Henry Ey: Sujeito
Analecta Husserliana 7
O SUJEITO DA AÇÃO. Fenomenologia e Psicoterapia
1. A experiência de ouvir Dieter Wyss examinar o ser e o devir no jardim de Paris levanta a questão sobre qual ideia de homem, de sujeito, de ego e de existente a ação psicoterapêutica conduz, na medida em que se exige uma ontologia do sujeito suficientemente dinâmica para fundamentar a direção perdida e o tempo recuperado, isto é, a possibilidade de qualquer mudança na existência.
2. O problema do centro e do núcleo do ser emerge como tema central, na medida em que as ideologias contemporâneas tentam encobri-lo para dispersar o ser do si mesmo na periferia do seu meio e fazê-lo desaparecer numa mundanidade descentrada até perder-se na linha infinita do seu horizonte, sendo este o oposto do movimento ideológico moderno que pretende aniquilá-lo.
3. Diversas escolas, de Nietzsche a Michel Foucault, passando por paradoxos contraditoriamente manipulados pelo behaviorismo e pelo estruturalismo objetivista, proclamaram a destruição ou a abolição primitiva do self, negando ao homem a possibilidade de estar no centro de si mesmo e fundamentando “ciências humanas” nas quais o homem não tem lugar algum.
4. Torna-se necessário compreender que qualquer fenomenologia da existência não pode reduzir a ação, subjetiva ou intersubjetiva, a simples movimento, pois o mecanismo de estímulo e resposta, a reflexologia e o behaviorismo reduzem todas as ações humanas às regulações energéticas, termodinâmicas ou cibernéticas da conservação da energia e do cálculo de probabilidades, invocando uma suspensão cientificamente exigida de qualquer atividade do sujeito, da sua vontade ou da sua liberdade.
5. Existe outro modelo igualmente pernicioso e difundido que também reduz todos os atos a movimentos governados por um determinismo de complexos ideoafetivos montados sobre traços de memória, não havendo paradoxo em assimilar psicofisiologia e psicanálise, ambas igualmente associacionistas.
6. Ao indicar de que modo a ação humana não pode ser reduzida a tais reduções ingênuas, pretende-se indicar em que direção se deve apreender a compreensão, a gênese, a origem, o fim e o sentido dos fenômenos humanos por excelência, os atos, o que constitui uma clara exposição do problema discutido no encontro realizado sob o signo da fenomenologia.
7. A questão que se colocou foi como as intuições descritivas da consciência pura de Husserl poderiam aparecer como filosofia da ação, pois no fundamento de todas as estruturas intencionais que compõem a totalidade dos meios e fins da consciência descobre-se precisamente o ato humano por excelência, a realização de uma possibilidade que produz a eficácia do sujeito enquanto Homo sapiens, Homo mythicus e Homo faber, sendo o homem aquele que só cria criando a si mesmo.
8. Em oposição às análises espaciais ou matemático-geométricas que desenrolam as ações do sujeito sem ele e apenas num espaço horizontal, linear e unidimensional, o homem aparece como organizado no seu próprio poder de agir, pois compreender, pensar, perceber, agir, querer e imaginar são formas pelas quais a ação diversifica seus modos ontológicos particulares e afirma a temporalidade do seu ser no sentido que Heidegger pretendia dar ao existente.
9. Se para Heidegger a existência é refletir-se na interrogação do próprio ser e colocar-se na própria finitude, a ontologia do ser-si-mesmo que é o homem compõe-se precisamente daqueles atos de interrogação que, pela sua questão, invadem a urgência de uma resposta doadora de sentido, e daqueles atos de uma perspectiva sempre aberta sobre o próprio fim, de modo que dizer que o homem é necessariamente o sujeito, o agente e o produtor do seu ser numa série de êxtases sucessivos é dizer ao mesmo tempo que ele é um ser no tempo e com um fim.
10. A problemática desse ser que está em questão e em busca da sua finalidade constitui a própria forma da sua existência enquanto incessantemente esta busca e esta inquietude à qual, em cada momento do tempo da sua história, cada decisão da sua vontade responde à sua angústia e à sua irresolução, apresentando-se o ser humano ao fazer-se presente na verticalidade da flecha do seu tempo, que é o próprio estatuto da sua elevação.
11. O self de cada pessoa, o ego, o existente, longe de ser nada ou apenas uma “coisinha pobre” como Freud o chamou, é o eixo existencial em relação ao qual todo o sistema de relações vitais se ordena, na medida em que esse sistema não é mera relação de reciprocidade com os outros, mas relação consigo mesmo, sendo o sujeito a plenitude do ser que age, cria e se cria.
12. Essa realidade do self como sujeito e autor de toda experiência e de toda existência humana é demasiadas vezes ignorada ou sistematicamente negada pela ideologia contemporânea difundida que repete que o self é o outro, que é apenas o reflexo do outro, que é condicionado pelo ambiente ou que é apenas ilusão do desejo, e todas essas aniquilações do self desvalorizam a humanidade na exata medida em que, nas suas instituições, obras e história, a humanidade só pode ser não apenas a soma, mas a totalidade criativa de todos os indivíduos que a compõem.
13. Cada indivíduo é a sede da indeterminação e da liberdade que produz ou cria os atos pelos quais a história, a cultura, o conhecimento e a humanidade se constroem e que são as atualizações do seu destino, não fatal, mas sempre e a cada vez imprevisível, sendo o ser do existente e a essência do homem radicalmente contingentes nele e através dos seus atos.
14. Não há surpresa em que, ao longo do desenvolvimento da psicologia, da sociologia e da ética enquanto tentam ser ciências do homem, a ideia de sujeito, não de um sujeito absolutamente transcendental e externo à sua própria constituição, mas de um sujeito que aparece como a raiz, a razão seminal da sua existência, o diretor e executor do seu próprio programa de existência, mostre-se constantemente, mesmo oculta sob várias formas ou em diferentes graus, na maioria dos grandes sistemas modernos de filosofia.
15. Não se deve esquecer o que tradicional e constantemente esteve presente no pensamento francês desde os cartesianos, de Maine de Biran a Bergson, Maurice Blondel, Lavelle, Emmanuel Mounier e Maurice Merleau-Ponty, a saber, a introdução de uma dinâmica do esforço ou da força, de uma construção ou de uma energia mental como dimensão da vida psíquica, correspondendo o movimento francês da psicologia dinâmica ao desenvolvimento da psicologia da Gestalt alemã, particularmente a da escola de Graz, e aos movimentos de língua inglesa representados pela psicologia do fluxo da experiência vivida de William James.
16. A filosofia da intencionalidade, com Brentano e Dilthey, centrou as descrições psicológicas na própria atividade do sujeito, e nesse aspecto a notável obra de Bergson não deve ser esquecida, pois as intuições profundas de Ensaio sobre os dados imediatos da consciência, de A evolução criadora e de A energia espiritual igualam facilmente as análises existencialistas que constituem modelos para o pensamento filosófico contemporâneo.
17. As Ideias de Husserl e o Dasein de Heidegger surgiram nesse profundo movimento vitalista ou mesmo espiritualista e em todo caso dinamista da reflexão do pensamento sobre si mesmo, isto é, a ontogênese e a ontologia do ser pensante e agente.
18. Afastando-se da pura racionalidade da Lógica e das Meditações Cartesianas, Husserl empreendeu esclarecer a constituição das Ideias que formam as estruturas da consciência pura, situando-se o campo operacional da fenomenologia husserliana no espaço entre esses dois movimentos, na medida em que ela se toma como apreensão da experiência quando a sua experiência vivida é reduzida à sua essência, isto é, às configurações noético-noemáticas da sua constituição.
19. Longe de estar na categoria idealista de uma subjetividade pura desafiada pela operação da redução, a fenomenologia das configurações e estruturas da consciência une na mesma imanência tanto a realidade quanto o sentido da intencionalidade, de tal modo que o problema do Subjekt deve emergir ou permanecer, pois mesmo que o self seja, em abstração dos seus componentes eidéticos, indescritível, afirma Husserl, ele não pode ser eliminado com uma penada.
20. O fato de ser dirigido, de estar ocupado, de experimentar, etc., inclui necessariamente na sua essência a sua própria pureza particular e irredutível, e essa essência é o tempo fenomenológico enquanto forma necessária da transatualidade e da sobrevivência das experiências vividas, levando toda a longa exposição das implicações da experiência vivida além dos conteúdos empíricos da atitude natural a animar cada estrutura psíquica pelo sentido que sustenta ou mais exatamente produz a intencionalidade do sujeito.
21. A metafísica de Martin Heidegger, a de Ser e Tempo, faz da possibilidade de ser, da instabilidade ou da precariedade da existência, o fundamento da sua temporalidade, na medida em que esta se dá no curso incessantemente vacilante e problemático de um tempo que constantemente se põe em questão nos seus projetos e rejeições, nas preocupações (Sorge) de uma finitude negativa mas indefinida, o Dasein.
22. O abandono do existente faz com que ele oscile entre a Uneigentlichkeit e a Eigentlichkeit, a existência inautêntica e a autêntica, como entre a descentralização envolvente do “se” impessoal (das man) e a centração resoluta (Entschlossenheit) do Dasein, sendo muito precipitado e mesmo simplista resumir assim o sentido da metafísica de Heidegger em algumas palavras mais ou menos arbitrariamente escolhidas, mas acreditando não ter sido infiel a ela ao dizer que, buscando o núcleo do existente na temporalidade, no processo resolutamente dirigido do Dasein, essa metafísica o vê como a sede da sua liberdade.
23. Ao dispersar o Dasein, ao descentrá-lo no êxtase do Mit-sein, ao difundir esse ser-em-comum rumo a uma horizontalidade infinita e contínua de Mit-dasein mais aglutinados do que distintos, isto é, ao arriscar separar insuficientemente os existentes uns dos outros, os desenvolvimentos posteriores da filosofia de Heidegger após Ser e Tempo, especialmente na Introdução à Metafísica, expõem-se a uma exploração psicossocial, a uma recuperação política, a da aniquilação do ego na massa de uma mundanidade, de um “se” no qual o sujeito em primeira pessoa se dissolve, o que parece uma extrapolação incompatível com o sentido profundo da análise existencialista no ponto em que ela se junta e continua a análise da existência.
24. Antes, durante e depois do desenvolvimento da fenomenologia husserliana e heideggeriana, uma forte corrente existencial continuamente animou o drama da consciência infeliz, fazendo-o entrar na própria constituição do sujeito, pois segundo Kierkegaard e Pascal existir é ser para a morte, naquela finitude do ser que é presa de um pecado verdadeiramente original por ser ontológico e estar inscrito na angústia e na vertigem da liberdade, no sentido trágico da existência e na própria direção indicada e cumprida pelo seu sujeito.
25. Embora não se possa aqui desenvolver o seu alcance para esse sujeito, deve-se apontar a importância decisiva da fenomenologia individualista de Karl Jaspers, tornada tão conhecida na sua psicopatologia quanto na sua filosofia da liberdade, cada uma das quais remete à outra.
26. O que foi dito basta para apreender o que nas estruturas ontológicas do ser representa a organização da sua existência como centrada no e através do sujeito, sendo também evidente, embora não seja uma coisa óbvia, pois essa evidência deve ser descoberta pela descrição fenomenológica, que essa organização, a ontogênese e a ontologia do ser pressupõem o conteúdo implícito do Inconsciente contido pelas estruturas do ser e do devir conscientes.
27. Essas são as configurações da consciência que aparecem como formas de poder e de vontade, acontecendo assim que o Inconsciente, objeto de uma hermenêutica retroativa (Ricoeur) da positividade do desejo, tal como é o sentido da psicanálise freudiana, se opõe ao ser consciente e ao devir consciente como o sujeito de uma deliberação dos atos da liberdade individual, podendo essas várias formulações, carregadas de tanto significado filosófico e histórico, validar, se não prescrever, as noções de normatividade e de psicopatologia.
28. A tarefa do psicoterapeuta parece validada e prescrita por essa imagem da organização do “corpo psíquico”, na medida em que este pode ser considerado não como um agregado de corpúsculos, tanto no nível molecular quanto no atômico, mas como o próprio centro de indeterminação, isto é, da autonomia do existente, pois é a imagem inversa dessa organização que aparece na psicopatologia.
29. A partir desse momento a tarefa do psicoterapeuta é clara: ele deve realizar uma restauração de um sujeito que caiu no “pathos” da existência inautêntica ou na danação do Inconsciente, podendo fazê-lo apenas numa Einfühlung, uma empatia que exige uma espécie de anastomose com o Inconsciente do paciente e que requer a interpretação do seu simbolismo e o vínculo da transferência.
30. É igualmente claro que, residindo o evento psicopatológico essencialmente na perda da liberdade do sujeito, assegurada pelas configurações formais do seu ser consciente, a psicoterapia não pode reduzir-se a esse trabalho subterrâneo de minagem, devendo o ato psicoterapêutico aplicar-se diretamente à atividade do sujeito e ser consequentemente resolutamente ativo, de modo que na categoria das formas possa auxiliar o sujeito a refazer aquilo que o processo psicopatológico fez mal ou desfez.
31. Seu benefício deve ser o de uma libertação do sujeito, uma restauração no caminho e no sentido daquilo que o próprio Freud prescreveu: “Wo es war soll ich werden” (“Onde estava o id, o ego deve advir”).
