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estudos:polt:2006:3

3 Impasses Ereignis

POLT, Richard F. H. The emergency of being: on Heidegger’s contributions to philosophy. Ithaca, NY: Cornell Univ. Press, 2006.

Os impasses da apropriação

1. A apropriação (Ereignis) concerne à doação do ser dos entes e às formas de pertencimento anteriores à abstração teórica; pensá-la exige participar da possível fundação do aí, no qual se tornam possíveis as interpretações de si mesmo e dos demais entes.

2. A passagem do primeiro ao outro início articula os problemas decisivos das Contribuições à filosofia: a experiência contemporânea do esquecimento do ser, o confronto com a tradição e a busca de uma fundação para o ser-aí (Da-sein).

  • A crítica da tradição e da modernidade adquire seu sentido a partir da possibilidade positiva de uma transformação histórica.

3. No outro início, o acontecimento do ser (Seyn) apropria o ser-aí (Da-sein), o ser-aí funda o espaço-tempo e resguarda nele a verdade do ser junto aos entes, abrindo também a possibilidade de que os deuses adquiram importância para a existência humana.

4. Essas questões pertencem à articulação de um acontecimento crítico, e não a um conjunto de propriedades eternas: seus traços devem ser compreendidos como tensões e urgências nas quais a apropriação e a expropriação estão em jogo.

O ser (Seyn): a retração, o abismo e a fissura

1. O acontecimento do ser (Seyn) requer o exame de sua retração e de seu encobrimento, de sua relação essencial com o abismo do nada e de sua fissura nas diferentes dimensões da apropriação (Ereignis), entre as quais figuram a urgência, o domínio e a singularidade.

A retração do ser (Seyn)

1. A possibilidade de que o ser (Seyn) se retraia e aconteça essencialmente como recusa (Verweigerung) torna problemático seu encobrimento (Verbergung), pois parece afastá-lo da fenomenologia e suscita a suspeita de que se esteja postulando uma realidade oculta e inacessível.

2. A retração não significa que o ser seja uma coisa parcialmente descoberta ou inteiramente escondida: seu próprio encobrir-se pode constituir a doação pela qual se abre ao ser-aí (Da-sein) uma maneira de existir e de relacionar-se adequadamente com os entes.

3. A retenção de um presente material pode oferecer a ocasião de reconhecer um gesto de doação mais decisivo; analogamente, a retração do ser desvia a atenção dos entes e dos sentidos já disponíveis para o próprio acontecer da doação, que se manifesta ao encobrir-se.

4. A relação com essa doação exige renunciar à tentativa de possuir o ser ou de torná-lo presente como objeto; o saber da recusa acolhe seu autoencobrimento, enquanto a ressonância de sua ausência pode ser ouvida no silêncio que diz.

5. A busca pelo acontecimento da doação nasce da experiência de urgência em que a compreensão vigente do ser dos entes se revela limitada e contingente; a pergunta por que justamente esse sentido foi concedido conduz a um doar que não pode, por sua vez, aparecer como mais um dado.

6. A contingência pode suscitar a procura filosófica por um fundamento, mas a fonte aqui procurada permanece um não fundamento ou abismo (Abgrund); em vez de dissolver a experiência inicial numa necessidade explicativa, essa condição intensifica sua urgência.

7. A retração do ser admite modalidades distintas: algumas pertencem contingentemente à história ocidental, outras acompanham a absorção cotidiana nos entes, e outras ainda decorrem do próprio acontecimento do ser e não podem ser superadas.

  • Mesmo onde se reconhecem relações necessárias, elas permanecem enraizadas na urgência contingente de um ser-aí lançado numa situação que o obriga a questionar.

8. O esquecimento do ser na história ocidental vincula-se ao abandono pelo ser (Seinsverlassenheit; Seynsverlassenheit): a distinção entre entes e ser chegou a ser estabelecida, mas a fonte do ser não se tornou suficientemente questionável, e o retorno aos entes deixou para trás a pergunta que a distinção havia tornado possível.

9. A retração que favoreceu esse esquecimento pode também ter possibilitado a filosofia e a ciência gregas, pois o reconhecimento da entidade dos entes exigiu que a doação do próprio ser permanecesse fora de questão; nesse sentido, o abandono também se apresenta como uma forma paradoxal de concessão.

10. A tendência a absorver-se nos entes e a deixar seu ser ao fundo retoma o problema da decadência cotidiana (Verfallen), agora pensado também como afastamento do ser-aí (Da-sein); sua necessidade vigora enquanto não se alcança uma pertença própria, embora permaneça aberta a possibilidade de uma transformação dessa condição.

11. Mesmo a superação do afastamento cotidiano não tornaria o ser perfeitamente acessível, pois todo dizer já se move na verdade do ser (Seyn) e não pode ultrapassar integralmente o âmbito que o torna possível; a fonte do compreender resiste, portanto, à representação e ao domínio completos.

12. A terra (Erde) designa o limite irredutível das ordens de inteligibilidade: a verdade acontece na disputa entre mundo e terra, na qual o desvelamento exige tanto a abertura de sentido quanto a resistência daquilo que não se deixa esclarecer inteiramente.

  • A obra de arte pode tornar manifesto o encoberto precisamente enquanto encoberto, e essa tensão se estende também às criações, aos atos e aos sacrifícios históricos do ser-aí.

13. A terra remete à multiplicidade dos entes que sustenta e excede toda interpretação vigente, incluindo uma natureza que não se reduz ao objeto das ciências naturais; a abertura humana aos entes enquanto entes conserva, assim, uma dependência constitutiva desse fundo obscuro.

14. A compreensão do ser não antecede os entes como uma faculdade transcendental autossuficiente, pois emerge de uma abertura lançada que repousa sobre uma opacidade persistente; o projeto (Entwurf) deve, por isso, ser pensado a partir dessa abertura e não apenas como forma prévia de representação.

15. O início que abre uma ordem de desvelamento não pode ser explicado mediante fundamentos pertencentes à ordem que ele próprio inaugura; como abismo (Abgrund), o acontecimento do ser não admite definição conclusiva, garantia metafísica ou redução a uma certeza absoluta.

16. A doação pela qual se estabelece o sentido do que pode ser dado não pode apresentar-se, ela mesma, como um dado dentro desse sentido: toda apreensão dos entes permanece, portanto, dependente de um doar que se retém.

17. A verdade como clareira para o autoencobrimento reúne abertura e ocultação no acontecimento do desvelamento; reconhecer essa dimensão abissal impede que a disponibilidade cotidiana dos entes esgote seu sentido e permite acolher cada ente segundo a exigência que lhe é própria.

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