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estudos:poggeler:1992:1.3

1.3 Novos caminhos

PÖGGELER, Otto. Neue Wege mit Heidegger. Freiburg: Verlag K. Alber, 1992.

Novos caminhos com Heidegger?

  • Ser e tempo e a exigência posterior de uma virada (Kehre) marcaram profundamente a filosofia continental, enquanto sua recepção em outros países recolocou questões relativas à sociedade, à arte, à técnica, à religião e à ciência em diálogo com tradições filosóficas diferentes.
  • A edição das obras reunidas permite reconhecer os escritos de Heidegger como caminhos com linguagens e problemas próprios, cuja importância depende de sua contribuição para a questão comum da filosofia, e não da conclusão de uma obra sistemática.
  • O compromisso filosófico desses caminhos exige examinar o que neles conserva validade: a força de uma investigação não decorre da expectativa de que um único pensador possa determinar a direção futura da história.
  • A relação contemporânea com Heidegger requer uma ruptura crítica com suas premissas quando elas se mostram insuficientes, seguida de uma investigação concreta das possibilidades ainda abertas por seus trabalhos.

a. Com e contra Heidegger

1. Ética e dialética

  • A recepção crítica de Heidegger precisa reunir a reconstrução rigorosa de suas perguntas, a avaliação de suas respostas e a possibilidade de discordar delas diante de problemas que seu próprio pensamento deixou abertos.
  • A condição mortal pode conduzir à compreensão de que o aparecimento dos entes depende de uma verdade que também se oculta, mas essa elaboração da relação entre morte, ser e nada ainda requer esclarecer suas consequências para a relação concreta entre as pessoas.
  • A diversidade dos domínios de experiência não se deixa resolver por uma única pergunta supostamente fundamental; tomar a autointerpretação de Heidegger como medida definitiva impediria reconhecer motivos fecundos que seu percurso deixou à margem.
  • A fenomenologia precisa confrontar a existência histórica com questões éticas, lógicas e científicas que não recebem resposta suficiente pela simples continuação interna da questão do ser.

2. Filosofia e arte

  • A interpretação da obra de arte como acontecimento da verdade exige confronto com a história da arte, a experiência das obras e outras fenomenologias da imagem, pois a repetição da terminologia heideggeriana não basta para demonstrar seu alcance.
  • A passagem da análise de Ser e tempo à reflexão sobre a obra de arte precisa ser examinada em suas mudanças efetivas, especialmente na relação entre mundo, terra e história, sem pressupor que ambas obedeçam ao mesmo método.
  • As questões matemáticas e científicas desenvolvidas no entorno da fenomenologia permanecem indispensáveis para avaliar os limites da crítica heideggeriana à objetivação e à técnica.
  • A aproximação entre Heidegger e Marx só se torna fecunda quando as diferenças entre seus problemas históricos e filosóficos são preservadas; a redução de ambos à execução de uma única pergunta encobre essas diferenças.

3. Poesia e política

  • A compreensão da poesia como instauração histórica da verdade não pode substituir a discussão das decisões políticas, de suas instituições e de suas consequências, pois a esfera política possui uma consistência relativa que o pensamento de Heidegger frequentemente deixou de reconhecer.
  • A confiança dos anos 1930 numa transformação histórica mais originária do que a mudança institucional persistiu mesmo após o afastamento de Heidegger da ação política direta, tornando insuficiente explicar sua adesão de 1933 como um breve desvio pessoal.
  • A interpretação de uma potência originária do pensamento grego no destino alemão exige confronto com as mediações efetivas da tradição, inclusive com as influências judaicas e modernas presentes em Hölderlin e Hegel.
  • O apelo à verdade posta em obra conserva riscos quando é separado da avaliação pública de ações e regimes; a crítica filosófica precisa distinguir o alcance de uma abertura histórica das pretensões políticas feitas em seu nome.

4. O pensamento pré-socrático

  • As leituras heideggerianas de Parmênides variam com as fases de seu pensamento: a descoberta dos entes, a decisão entre ser, nada e aparência e a escuta tardia de um apelo originário não constituem uma única interpretação histórica invariável.
  • A fecundidade dessas leituras não dispensa a comparação com os fragmentos e com a pesquisa filológica, pois a reunião de ser, nada e aparência na verdade como desocultamento pode contrariar distinções decisivas do Parmênides histórico.
  • A procura de um início grego deve acolher a pluralidade de práticas e discursos da Antiguidade, em vez de fazer de poucos pensadores a origem exclusiva de toda a história ocidental.
  • A possibilidade de encontrar um lugar próprio mediante Hölderlin, Lao-Tsé ou Cézanne permanece ligada ao reconhecimento do mundo histórico efetivamente vivido; uma experiência de habitação perde sua força quando depende de uma imagem falseada desse mundo.

b. Fenomenologia do tempo

  • Os primeiros cursos de Heidegger transformaram a fenomenologia ao tomar a experiência cristã da vida fática como problema filosófico, colocando em tensão a distinção husserliana entre fato e essência.
  • A desvalorização posterior desses cursos como experiências juvenis encobre questões que podem conservar validade independente do caminho seguido por Ser e tempo e pelos escritos tardios.
  • A análise da vida histórica reuniu impulsos de Husserl, Dilthey, Bergson e Jaspers, mas procurou ultrapassá-los mediante uma hermenêutica que toma a história vivida, e não uma psicologia da consciência, como via de acesso à existência.
  • A intencionalidade não designa apenas a relação posterior de um sujeito com objetos previamente dados: mesmo as percepções mais simples já se articulam em estruturas de expressão e interpretação.
  • A evidência não se limita ao juízo teórico, pois também o querer, o desejar, o amar e o esperar possuem maneiras próprias de confirmar ou frustrar aquilo a que se dirigem.
  • A diferença entre a fenomenologia transcendental de Husserl e a hermenêutica de Heidegger torna-se decisiva na pergunta pelo tempo: a primeira exige esclarecer a constituição da experiência, enquanto a segunda procura compreender historicamente o modo de ser da existência.
  • A questão do ser como presença conduziu Heidegger a criticar a primazia metafísica do presente, mas permanece em aberto se sua concepção posterior de uma copertença das dimensões temporais faz justiça à diferença entre o tempo próprio e o tempo do outro.
  • A objeção ética de Levinas põe à prova toda compreensão do tempo que reconduza a alteridade a uma identidade histórica abrangente; a separação entre as pessoas pode exigir uma experiência temporal que o pensamento heideggeriano não desenvolveu.
  • A física, a biologia e as ciências humanas modificaram profundamente as perguntas sobre duração, irreversibilidade e vida, tornando inviável solucionar a questão do tempo por uma única operação conceitual ou por uma oposição simples entre ciência e existência.
  • Os caminhos abertos por Heidegger devem ser recolocados entre as questões filosóficas atuais, de modo que suas contribuições possam ser examinadas juntamente com fenômenos e conhecimentos que excedem as premissas de sua própria obra.
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