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0 Introdução

PÖGGELER, Otto. Der Denkweg Martin Heideggers. Pfullingen: Neske, 1963. (Com sucessivas edições revistas e ampliadas: 2. Aufl. 1983; 3. Aufl. 1990; 4. Aufl. Stuttgart: Klett-Cotta, 1994).

1. Com a publicação, em 1927, da primeira parte de Ser e tempo, o pensamento de Martin Heidegger deixou o recolhimento da atividade universitária e ingressou abruptamente na esfera pública, alcançando uma repercussão que ultrapassou o círculo filosófico e fez com que a obra fosse recebida, por perspectivas muito diferentes, tanto como radicalização da autorreferência humana quanto como abertura renovada para a palavra de Deus, chegando a orientar uma geração marcada pelas revoluções e guerras na confrontação com sua própria existência e com sua própria morte.

2. A ampla recepção de Ser e tempo apareceu ao próprio Heidegger como um mal-entendido de seu objetivo fundamental, pois o destino de seu pensamento exigia preservar aquilo que ainda estava em caminho de toda fixação prematura em resultados comunicáveis, à maneira do silêncio de Nietzsche sobre seu «único pensamento»; a comunicação direta corre sempre o risco de transformar uma indicação destinada a orientar a busca em uma doutrina já pronta, compreendida segundo categorias conhecidas e, precisamente por isso, mal compreendida, de modo que o problema decisivo não consiste em corrigir interpretações equivocadas, mas em perguntar pela origem do mal-entendido como manifestação do abandono do ser e pela possibilidade de encontrar uma saída que reconduza ao que propriamente deve ser pensado.

  • «Quando se compartilha o pensamento próprio, não se o ama suficientemente.»
  • «Não se trata de um mal-entendido diante de um livro, mas de nosso abandono do ser.»

3. Os ensaios, conferências e cursos publicados por Heidegger depois da guerra procuram provocar uma transformação da disposição afetiva fundamental, e não oferecer uma compreensão acabada, pois aquilo que propriamente deve ser pensado permanece neles silenciado embora todos os pensamentos conduzam em sua direção; a exigência contemporânea de encontrar fórmulas definitivas converteu essas indicações em aparentes renovações da metafísica do ser ou em fugas para uma nova mitologia, porque, em vez de percorrer o caminho do pensamento, procurou-se apenas identificar mudanças de posição e fixá-las discursivamente.

4. O pensamento heideggeriano somente se torna compreensível quando cada escrito é tomado como passo de um caminho orientado por um único pensamento, e não como reunião de doutrinas sucessivas, pois Heidegger compreendeu constantemente seu próprio pensar como estar-a-caminho, desde Ser e tempo, onde a investigação se declara ainda apenas em direção à meta de reavivar a luta pela questão do ser, até as formulações posteriores nas quais o pensamento permanece errante na vizinhança do ser.

  • «Pôr-se a caminho de uma estrela, nada mais.»
  • «A presente investigação encontra-se apenas a caminho dessa meta.»
  • «Também nos dias vindouros continuaremos a caminho, andarilhos na vizinhança do ser.»

5. O caminho empreendido por Heidegger na vizinhança do ser pretende atravessar o percurso do pensamento ocidental precisamente porque a metafísica, embora tenha feito do ser seu tema clássico, nunca diferenciou-decididamente (ausgetragen) sua própria questão nem alcançou o fundamento impensado sobre o qual repousa; torna-se necessário, portanto, regressar àquilo que permaneceu encoberto pelo predomínio metafísico, trazendo à linguagem, de maneira verificável, os pressupostos não pensados que sustentaram a tradição filosófica e deixando que o próprio caminho ocidental conduza para além de si mesmo em direção a seu fundamento ainda não pensado.

6. Compreender o pensamento ocidental como caminho pressupõe compreender o próprio pensar como movimento no interior do acontecer do sentido e da verdade, pois cada época da metafísica constitui um trecho aberto pelo destino do ser e somente pode haver caminhos porque há um movimento mais originário que os libera; nesse horizonte, a palavra chinesa Tao, literalmente «caminho», pode indicar um mistério comum ao dizer pensante, desde que tais nomes sejam reconduzidos ao não formulado de onde recebem sua força.

  • «Talvez na palavra “caminho”, Tao, se oculte o mistério de todos os mistérios do dizer pensante, caso deixemos esses nomes retornar ao seu não formulado e sejamos capazes desse deixar… Tudo é caminho.»

7. O diálogo entre caminhos de pensamento diversos, inclusive o inevitável diálogo entre o mundo ocidental e o Extremo Oriente, não pode ser decidido antecipadamente por uma comparação exterior de doutrinas, mas somente pode ser esclarecido no próprio exercício do diálogo e do caminhar, como mostram as dificuldades registradas por Heidegger em sua conversa com um interlocutor japonês sobre a linguagem.

8. Uma introdução ao pensamento de Heidegger somente pode colocar sinais ao longo de alguns trechos, curvas, caminhos vicinais e sendas de floresta percorridos por ele, sem pretender comunicar resultados definitivos nem reunir seus escritos numa totalidade sistemática concluída, pois semelhante procedimento deformaria justamente o caráter essencial de um pensamento que existe como caminho e cuja unidade não pode ser substituída por uma construção retrospectiva.

9. A introdução deve funcionar como indicação de caminho capaz de levar à questão decisiva de saber se o pensamento ocidental chegou efetivamente ao fundamento sobre o qual se ergue e se, apesar de haver transformado a face da Terra por meio da ciência e da técnica, tornou-se capaz de relacionar o que lhe é próprio com aquilo que é próprio a outros grandes caminhos do acontecer da verdade; nessa medida, o caminho de Heidegger pode tornar-se ocasião para que cada um assuma propriamente o caminho no qual já se encontra e o percorra por si mesmo.

10. Nenhuma introdução pode ensinar alguém a instalar-se no pensamento de Heidegger como sobre um solo disponível para continuar dali a produzir novas ideias, pois o que está em questão não é apropriar-se de uma doutrina heideggeriana, mas confrontar-se com a tarefa por ele entrevista; como cada caminho possui uma proveniência própria, também seu advir (Zukunft) deve ser próprio, e o pensador em caminho não atua como transmissor de ensinamentos a serem aceitos, mas, no máximo, indica e deixa crescer aquilo que o leitor deverá assumir por si.

  • «Quando advém a ocasião propícia, no máximo apontar e indicar, sem ser ele próprio um sábio.»
  • O pensador não possui algo simplesmente a expressar ou comunicar e tampouco deve pretender estimular exteriormente quem o segue, pois sua função pode consistir apenas em abrir uma possibilidade de crescimento no próprio caminho de quem pensa.

11. O pensamento de Heidegger também é mal compreendido quando aparece como busca do novo ou como expressão extrema da modernidade, pois o movimento que lhe é próprio é antes um passo de volta ao que foi e permaneceu impensado em sua proveniência, fazendo desse retorno precisamente um caminho para o advir; tal regressão ao lugar no qual sempre já se está exige mais do pensamento do que a pressa progressista da consciência científico-técnica e somente pode ser compreendida por quem chega de longe, a partir de um solo próprio, trazendo consigo condições para transformar profundamente aquilo que encontra.

  • «Os que entendem propriamente são sempre aqueles que vêm de longe, a partir de fundamento e solo próprios, e trazem consigo muito para transformar muito.»
  • «Os primeiros adeptos nada provam contra uma doutrina.»

12. Um caminho de pensamento escapa igualmente à curiosidade interessada em saber simplesmente o que aconteceu e por quais etapas um filósofo teria evoluído, razão pela qual uma exposição do percurso de Heidegger como desenvolvimento histórico concluído transformaria em objeto passado aquilo que permanece essencialmente em caminho; a vontade de acumular explicações não conduz à pergunta pensante, porque exige respostas imediatas segundo uma racionalidade previamente estabelecida e não sabe aguardar aquilo que é digno de ser pensado.

  • «A vontade de saber e a avidez de explicações jamais nos conduzem a uma pergunta pensante.»
  • «Querer saber é já constantemente a arrogância dissimulada de uma autoconsciência que apela para uma razão inventada por ela própria e para sua razoabilidade.»
  • «O querer saber não quer aguardar aquilo que é digno de ser pensado.»

13. A reconstrução historicamente correta de relações particulares de Heidegger com Dilthey, Husserl, os gregos ou o cristianismo não constitui a tarefa primordial, pois importa antes perguntar se a maneira pela qual ele assume o pensamento ocidental é exigida pela própria história acontecida desse pensamento e compreender como Heidegger conduz a tradição para o caminho de seu pensar ao mesmo tempo que é chamado por ela para esse caminho, deixando em suspenso a questão distinta de saber se suas interpretações fazem justiça histórico-filológica a cada autor ou tradição.

14. A leitura do percurso heideggeriano deve igualmente resistir à necessidade contemporânea de escolher respostas últimas para questões do saber e da fé, embora esse percurso contenha decisões, transformações lentamente amadurecidas e viragens repentinas relacionadas à teologia cristã, ao dizer poético de Hölderlin, à política, à história mundial, à filosofia da existência e a outras correntes de seu tempo; antes de situar Heidegger em tais contextos, torna-se necessário alcançar aquilo para o qual seu pensamento se encaminha e reconhecer sua estranheza em relação à própria época, pois referências apressadas a correntes contemporâneas revelam frequentemente mais os desejos de seus intérpretes do que a determinação interna de seu caminho.

15. Diante das questões últimas do saber e da fé, Heidegger recusa explicitamente a pretensão de possuir a solução do enigma ou de oferecer salvação, assumindo-se como aprendiz permanente que põe à prova o pensamento herdado a partir daquilo que nele permaneceu impensado e procurando apenas preparar o lugar da verdade do ser como lugar possível de uma futura construção e habitação, tarefa que não edifica antecipadamente a casa definitiva, mas se limita a traçar os caminhos que poderão conduzir a ela.

  • «Somente podemos preparar, construindo, a habitação naquele lugar.»
  • «Se for permitido a semelhante construir meditar já sobre a edificação da casa para o deus e dos lugares onde habitem os mortais, esse construir deve contentar-se com trabalhar no traçado do caminho.»

16. Compreender Heidegger exige suspender a busca de respostas definitivas e os julgamentos prematuros para escutar primeiro a única questão que atravessa seu pensamento, pois tal escuta não acrescenta simplesmente conhecimentos nem fixa uma solução, mas pode transformar imperceptivelmente o próprio fundamento do pensar; somente uma escuta serena, que não exige nada para si e permanece disponível à interpelação e à transformação, pode experienciar aquilo que é digno de ser pensado e pelo qual o pensamento heideggeriano é chamado a seu caminho.

17. A introdução pode, assim, pretender apenas indicar provisoriamente um caminho para quem ainda o procura, devendo ser abandonada por quem já começou efetivamente a caminhar, pois sua finalidade não consiste em levar necessariamente ao caminho de Heidegger, mas em permitir tanto que ele seja reconhecido como possibilidade de um caminho próprio quanto que se decida não percorrê-lo; aquilo que permanece exemplar é a fidelidade a um vestígio quase imperceptível, cuja promessa de liberação para o livre ora se mostra obscuramente, ora irrompe num súbito clarão e depois volta a retirar-se de toda tentativa de dizê-lo.

  • «Nunca fiz outra coisa senão seguir um vestígio impreciso do caminho; mas permaneci fiel a ele. O vestígio era uma promessa, quase imperceptível, que anunciava uma liberação para o livre; ora obscuro e confuso, ora fulminante como um súbito vislumbre que depois novamente se retraía, durante longo tempo, de toda tentativa de dizê-lo.»
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