User Tools

Site Tools


estudos:richir:questao-instituicao-simbolica

Questão da instituição simbólica (1993)

RICHIR, Marc. Le corps: essai sur l’intériorité. Paris: Hatier, 1993.

  • O mal-estar gerado pela instituição simbólica do corpo físico deve conduzir a uma distância crítica.
    • Esta distância permite um novo estilo de análises em relação a tudo que converte uma questão em problema a resolver.
    • Todo problema a resolver supõe que se coloque nos termos onde foi elaborado e onde é suscetível de encontrar uma resolução.
    • É notável que, na escolha destes termos, frequentemente não somos livres; eles se impõem com sua evidência própria.
    • O trabalho da elaboração é, na análise, justamente o trabalho de descobrir e encontrar estes termos, como se já estivessem lá, mas ocultos.
  • Esta constrição própria aos termos do problema a resolver não é de origem fenomenológica, mas procede da instituição simbólica.
    • A instituição simbólica é sempre instituição de cultura, no sentido amplo dado pela antropologia contemporânea.
    • A antropologia mostrou que não há humanidade sem cultura, e sem culturas no plural, dadas cada vez em sua contingência inexplicável.
    • Enquanto macacos da mesma espécie têm comportamentos essencialmente iguais, dois grupos humanos próximos podem ter culturas muito diferentes, embora pertençam à mesma espécie biológica.
    • A elaboração das questões em problemas a resolver pode ser muito diferente entre culturas, como mostra o exemplo da mitologia em comparação com a ciência e a filosofia.
  • A instituição simbólica de cultura engloba cada vez todo o campo do ser e do pensar humano.
    • Ela inclui: língua, práticas de caça, pesca, agricultura, práticas de parentesco, práticas de construção de habitat e delimitação de território, práticas educativas, pensamentos da condição humana (mitos, mitologias), práticas mágicas, religiosas, médicas, científicas.
    • O corpo faz parte integrante desta instituição: ele é sempre determinado (“codificado”) e “dressado” nas chamadas “técnicas do corpo”, que variam entre culturas.
    • A instituição simbólica do corpo é ao mesmo tempo instituição de sua identidade e da identidade dos sujeitos (sua individualidade, identidade “psíquica”).
    • Um vasto campo se abre para estudar a instituição do corpo através das diferentes culturas, particularmente do corpo como sexuado.
  • Nesta perspectiva, talvez tenhamos chegado a uma espécie de termo com a objetivação do corpo físico.
    • Mas somente de certa maneira, pois a ciência objetiva não é menos uma instituição simbólica que qualquer outra.
    • Se a humanidade esperou até o século XVII para o desenvolvimento das ciências objetivas, não foi porque estivesse mergulhada na infância ou na estupidez, mas porque foi nesse século que a ciência objetiva se instituiu de maneira muito particular.
    • O próprio de sua instituição é a fé de que não há questão que permaneça irredutivelmente em excesso sobre todo problema a resolver.
    • Isto implica uma evacuação cada vez mais deliberada das questões de sentido em favor de sua conversão em problemas a resolver.
    • A descoberta dos bons termos que levam à resolução é vista como a descoberta da verdade última e intangível.
  • Para a ciência objetiva, não pode haver a priori uma “região” do ser e da vida que lhe escape.
    • A ciência objetiva, ao se desenvolver, invade todo o campo do pensável e do praticável com a pretensão exclusiva à verdade.
    • Sua articulação com as técnicas de resolução (via experimentação) transformou tecnologicamente o mundo e a nós mesmos.
    • É neste sentido que encontramos hoje uma espécie de termo.
  • No mal-estar contemporâneo encontra-se a angústia de ser esmagado, com o mundo, na “máquina” tecnocientífica.
    • Compreendemos, mais ou menos confusamente, que esta instituição é cega, talvez mais que outras, pois se institui a partir da evacuação das questões de sentido.
    • Por isso, estas questões ressurgem de maneira mais aguda, com a descoberta de que provavelmente sempre houve uma dimensão cega em toda instituição simbólica.
    • A fenomenologia, por sua atenção ao excesso das questões de sentido sobre toda conversão em problemas a resolver, faz parte integrante da História que estamos vivendo.
estudos/richir/questao-instituicao-simbolica.txt · Last modified: by 127.0.0.1