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estudos:poggeler:1992:0.1

0.1 Ereignis

PÖGGELER, Otto. Neue Wege mit Heidegger. Freiburg: Verlag K. Alber, 1992.

I. Caminhos a partir do acontecimento apropriador

  • A Carta sobre o humanismo retoma a questão aberta por Ser e tempo para recusar tanto a redução platônica do ser à presença assegurável quanto a inversão nietzschiana que culmina na vontade de poder; a análise da existência deve, assim, conduzir à pergunta pelos modos como o próprio ser se manifesta historicamente.
  • A virada (Kehre) inicialmente requerida por Ser e tempo não se realizou na parte publicada, pois a linguagem metafísica herdada mostrou-se insuficiente para passar da temporalidade do ser-aí (Dasein) à questão do sentido do ser.
  • O novo percurso pensa a verdade como desocultamento inseparável de ocultação, cujo mistério resiste à pretensão de assegurar e dominar tudo o que aparece; essa mudança também tornou necessário interrogar a responsabilidade do pensamento diante da história europeia recente.
  • A palavra virada designa movimentos diferentes: a passagem do ser-aí ao ser, a compreensão da verdade como história e, nos escritos tardios, a pergunta pelo lugar da abertura não constituem uma única conversão ocorrida de uma vez.
  • A continuidade do pensamento heideggeriano comporta interrupções, fracassos e recomeços; o emprego recorrente de acontecimento apropriador (Ereignis) só ganha sentido quando se acompanha a mudança de sua função em cada etapa.
  • A tentativa de compreender a vida desperta e a experiência do sonho como pertencentes a uma mesma historicidade deixa em aberto se impulsos não dominados pela consciência podem também orientar, de maneira oculta, o pensamento.

a. O súbito no instante

  • Os primeiros trabalhos de Heidegger associam a defesa religiosa da vida a investigações de lógica e à herança escolástica, mas a aproximação ao neokantismo, ao misticismo e a Hegel introduz progressivamente a questão da história no problema da verdade.
  • A fenomenologia da vida fática procura acompanhar a experiência antes de sua transformação em objeto teórico: o vivido acontece a partir do que lhe é próprio e se articula em significações que uma intuição hermenêutica deve seguir sem reificá-las.
  • A recusa de um eu transcendental fixo leva à compreensão do eu como situado, movido por antecipações, retomadas e perspectivas históricas; a fenomenologia se transforma, desse modo, em hermenêutica da existência.
  • As situações limite de culpa e morte tornam visível um instante em que as finalidades habituais perdem sustentação e a existência precisa assumir sua própria possibilidade, embora o caráter súbito dessa decisão não possa ser reduzido a um acontecimento público observável.
  • A temporalidade da existência permite distinguir o trato prático com os utensílios, a consideração teórica dos objetos e a abertura de uma situação decisiva; os horizontes temporais participam da constituição desses diferentes modos de encontrar os entes.
  • A parte não publicada de Ser e tempo deveria desenvolver uma interpretação temporal dos modos de ser, mas o percurso que conduziu à sua elaboração alterou a própria questão e tornou insuficiente a passagem prevista entre a construção sistemática e a destruição histórica.
  • As interlocuções com a teologia, especialmente com Bultmann, mantiveram viva a diferença entre o acontecimento da revelação e a interrogação filosófica, enquanto o encontro posterior com Nietzsche modificou decisivamente o modo de compreender a história.

b. Acontecimento apropriador e virada

  • A experiência histórica pensada por Nietzsche associa os maiores acontecimentos a transformações silenciosas cujo sentido amadurece tardiamente; a morte de Deus designa uma mudança ainda em curso, que não se esgota na constatação de um fato ocorrido.
  • A história do ser reúne acontecimentos raros em que uma configuração de verdade se abre e se retira, exigindo que a história seja compreendida para além dos esquemas de desenvolvimento contínuo e sucessão de fatos.
  • Nos Aportes à filosofia, o acontecimento fundamental concerne à própria vigência do ser (Seyn): a virada volta o pensamento para aquilo que, desde o início, permaneceu retraído, abrindo a possibilidade de outro início.
  • A virada do acontecimento apropriador (Ereignis) articula o apelo do ser ao ser-aí (Dasein) e a pertença deste ao ser; nessa relação, homem e ser recebem o que lhes é próprio sem que uma subjetividade produza ou controle o acontecimento.
  • A decisão aberta por essa apropriação alcança também a relação com a natureza e o divino, pois permanece em questão se a Terra será considerada apenas campo de exploração e se o sagrado será submetido às necessidades humanas.
  • Os Aportes conservam, contudo, a tensão entre a procura de um começo mais originário e a expectativa de uma grande criação histórica; o confronto com o fracasso político e com a guerra exigirá abandonar a confiança na vontade resoluta como via suficiente para a virada.
  • A leitura tardia de Hölderlin encontra força também nos começos discretos e no fracasso, quando o rio natal acolhe o estrangeiro e a proximidade do divino já não pode ser produzida por uma ação criadora.

c. Súbito e apropriação

  • O rigor do trabalho conceitual e a proximidade da poesia permanecem necessários mesmo quando aquilo que se procura só irrompe de maneira súbita; a abertura momentânea não dispensa o caminho paciente que prepara sua recepção.
  • Depois de Auschwitz e Hiroshima, a questão da virada adquire uma gravidade histórica que impede tratar o perigo técnico como simples problema de máquinas: a possibilidade de reduzir coisas e pessoas a reservas disponíveis ameaça a própria abertura de mundo.
  • A coisa pode reunir terra e céu, divinos e mortais na quadratura (Geviert), ao passo que o enquadramento (Gestell) encobre essa reunião ao ordenar os entes segundo sua disponibilidade; reconhecer o perigo como perigo pode abrir outra relação com o que se mostra.
  • O acontecimento apropriador (Ereignis) também comporta desapropriação (Enteignis), pois sua manifestação se resguarda no ocultamento e impede que o desocultamento se torne ilimitado ou plenamente assegurável.
  • A conferência Tempo e ser distingue o destinar do ser da simples sucessão de acontecimentos históricos: cada configuração reúne de modo próprio desocultamento e ocultação, sem transformar o acontecimento que as possibilita em um ente ou em causa suprema.
  • A clareira (Lichtung) designa a abertura em que algo pode aparecer mesmo na escuridão; sua experiência orienta os últimos caminhos para a questão do lugar, sem reduzir a verdade à imagem metafísica de uma luz que tudo torna visível.
  • A busca tardia por uma linguagem originária permaneceu inconclusa, e a concentração exclusiva no que parecia essencial suscita a questão de saber se experiências humanas indispensáveis ficaram à margem desse caminho.
  • Ser e tempo conserva possibilidades filosóficas próprias mesmo que não seja tomado como simples preparação do discurso posterior sobre o acontecimento apropriador; sua relação concreta com a fenomenologia pode abrir caminhos que ainda merecem ser percorridos.
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