figurado não pode ser substituído por uma formulação direta, já que o caminho pelo sentido literal constitui a única via de acesso ao sentido segundo.
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A estrutura do duplo sentido ultrapassa a simbólica do mal e aparece em zonas diversas de emergência simbólica, como as hierofanias cósmicas, as produções oníricas e a criatividade poética.
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O mito foi definido como símbolo desenvolvido em forma de relato, articulado num tempo e num espaço não coordenáveis criticamente com a história e a geografia.
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A hermenêutica recebeu inicialmente uma definição limitada: há interpretação quando expressões de duplo sentido exigem que um sentido segundo seja desdobrado a partir de um sentido primeiro.
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A fórmula “o símbolo dá a pensar” indicava que o pensamento começa a partir de uma linguagem já acontecida e de pressuposições simbólicas, mas deve elevar esse dom enigmático à responsabilidade conceitual autônoma.
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A exigência de uma segunda ingenuidade pós-crítica ainda permanecia vaga, pois faltava articular uma repetição dos mitos com uma crítica que fosse restauradora e não apenas redutora.
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O choque da psicanálise e do estruturalismo conduziu a uma hermenêutica crítica e a uma definição mais ampla da interpretação do que o simples deciframento de expressões de duplo sentido.
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A leitura de Freud alargou o problema hermenêutico ao opor à interpretação amplificante dos símbolos do mal uma interpretação redutora, fazendo emergir a polaridade que levaria ao conflito das interpretações.
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A obra de Freud revelou que o conflito das interpretações não se limita à culpabilidade, mas envolve uma filosofia da cultura, na qual se reencena a tensão entre tradição e crítica.
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A dupla leitura do complexo e do mito de Édipo ilustra a mediação entre a arqueologia freudiana do Cogito, voltada aos aspectos arcaicos da sexualidade, e a teleologia hegeliana da consciência de si.
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A passagem ao linguistic turn deslocou a investigação de uma fenomenologia ampliada para uma hermenêutica de orientação linguística, centrada na estrutura simbólica como estrutura específica de linguagem.
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O conflito com o estruturalismo tornou decisiva a questão do sujeito e da compreensão de si, pois os sistemas anônimos de signos só adquirem significância quando mediam a historicidade da autocompreensão.
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A permanência do problema aparece na dialética entre compreensão de si e história, especialmente na articulação entre compreender e explicar nos campos do texto, da ação e da história.
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A interpretação consiste na alternância entre fases de compreensão e fases de explicação ao longo de um único arco hermenêutico, sem separar romanticamente a compreensão nem positivisticamente a explicação.
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A noção de texto exerce papel piloto porque nela surgem modelos de explicação próprios do domínio dos signos, tornando insuficiente a antiga oposição entre ciências da natureza e ciências do espírito.
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A teoria do discurso, entendido como ato pelo qual alguém diz algo sobre algo a alguém, oferece uma charneira entre compreensão e explicação.
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A teoria da ação mostra que os modelos interpretativos mais ricos entrelaçam segmentos sistêmicos e segmentos teleológicos no fenômeno da intervenção intencional no curso do mundo.
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A teoria da história mostra a combinação entre compreensão de uma trama singular de acontecimentos e explicação por generalidades, que em certos casos alcançam valor de lei.
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A fórmula “explicar mais é compreender melhor” resume a relação pela qual a compreensão precede, acompanha e envolve a explicação, enquanto a explicação desenvolve analiticamente a compreensão.
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A definição inicial de hermenêutica como desdobramento de um sentido segundo não foi abandonada, mas incorporada à dialética mais ampla entre compreensão e explicação.
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