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estudos:polt:2006:2

2 Pensar Ereignis

POLT, Richard F. H. The emergency of being: on Heidegger’s contributions to philosophy. Ithaca, NY: Cornell Univ. Press, 2006.

O acontecimento de pensar o acontecimento

1. A apropriação (Ereignis) exige uma maneira singular de pensar e escrever: a meditação sobre o caminho (Wegbesinnung) não pode estabelecer previamente um método, pois pensar o caminho da apropriação já implica confrontar a própria apropriação e abrir-se à possibilidade de seu acontecimento.

  • As Contribuições à filosofia consistem em tentativas reiteradas de participar desse acontecimento, que é mais originário do que qualquer verdade concebida como proposição teórica.

2. A escrita das Contribuições procura resguardar a verdade do ser (Seyn) na linguagem dos entes, embora sua realização permaneça parcial: a articulação plenamente adequada entre dizer e acontecimento ainda é buscada, sem a pretensão de encerrar a verdade do ser num sistema definitivo.

  • A certeza visada nessa escrita dependeria de uma articulação concedida pelo próprio ser, capaz de acolher tanto seu caráter inaugural quanto seu encobrimento.

3. A certeza própria de um estilo não equivale à evidência cartesiana, mas à segurança criadora com que uma obra encontra a forma exigida por seu tema; estendida ao pensamento e ao ser-aí (Da-sein), ela designa o rigor de uma orientação histórica capaz de habitar um lugar e de abrir-se à apropriação.

4. O pensamento da história do ser (seynsgeschichtliches Denken) responde ao acontecimento histórico do ser e dele participa; por isso, a investigação das concepções tradicionais de verdade e pensamento prepara a compreensão de uma escrita cuja unidade deve ser buscada na articulação histórica de seu percurso.

Contemplação, representação e identidade entre quem conhece e o conhecido

1. As concepções tradicionais submetidas a exame compreendem a verdade como correspondência entre juízo e objeto, o pensamento como representação de particulares por meio de universais e, ainda, a verdade como identidade entre quem conhece e aquilo que é conhecido.

2. A história da verdade como correspondência envolve o afastamento de uma relação recíproca entre pensamento e manifestação dos entes: enquanto o pensamento inicial participava da articulação do que vinha à presença, a formação de juízos corretos passou a reivindicar a determinação do próprio ser.

3. A unidade inicial de pensamento e ser, encontrada nas interpretações de Parmênides e Heráclito, consiste numa pertença recíproca: a apreensão (Vernehmen) acolhe a manifestação dos entes, ao passo que a articulação humana responde à reunião originária pela qual o mundo se ordena e se torna manifesto.

4. A compreensão grega inicial do ser como vir à presença (Anwesen) reúne a emergência e a permanência dos entes; o pensamento participa desse desvelamento ao acolher e articular aquilo que se apresenta, numa contemplação que simultaneamente sustenta a manifestação e é sustentada por ela.

5. A contemplação do primeiro início oferece indícios de reciprocidade entre pensamento e ser, mas não se confunde com o pensamento exigido pelo outro início, pois o ser compreendido como vir à presença não equivale ao ser (Seyn) pensado como apropriação (Ereignis).

6. A passagem à primazia da ideia desloca a atenção da emergência dos entes para suas formas identificáveis: a verdade tende então a ser compreendida como adequação da representação a um modelo, enquanto a manifestação originária que torna possíveis os entes recua para o fundo.

7. Quando a asserção se torna o lugar decisivo da verdade, passa-se a exigir que o ente seja representável em proposições; a lógica dos juízos adquire, assim, autoridade sobre a compreensão do próprio ser, reduzido à entidade ou ao caráter de ente dos entes (Seiendheit).

8. A metafísica posterior substitui a atenção à manifestação do ser por generalidades abstratas que pretendem determinar os entes enquanto tais, tomando como estruturas originárias conceitos derivados da representação proposicional de entes já pressupostos como presentes.

9. A redução do pensamento à representação proposicional limita a possibilidade de experimentar novamente o desvelamento dos entes e acompanha uma relação moderna com eles na qual investigação e maquinação (Machenschaft) os tornam objetos de inspeção, mensuração e exploração.

10. A pertença histórica que antecede a inspeção teórica torna possível a manifestação dos entes, mas costuma ser esquecida quando se privilegiam suas características classificáveis; embora a descoberta de universais tenha constituído uma realização criadora entre os gregos, sua aceitação posterior como meio evidente de representação encobre a historicidade da própria verdade.

  • O desvelamento depende da relação entre passado e futuro que abre um mundo e permite falar e pensar nele.
  • A teoria pode oferecer explicações e demonstrações rigorosas em seu domínio, mas não alcança, por si mesma, o acontecimento histórico que possibilita a manifestação dos entes.

11. O argumento racional trabalha com significados universais relativamente fixos e pode produzir conclusões corretas, mas pressupõe um desvelamento histórico que suas regras não conseguem tematizar; pensar a historicidade da verdade exige, por isso, uma transformação daquele que pensa a cada passo do percurso.

12. A crítica à validade universal também possui implicações políticas inquietantes, pois a recusa de tornar o ser representável para qualquer pessoa, em qualquer momento, se associa à valorização de uma possibilidade rara de pensamento.

13. A generalização filosófica parte de entes já apresentados e procura seus traços comuns, sem alcançar o próprio acontecer de sua presença; pensar o ser (Seyn) requer perguntar como a presença dos entes se torna possível num acontecimento singular e como esse singular pode ser pensado sem ser reduzido a um universal.

14. A insuficiência da representação tradicional também deve ser examinada diante de alternativas que privilegiam os particulares ou procuram unificar particular e universal, sujeito e objeto, pois a simples inversão das prioridades herdadas ainda pode conservar intactos seus pressupostos.

15. A crítica do senso comum à abstração filosófica não consegue prescindir dos universais, já que a própria articulação da experiência cotidiana em palavras e conceitos emprega generalidades; a filosofia tradicional intensifica uma operação que já atravessa a linguagem comum.

16. O empirismo simples tampouco explica a origem dos universais ao pretender partir apenas do particular, pois reconhecer ou procurar algo particular já exige uma compreensão geral do que se procura; menos ainda explica a origem do sentido segundo o qual os entes são.

17. A mera preferência pelo particular, pelo devir ou pela multiplicidade mantém as oposições tradicionais entre um e múltiplo, universal e particular, ser e devir; igualmente, restringir a validade de uma verdade a determinado período não basta para pensar historicamente o acontecimento do ser.

18. A dialética hegeliana apresenta uma dificuldade mais profunda, pois compreende o universal e o particular como momentos parciais de um desenvolvimento histórico e procura reconciliá-los juntamente com sujeito e objeto, em vez de simplesmente afirmar a prioridade de um dos polos.

19. A busca de uma identidade superior entre pensamento e pensado pretende superar a cisão da representação por meio de uma unidade originária de sujeito e objeto; a crítica dessa solução deve alcançar também as formas de verdade que não se limitam à correspondência entre juízo e coisa.

20. A tradição da identidade entre quem conhece e o conhecido assume diversas configurações, desde a autocontemplação divina em Aristóteles e a certeza do cogito cartesiano até a unidade transcendental da apercepção em Kant, o ato originário de Fichte e o processo hegeliano de exteriorização e rememoração.

21. Essas formas de identidade conferem primazia a modalidades de autopresença, enquanto a temporalidade do ser-aí (Da-sein) e o acontecimento do ser (Seyn) impedem que a autopresença seja seu fundamento: os entes só podem apresentar-se num horizonte temporal, e o próprio ser não pode tornar-se presente como um ente.

22. A atribuição de um papel fundamental à autoconsciência resulta da compreensão do pensamento filosófico como representação de representações; embora Hegel também enfrente a separação de sujeito e objeto e pense historicamente, a integração da finitude num processo absoluto não preserva a contingência, a decisão, o sacrifício e o estranhamento exigidos pela singularidade do ser (Seyn).

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