5 Crise
POLT, Richard. Heidegger: an introduction. 2ed. Ithaca: Cornell University Press, 2025.
Heidegger em Crise
1. Com a publicação de Ser e Tempo (Sein und Zeit), a reputação de Heidegger alcançou rapidamente projeção internacional, mas ele não se acomodou sobre os louros, tornando-se cada vez mais insatisfeito com os conceitos filosóficos estabelecidos, inclusive os seus próprios, e cada vez mais frustrado com o mundo moderno, com seu “progresso”, suas opiniões populares e sua política.
2. Heidegger estava pronto para uma revolução não apenas no pensamento, mas também na ação, e acolheu com entusiasmo o movimento nacional-socialista quando este chegou ao poder em janeiro de 1933.
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Em abril de 1933 tornou-se reitor da Universidade de Freiburg com a aprovação dos nazistas, e no início de maio filiou-se oficialmente ao partido.
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Seu reitorado foi breve, pois, após conflitos com professores, estudantes e funcionários do partido, deixou o cargo em abril de 1934, sem jamais, contudo, renunciar à filiação partidária.
3. Por razões óbvias, a política de Heidegger tem sido há muito um tema perturbador e inflamado, embora, do ponto de vista biográfico e psicológico, sua escolha não surpreenda.
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Era um homem intenso, atraído por natureza pelos extremos e avesso à convencionalidade e ao conforto cotidianos.
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Ao mesmo tempo, fora criado num ambiente provinciano e católico que o voltou contra o liberalismo cosmopolita da República de Weimar.
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Num tempo de crise, estava perfeitamente disposto a juntar-se aos muitos intelectuais “revolucionários conservadores” que ansiavam pela queda do regime democrático.
4. Para o estudioso da filosofia de Heidegger, a preocupação principal não devem ser suas inclinações e seu temperamento, mas seu pensamento, cabendo perguntar até que ponto sua filosofia está enredada no nazismo.
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Em termos mais heideggerianos, pergunta-se se o erro de sua escolha existenciária (existenziell) contamina suas reflexões sobre a existência do ser-aí (Dasein), reflexões que, segundo o §63 de Ser e Tempo, nascem necessariamente de sua compreensão existenciária.
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A questão é difícil e altamente controversa, devendo ser adiada até o exame de alguns traços centrais de seu pensamento nos anos 1930.
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Por ora, cabe notar que ele dificilmente foi um nazista típico, pois interpretava a revolução à luz de sua leitura idiossincrática da metafísica ocidental e discordava discretamente de vários aspectos da ideologia nazista dominante, inclusive de sua teoria racial.
5. Os cursos de Heidegger dos anos 1930 e 1940 exploram e desconstroem incansavelmente os marcos do pensamento ocidental, ao mesmo tempo em que buscam o modo certo de recomeçar.
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Fascina-se com o pensador e romancista Ernst Jünger, cujo texto O Trabalhador (Der Arbeiter), de 1932, apresenta uma visão neonietzschiana da “mobilização total” da humanidade tardo-moderna, visão que Heidegger passa a considerar cada vez mais uma profunda fonte metafísica do nazismo e da qual se distancia (GA90).
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Explora os pensadores pré-socráticos em busca de possibilidades esquecidas nos começos da filosofia ocidental (GA35, 54, 55, 78).
6. Paralelamente, Heidegger escrevia textos privados e esotéricos que exprimem seus esforços mais intensos de lutar com a questão do ser, compartilhados em vida apenas com alguns amigos.
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O primeiro deles, publicado postumamente em 1989, é o denso e enigmático Contribuições à Filosofia (Do Acontecimento Apropriador) (Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis)), composto entre 1936 e 1938 (GA65).
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Nos demais textos privados publicados desde então (GA66–76, GA91), pode-se observar Heidegger pensando no papel, explorando muitas vezes obsessivamente famílias de palavras e linhagens conceituais na tentativa de irromper rumo ao “outro início” (der andere Anfang), possível nova fonte para o pensamento e a existência ocidentais.
7. Em 2014 começaram a vir à luz os diários filosóficos de Heidegger (GA94–102), conhecidos como Cadernos Negros (Schwarze Hefte) pela cor de sua encadernação.
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Neles, a primeira pessoa do singular aparece com muito mais frequência do que em suas demais obras, e ele comenta livremente vários fenômenos da época, em cadernos que começam em 1931 e se estendem pela maior parte de sua vida.
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A cultura e a política sob o regime nazista aparecem-lhe cada vez mais como manifestações de uma experiência nietzschiano-jüngeriana do ser que só poderá ser superada depois de atingir seu fim catastrófico.
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Os cadernos incluem também observações hostis sobre o “judaísmo mundial” como força de “desenraizamento”.
8. Embora o pensamento de Heidegger evolua consideravelmente entre Ser e Tempo e a queda do Terceiro Reich em 1945, convém tratar esse período turbulento como um todo, reservando os escritos do pós-guerra para uma etapa posterior.
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A revisão seletiva da fase intermediária começa pela chamada viravolta (Kehre) de seu pensamento, a mudança que se desdobra após Ser e Tempo e se manifesta em textos-chave como “Que é metafísica?”, “Sobre a essência da verdade”, Introdução à Metafísica e “A origem da obra de arte”.
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Seguem-se alguns temas centrais das Contribuições à Filosofia, após o que se retorna à inquietante questão da política de Heidegger.
