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LINGUAGEM

PICOTTI C., Dina V. El otro comienzo del pensar y las exigencias de nuestro tiempo. Buenos Aires: Ed. Quadrata de Incunable, 2010.

  • O caminho do pensar de Heidegger é também um caminho para a linguagem, pois o pensar, junto com o poetizar, é considerado uma forma essencial da linguagem, sendo ela o mais elevado e primeiro entre tudo o que é adjudicado ao homem para ser levado à fala.
  • A meditação constante sobre a linguagem o acompanha desde seus inícios, e ele compartilha uma característica fundamental do pensamento contemporâneo, que é relacionar-se de maneira particular com a linguagem, seja em sua essência ou no que é falado.
  • No contexto contemporâneo, Heidegger oferece um plantio que se destaca por sua originariedade e radicalidade em relação ao próprio ser em seu acontecimento, implicando uma atitude e um nível de tratamento que conduzem a resultados diferentes.
  • Já em seu escrito de habilitação sobre Duns Scoto, Heidegger pergunta pelo vínculo entre linguagem e pensamento, advertindo que o plantio não atinge investigações psicológico-históricas, mas os últimos fundamentos teóricos da linguagem.
  • Quarenta anos depois, ele refere que já nessa época lhe preocupava a relação entre a palavra das Sagradas Escrituras e o pensamento teológico especulativo, ou seja, a relação existente entre ser e linguagem, ainda que de modo oculto e inalcançável para ele.
  • Nos trabalhos sobre Aristóteles, que ainda determinam o plantio de Ser e tempo, o lógico é interpretado como correspondendo a uma ontologia do presente, para a qual o pensável é apenas objeto continuamente presente, excluindo-se a visão desde o tempo e a história.
  • O título da obra indica a superação da lógica e ontologia tradicionais, pois o logos de sua fenomenologia hermenêutica interpreta a compreensão do ser-aí como ser histórico-temporal, que em sua práxis deixa de tomar apofanticamente algo como algo.
  • A linguagem é entendida desde a fala, que se mostra como articulação do estar-no-mundo, e não se fundando em uma lógica da afirmação ou em uma ontologia do presente, não emprega categorias, mas existenciários, determinações de caráter formal indicador, que são encontráveis por um logos interpretativo.
  • Essa atitude pensante indica o acontecimento da verdade sem dar sua realização concreta, e seu questionamento tem uma identidade memorante, sendo um pensar em, o que impele Heidegger a transcender sua ontologia fundamental para abordar o acontecimento da verdade.
  • A partir do acontecimento da verdade, pergunta-se como o logos filosófico se determinou e como o ser em sua verdade se determinou, advertindo-se os limites da lógica tradicional, pois se trata de um acontecimento do qual não se dispõe.
  • A questão dissolve-se em uma pergunta mais originária que dá lugar à história do ser, colocando-se em um âmbito prévio ao da ontologia do presente, no da correspondência de desocultação-ocultação, através de um logos indicador do primeiro e um logos silente, protetor do segundo.
  • Essa outra maneira do dizer, que excede a distinção entre o que se pode dizer e o que se deve calar, é um desemboque notório da filosofia, o de um dizer silencioso e de um silêncio eloqüente, ambos se entranhando como o desocultamento à ocultação, e quem sabe disso está, para Heidegger, em caminho para a linguagem.
  • Em “Aportes à filosofia”, aparece um plantio concreto da linguagem desde o outro começo do pensar no ser como acontecimento, onde a metafísica, por ter pensado a linguagem em relação entitativa com o homem, não teria conseguido pensar sua originariedade.
  • No virage do ente ao ser, não se deve perguntar pela relação entre linguagem e ser, mas como a linguagem se essencia no essenciar-se do ser, o que equivale a perguntar por sua origem, pois a linguagem não 'é' como um ente, mas é acontecida pelo ser para a fundação de sua verdade no homem como ser-aí.
  • A originária relação da linguagem com o ser reside em ser guardiã de sua verdade, e sua mais originária desumanização, devendo-se ver seu sítio nesse acontecimento, na contenda entre céu e terra, ao ser chamada a terra pelos deuses e ressoar um mundo e ser acolhido o chamado pelo ser-aí.
  • A linguagem funda a contenda ao sustentar sua medida, como moderador no silêncio, e o plantio da linguagem no trânsito do acabamento da metafísica para o outro começo leva a uma confrontação com ela, pondo em relevo sua diferença essencial e originariedade.
  • Na filosofia vigente, a determinação da linguagem é derivada do logos como enunciado e enlace de representações, de modo que a linguagem assume a enunciação do ente e é atribuída ao homem, sendo um objeto presente entre outros como instrumento, imagem ou criação.
  • No entanto, a linguagem nunca 'é', mas pode apenas dar-se ou não historicamente, e como a essência da história permanece obscura, todo intento de se referir à essência da linguagem fica enredado no plano metafísico, a partir do qual não é possível interrogar mais originariamente o ser mesmo e sua verdade.
  • Só a partir do ser e de seu mais próprio essenciar-se é possível desdobrar sua referência originária ao ente e ao homem, e essas afirmações envolvem o replanteio da noção de história no sentido de acontecimento histórico que se remonta ao próprio acontecimento do ser, diferenciando-a da historiografia.
  • Essa referência ao ser é a primeira questão real que supera toda filosofia e psicologia da linguagem, implicando o ser-aí, que recaba sua essência mais originária do ser, sendo guardião de sua verdade e pertencente ao ser como acontecimento para a fundação de sua verdade.
  • A pergunta sobre como o linguagem se essencia no essenciar-se do ser substitui a pergunta sobre como se relacionam, e trata-se do linguagem em relação ao ser de nossa experiência, de nosso linguagem materno ou histórico, mas não como fluxo historiográfico, e sim como nossa referência concreta ao ser.
  • Essa consideração fundamental se desprende de uma noção acontecimental de ser, na qual se situa a história humana e que permite localizar e valorizar as singularidades históricas como uma determinada cunhagem do ser e da linguagem, dando lugar à atitude pensante de localização, que é indicar o lugar do acontecimento.
  • A determinação metafísica da relação da linguagem com o ser humano é tão íntima que as determinações fundamentais do homem também caracterizam a linguagem, falando-se de corpo, alma, espírito da mesma, até apresentá-la como símbolo da essência humana.
  • Heidegger questiona a possibilidade de essa interpretação metafísica final conduzir a um pensar da história do ser e proporcionar algo frutífero, reconhecendo que ela mostra algo próprio da linguagem, como som e significação, mas aclarados entitativamente, perdendo seu fundamento com a superação da metafísica.
  • Considerada a linguagem em sua originariedade a partir do essenciar-se do ser, ela é palavra que funda a história, nomeando o que advém e apoiando-se no silêncio, que é a mais oculta moderação, um sentar medida no mais íntimo e amplo, a partir do qual se estabelecem regras.
  • Ao pensar desde o outro começo corresponde outro linguagem, embora isso não signifique substituir o linguagem habitual por um novo para o ser, mas reformar para o ser o que cresceu mais nobremente em sua simplicidade e força essencial.
  • Trata-se de andar com a opinião comum e virar no momento adequado para mentar a essência do mesmo ser, sempre sob o poder da palavra, e tal transformação da linguagem não é uma mera mudança formal de significação, mas a transformação do próprio homem de animal rationale em ser-aí.
  • A experiência fundamental da linguagem não reside na afirmação, no enunciado ou no princípio, mas no conter-se da contenção, pois o ser como acontecimento implica sempre subtração, e por isso a essência da lógica é a sigética.
  • O silêncio inclui a lógica ontológica, assim como a pergunta fundamental pelo ser inclui a pergunta condutora, surgindo da origem essenciante da linguagem, e essa localização originária do silêncio na essência da linguagem é capital, albergando uma vasta experiência histórica.
  • As conferências de 1950-1959, reunidas sob o título “A caminho da linguagem”, explicitam aspectos fundamentais do plantio já esquematizado nos “Aportes”, considerando a linguagem em sua origem, essenciando-se no mesmo essenciar-se do ser, o que exige outra atitude.
  • Mais além dos múltiplos conhecimentos sobre a linguagem, trata-se de perguntar por ela, e o sentido da pergunta já se esboçava nos “Aportes” em relação a um silêncio que funda, onde a palavra não é um signo de algo outro, mas um mentar que adjudica de modo pensante.
  • O perguntar essencial se põe na decisão da essência da verdade como busca do ser, e isso significa estar já na verdade, na abertura do que se subtrai, em referência essencial ao que se recusa, honrando o mais digno de ser questionado.
  • Perguntar desse modo já não se refere à linguagem como objeto, pois se abandonou o nível entitativo, e trata-se não de enfrentar-se à linguagem, mas de ingressar nela, em seu falar, de aprender a habitá-la, preparando-se com a atitude de contenção.
  • Ao acabamento da metafísica corresponde um pensar provisório destinado a preparar o salto para o outro começo do pensar, e no caso da linguagem, trata-se de dispor-se a ser afetado por ela, por seu falar, e a corresponder à própria linguagem como resposta.
  • Ingressar no falar da linguagem, em sua concreção histórica e em seu essenciar-se, a partir do qual ela se outorga e se subtrai, permite resgatar e valorizar as filosofias e ciências da linguagem, localizando seu espaço de jogo e seu aporte.
  • A experiência pós-moderna de contínua mudança, múltiplos paradigmas e centros históricos diversos, que não desemboca em renúncia à racionalidade, mas em uma razão configurativa, é interpretável a partir do darse e subtrair-se da linguagem em seu acontecimento.
  • Abordar a linguagem em seu essenciar-se é o salto que requer a virada, a consequência mais fundamental, por se tratar do próprio ser que em seu ser-aí vem à linguagem.
  • Trata-se de um falar do e não sobre a linguagem, o que implica uma escuta de seu falar, um ingressar nela, um aprender a habitá-la, para poder dizer o que de si mostra, o que significa superar a lógica vigente entitativa e suas leis.
  • Nesse intento, Heidegger já não fala de hermenêutica, mas de localização, que significa levar ao lugar do acontecimento, onde a palavra 'lugar' reúne no mais elevado e extremo da essência, e a essência tem a ver com espaço no sentido originário de espaciar, liberar, outorgar lugares.
  • Linguagem é linguagem, mantendo-se na dimensão do ser e distinguindo o localizar de outros procedimentos, e não se trata de ir além para superar uma tautologia, mas de permanecer nela, o que equivale a precipitar-se na altura que abre uma profundidade onde se encontra estância para o homem.
  • Localizar é primeiro indicar o lugar e segundo atender a ele, uma atitude cautelosa que atende mais ao dar-se da coisa mesma que à própria iniciativa, orientando-se para a escuta, a acolhida e a correspondência, terminando em uma nova pergunta.
  • A localização pode parecer uma parcialidade ou um caminho falso para a época interessada na expressão desnuda de diferentes pontos de vista, mas todos concordes em permanecer no nível entitativo, sem apontar para o essenciar-se da linguagem.
  • O localizar é um pensar que busca o que é essencial no poema, uma preparação para um diálogo do pensamento com a poesia, que se dirige a chamar a essência da linguagem para que os mortais aprendam novamente a habitá-la.
  • Esse diálogo é a tarefa atual do pensar, na época de acabamento da metafísica, como preparação do outro começo, e requer uma especial reserva, diferenciando-se do abordagem literária por ser pensante.
  • O lugar de onde os poemas de Trakl falam é descoberto como a solidão da alma estranha sobre a terra, peregrinando em busca da terra como próprio, e a análise linguística pensante pertence à localização, buscando o sentido originário na palavra.
  • O estranho não é estranho por não pertencer à terra, mas por pertencer à sua essência buscá-la peregrinando, para habitá-la reunindo o quarteto do mundo, e na época de Trakl, o passo do ocaso é chamado ao crepúsculo espiritual.
  • O advenedizo, animal ainda indeterminado, é chamado ao abandono da figura corrupta, e os que migram com ele para o nativo da essência humana são poucos e desconhecidos, deslizando-se para o crepúsculo e o renascimento na origem.
  • A solidão se consuma e é lugar obrigado da poesia quando, como reunião da tumba do advenedizo e da infância mais tranquila, congrega os que a seguem pelo caminho do ocaso para o despertar do espírito mais jovem.
  • Heidegger mantém um diálogo permanente com poetas de língua alemã, que considera essencial para o pensar, e reconhece o papel fundador de Hölderlin para uma nova época.
  • A localização do essencial no poema traz um dizer à linguagem, situa o poema no lugar de seu acontecimento, abrindo um caminho para seu falar, o que não significa impor algo estranho ao poema, mas libertá-lo para sua essência.
  • O diálogo do pensar com a poesia é longo e apenas começou, e seu objetivo é que os mortais aprendam novamente a habitar a linguagem, sendo uma tarefa da época de acabamento da metafísica.
  • Heidegger também trava um diálogo com um representante da cultura japonesa, mostrando a possibilidade de comunicação entre diferentes cunhagens da linguagem desde um âmbito preobjetivo de ser, ao qual corresponde um linguagem indicador.
  • A experiência japonesa de arte não é explicável pela distinção estética entre sensível e suprassensível, respondendo a outra atitude que a estética da relação sujeito-objeto, onde o gesto não descansa na iniciativa própria, mas em algo que acolhe e suscita correspondência.
  • Heidegger reconhecia que a linguagem alemã obstaculizava o que se tratava, a essência da arte e poesia asiáticas, mas o interlocutor se sentia auxiliado pelo pensar heideggeriano, a que chamava de hermenêutico.
  • Heidegger pretendeu assumir a hermenêutica no sentido originário de trazer a embaixada do destino, interpretando o dito pelos poetas como mensageiros dos deuses, mas depois de Ser e tempo já não empregou a palavra, não por mudança de posição, mas por outra estância no caminho do pensar.
  • A palavra 'hermenêutica' foi abandonada para deixar sem nome o caminho do pensar, e na conversa sobre a essência do linguagem, manifesta-se que ela é concebida de modo diferente em cada cultura, e ainda a própria noção de essência.
  • A expressão japonesa Koto ba se refere mais à essência que ao falar da linguagem, e a expressão heideggeriana 'dito' oferece uma indicação, sendo as palavras señas que requerem o mais amplo circuito de oscilação.
  • Koto, o ondear da calma que encanta, e ba, pétalas que surgem de Koto, equivale ao acontecimento da embaixada aclaradora da graça, e difere do que nomeia a palavra alemã Sprache, substituída por Sage para indicar o fazer aparecer e brilhar.
  • Trata-se de iniciar um caminho para a linguagem, mirando a essência do dito, que remete do representar metafísico ao atender as señas da embaixada, e a maior dificuldade é cuidar de sua fonte pura para não esquecê-la em busca do dito.
  • O plantio heideggeriano se apresenta como um “caminho para a linguagem”, que se inscreve na tarefa do outro começo do pensar, sendo possível apenas de ser avizorado desde o ser mesmo e requerendo uma transformação de atitude.
  • O caminho do pensar se distingue do método científico, que na modernidade não é apenas um instrumento, mas toma a si as ciências, e para o pensar meditante não se dá método nem tema, mas a região, a livre amplitude do ser, que franqueia o que há a pensar outorgando seus caminhos.
  • Com relação à linguagem, ela sempre se nos antecipa, dela dependemos, e a reflexão deverá atender a sua região, em vizinhança com o poetizar, onde o verdadeiro gesto do pensar não é a pergunta, mas o ouvir o que se promete.
  • A experiência com a linguagem será já grande se nos fizer pensar em nossa relação com ela, que é indeterminada, e seria necessário desacostumar-nos a escutar apenas o que entendemos, pois a palavra permite o ser.
  • O pensar se move em vizinhança com o poetizar e se requerem reciprocamente quando se trata do extremo, mas essa vizinhança é desconfiada porque o pensar é tomado como coisa da razão calculadora, embora ele trace sulcos no campo do ser.
  • A experiência do poeta com a palavra desemboca no segredo dela, e a relação entre ser e dizer se manifestou no pensamento ocidental em uma só palavra, logos, mas sem ser pensada para que chegasse à linguagem.
  • A palavra, como o 'é', não é um ente, mas a questão que desde antigo exige veladamente ao pensar, e segundo a experiência poética e a mais antiga tradição, ela dá o ser, sendo o por pensar, e suas medidas adequadas talvez sejam indicadas pelo poeta.
  • A reflexão sobre a experiência poética tomou um caminho pela vizinhança de poetizar e pensar, e embora diferentes, o acontecimento como dizer preestabelece sua cercania, pela qual a linguagem nos promete sua essência.
  • O caminho para a linguagem se transforma, deslocando-se para a essência linguística, e nosso caminho é possível através do encaminhamento que acolhe e usa, porque tal essência como dito que mostra repousa no acontecimento.
  • Para meditar sobre a essência da linguagem, requer-se um câmbio que não pode ser forçado, que afeta nossa relação com ela, e talvez possa ser preparado na vizinhança de poetizar e pensar, onde todo pensar meditante é um poetizar e toda poesia é um pensar.
  • O diálogo com a linguagem poética é parte substancial do caminho para a linguagem, pois poetizar e pensar são as duas formas essenciais em que a linguagem se bifurca, e têm crescido juntas historicamente, ignorando-se mutuamente.
  • Enquanto o poeta nomeia o sagrado, o pensador nomeia a essência das coisas, e a tarefa do pensador de localizar o essencial se situa na superação da metafísica, com um linguagem que se torna indicador para sugerir o sentido que nunca se mostra plenamente.
  • O diálogo do pensador com o poeta é válido porque o nomeado originariamente pela poesia move a pensar, e não se trata de uma tarefa literária de interpretação, mas de ingressar no falar da linguagem, no círculo de seu próprio falar.
  • A afirmação “linguagem é linguagem” não é uma tautologia vazia, mas impõe deter-se nela e corresponder a seu falar, superando a relação sujeito-objeto em um virage do âmbito entitativo para o do ser como acontecimento.
  • O falar puro do poeta não reparte títulos nem cobre com vocábulos objetos, mas chama, convoca as coisas à presença na palavra, acercando-as em sua dignidade de tais, como reunião dos quatro âmbitos da realidade.
  • O chamado às coisas as confia a um mundo, e chama também os homens, condicionando-os com mundo, e nomeia o sagrado que requer o quarteto, como o árbol de las gracias que se eleva da terra à dádiva do céu.
  • Mundo e coisas aparecem divididos, mas não separados, compenetrando-se em um entre, a di-ferença, que não é fusão, mas intimidade, e o umbral que o caminhante é chamado a atravessar sustenta o 'entre' da diferença.
  • Na ordem de vir à intimidade do entre de mundo e coisas repousa a essência da linguagem, e a própria diferença é a que ordena, e o chamar que reúne é o repique da calma, o que significa que a linguagem se essencia quando a diferença acontece.
  • A linguagem não é em primeiro lugar humana, mas o humano é linguístico, porque a linguagem requer do falar dos mortais para o ouvir dos mesmos, e o falar humano descansa no falar da linguagem.
  • O caminho para a linguagem, à medida que é andado, se transforma no caminho da própria linguagem para a fala mortal, e a estrutura do falar mortal só pode ser o modo como o falar da linguagem se apropria dos humanos através do mandato da diferença.
  • Todo arte, em tanto deixa acontecer o advenimento da verdade do ente, é em essência poesia em sentido amplo, mas a composição linguística tem um lugar destacado na totalidade do arte, sendo necessário para vê-lo uma concepção adequada da linguagem.
  • A poesia é considerada por antonomásia a linguagem essencial do arte, mas o autor dedica outros plantios importantes ao arte plástica, como ao perguntar pela origem da obra de arte, onde a pintura e o templo grego conduzem a uma resposta.
  • Na obra de arte, dá-se uma exposição que não é um mero trazer, mas um erigir em consagração ao abrir o sagrado, chamar o deus ao aberto de sua presença e elogiar sua dignidade, e, nesse reflexo, o mundo se aclara.
  • Na obra de arte, dá-se também produção, feita de um material que, ao contrário do instrumento, é exposto como tal e não desaparece, mas surge ao aberto, fazendo surgir a terra ao aberto de um mundo como o inexplorável e fechado.
  • Os dois rasgos fundamentais da obra de arte são a exposição de um mundo e a produção da terra, cuja copertinência está em si, e nesse repouso que inclui movimento, dá-se um acontecimento.
  • Mundo e terra são diferentes, mas não separados, pois o mundo se funda na terra e a terra peralta o mundo, não sendo meros opostos, mas contenda na qual se afirmam em sua essência, e a obra repousa na intimidade dessa contenda.
  • A verdade, pensada desde a experiência grega de alétheia como desocultação do ente, é um acontecimento, não uma propriedade, e sua essência é governada por um recusa que é a contenda de mundo e terra.
  • A verdade acontece em poucos modos essenciais, um dos quais é o ser obra da obra de arte, expondo um mundo e produzindo a terra, e na obra de arte a verdade está em obra, acontece, e o embelezamento da obra é o belo, um modo em que a verdade se essencia.
  • O criar da obra de arte, na experiência grega como têkhne, é um produzir que conduz um ente à desocultação, e a verdade como abertura só pode se dar instalando-se em um ente, sendo a instalação modos como a pôr em obra da verdade na obra de arte.
  • A obra de arte pertence à essência da verdade por ser próprio dela instalar-se no ente, e a criação que traz abertura do ente é contenda de mundo e terra, cuja intimidade do pertencer-se é levada através da divisão na forma.
  • A obra necessita não apenas de criadores, mas também de guardiões que a deixem ser obra, permanecendo referida a eles, e o guardar é um saber que não é mero conhecimento, mas uma abertura do ser-aí à desocultação.
  • Em “O espaço e a obra de arte”, Heidegger considera o modo originário como o espaço intervém nela, referindo-se às dificuldades para captar o topos e à importância da via linguística, e questiona o espaço artístico.
  • A palavra alemã Raum provém do verbo räumen, que significa espaciar, despejar, o livre, aberto para o habitar humano, e o espaciar concede e instala, outorgando lugares que abrem uma região, onde as coisas repousam em si mesmas.
  • O arte plástico não é posse ou disputa do espaço, mas encarnação de lugares que, abrindo uma região, sustentam uma livre reunião que outorga permanência às coisas e habitação ao homem, e a plástica é um fundar projetante de lugares.
  • Essa concepção essencial do arte como acontecimento da verdade permite perceber a obra de arte em sua originariedade e compreender seu papel fundacional em uma comunidade histórica, como na narrativa latino-americana, onde se expõem rasgos fundamentais da história não captados pela historiografia.
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