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RAFFOUL (2020:23) – IDENTIDADE PENSAMENTO E SER

Em seu ensaio de 1946, “What Is Existential Philosophy?”, retornando às raízes da filosofia existencial, Hannah Arendt faz a afirmação radical de que o acontecimento da existência é um fenômeno que ocorre fora do pensamento. Com esse insight, que postula a exterioridade da existência em relação ao pensamento, é possível pensar genuinamente no acontecimento em sua eventualidade. Essa possibilidade nasce de um rompimento com as pretensões da razão de encapsular ou enquadrar o real, que tem sido o sonho de toda a tradição filosófica que culmina com Hegel. Comentando precisamente o sistema de Hegel como uma tentativa de englobar toda a realidade no pensamento, Arendt escreve: “Com uma abrangência nunca alcançada antes dele, Hegel forneceu uma explicação filosófica para todos os fenômenos da natureza e da história e os reuniu em um todo estranhamente unificado”. Ao fazer isso, continua ela, o pensamento se tornou uma “prisão para a realidade” (WEP, 164). O caráter de acontecível do acontecimento é, portanto, reduzido às exigências da razão. Essa tentativa de reduzir os acontecimentos ao que o pensamento pode compreender é melhor representada, segundo Arendt, na obra de Hegel, “a última palavra de toda a filosofia ocidental”, no sentido de que ela realiza a antiga identificação do ser e do pensamento. Na conhecida expressão de Hegel em seu prefácio aos Elementos da Filosofia do Direito, “o que é racional é real, e o que é real é racional (Was vernünftig ist, das ist wirklich; und Was wirklich ist, das ist vernünftig)”. Agora, de acordo com Arendt, a origem da filosofia existencial deve ser situada na ruptura com esse postulado de uma identidade entre ser e pensamento. O que esses filósofos existenciais “estavam se rebelando e se desesperando”, escreve ela, “era a própria filosofia, a identidade postulada do pensamento e do ser” (WEP, 164). Seja na forma de materialismos ou idealismos, seja afirmando a primazia da matéria ou, ao contrário, a primazia da mente, todos os sistemas tradicionais de pensamento concordam com essa identidade e todos eles tentam “restabelecer a unidade do pensamento e do Ser” (WEP, 164). A filosofia existencial rompe com essa suposta identidade, por meio da qual o acontecimento é neutralizado e feito conformar à forma do pensamento.

RAFFOUL, François. Thinking the event. Bloomington: Indiana university press, 2020.

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