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Viver encarnado: afecções (1993)
RICHIR, Marc. Le corps: essai sur l’intériorité. Paris: Hatier, 1993.
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As afecções (prazer, desprazer, mal-estar, dor) são classicamente atribuídas ao nosso corpo, como se por elas ele se manifestasse como endógeno.
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Quando as afecções são penosas, recorremos naturalmente à medicina, que trata o corpo como objeto físico.
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Este recurso é legítimo e sensato; seria suicida não esperar seus benefícios.
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Pelas afecções, nosso corpo parece levar sua vida “à parte”, de maneira obscura e rebelde, e essa “vida” cega parece legitimamente pertencer a ordens precisas de causalidade, objeto do conhecimento científico.
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No entanto, há igualmente nas afecções um excesso que as torna algo mais do que simples “sinais” do corpo físico.
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Este excesso se manifesta na maneira como vivemos as afecções: no prazer, como satisfação ou gozo; no desprazer, como falta, deficiência ou agressão.
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É característico que, quando o prazer ou o desprazer são intensos, eles tendem a se deslocalizar: no prazer, como algo que “preenche” todo o ser que somos; no desprazer, como uma afecção extremamente penosa que agride o núcleo de nosso ser.
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Nosso corpo é feito de tal forma que, nos extremos, tendemos a não ser mais do que o prazer ou o sofrimento.
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Isto excede, paradoxalmente, as ideias que se pode ter a partir da irradiação nervosa do prazer ou da dor.
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Além disso, se o prazer intenso é sempre efêmero, a dor extrema pode ser terrivelmente tenaz, assediando nosso ser até invadi-lo.
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A afecção porta, portanto, o excesso no sentido inverso ao da sensação.
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Enquanto na sensação o corpo se excede esvanecendo-se no mundo, na afecção o excesso é de um corpo a tal ponto excessivo que parece invasivo.
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Em relação a este corpo invasivo, a vida normal parece “etérea” e quase sem corpo.
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O corpo obscuro e rebelde aparece como o desencadeamento de uma violência anônima, vinda dos confins, acolhida numa espécie de êxtase de todo o ser no gozo, ou temida como sua absorção no sofrimento.
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Não há afecção que seja, para nós, pura e simplesmente físico-fisiológica.
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Ela porta sempre em si este excesso de si mesma sobre si mesma que se subsume habitualmente pelo termo “psicológico”.
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Mas “psicológico” só significa “imaterial” ou “incorpóreo” numa atitude de espírito onde o corpo foi sub-repticiamente reduzido à materialidade ou à corporalidade espacial de um instrumento.
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