3.2 Responder pelo Sentido
Jean-Luc Nancy, Demande: Philosophie, littérature, Paris: Éditions Galilée, 2015
Escreva-me. Escreva qualquer coisa. — EMMANUEL LOI
A frase, a literatura, é oral. — PHILIPPE LACOUE-LABARTHE
1. Quem escreve responde, tendo sido dados muitos nomes pela tradição àquele ou àquilo a que se responde: a Musa, o Furor poético, o Gênio, com ou sem maiúscula, a inspiração, às vezes missão ou vocação, às vezes necessidade da alma ou dos nervos, graça celeste, injunção sagrada, dever de memória ou esquecimento, autocriação do texto, sendo porém o nome mais antigo thea, encontrado no primeiro verso da Ilíada: canta, deusa, a cólera de Aquiles…, proferindo o poeta, nesse incipit da literatura ocidental, apenas o primeiro verso, ou no máximo os versos que conduzem à pergunta que deus os lançou na guerra?, e a resposta, o filho de Leto e Zeus, engaja o poema inteiro, entendendo-se que é thea quem canta.
2. Não é Homero mesmo que escreve: ele deixa a voz divina cantar, cantando ele, o aedo, na medida em que interpreta o canto divino, o canto que pede para ser cantado (menin aeide thea…): assim faz o que espera que ela faça para que ele próprio possa retirar-se nesse canto, tornando-se dela o dele, mas permanecendo sempre esse canto divino, deixando a voz cantar ou deixando-a ser ouvida, recitando-a.
3. Desde então, aquele que escreve o faz apenas deixando-se ditar nos diversos sentidos do termo, sendo dicto falar por repetição, insistência, é comandar, prescrever, escrever é deixar-se enjungir a escrever: responder a um comando, ou a uma súplica, ou a uma exortação, excitação ou pressão, mas também, recebe ele o ditado: escrevendo, deposita o texto que outra voz compõe e recita para esse fim, uma voz que não escreve, uma voz que escreve primordialmente.
4. Da palavra dictare, o alemão extraiu, ao lado de diktieren, ditar, o verbo dichten, compor um escrito, unicamente um poema, respondendo aquele que escreve de um modo ou de outro, por eco ou execução, transcrição ou tradução, à ditadura de uma dictatio.
5. O que, na Ilíada, parece manifestar-se como a resposta de Thea, da thea, de uma thea sem nome, não identificada, é de fato o oposto, a resposta do aedo ao ditado da voz divina: mas, precisamente, essa resposta é dada por sua figura oposta porque, na verdade, é o aedo quem responde, ou antes, mais verdadeiramente ainda, só há resposta a alguma resposta, e nenhum, nem aedo nem deusa, jamais começou.
6. Aquilo que responde a si mesmo: eis a expressão para o que hoje chamamos escrita, responde a si mesmo: responde em si, responde a si, e responde por si, res responsoria, o sujeito que sucede à res cogitans, a menos que sempre a tenha precedido e a habite, se lembrarmos que o responsorius cantus se referia ao canto alternado das lições e dos versos, ou resposta, tratando-se na escrita de canto, e a alternância ou ressonância interna que forma o canto.
7. O aedo e a thea, portanto, não respondem no sentido em que respondemos a uma pergunta, mas no sentido em que atendemos, ou satisfazemos, uma expectativa, ou no sentido em que as vozes respondem umas às outras, correspondem umas às outras, respondendo ou correspondendo no sentido em que respondeo é estar reciprocamente engajado numa sponsio, num engajamento religioso ou jurídico: satisfazer uma promessa com uma promessa recíproca, como nos esponsais, forma de sponsio, de onde derivam o francês épouser e o italiano sposare.
8. Aquele que escreve escuta e está engajado em sua escuta, por sua escuta, sendo assim também, em alemão, Antwort, e em inglês, answer, a resposta a palavra que vem ao encontro, escrever é consentir a um encontro: é ir ao encontro e é aceitar o compromisso do encontro, escrever é marcar um encontro.
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O encontro pode ser furtivo, pode ser apenas um simples cruzamento de caminhos, um roçar, mas pode também ser uma longa conversa, e pode também ocorrer contra, através do choque, do confronto ou da repulsa, mas é sempre questão de algum confronto, e isso nunca ocorre isoladamente.
9. Escutar é ressoar: deixar vibrar em si sons vindos de outro lugar, e responder-lhes com a reverberação de um corpo, tornado cavernoso para esse fim, não sendo essa caverna a de Platão, não sendo fechada e apenas ligeiramente aberta a um exterior que projeta sombras, mas sendo abertura em si mesma nos dois sentidos que a expressão pode assumir: a abertura ao interior de si e a abertura em si, absolutamente.
10. De fato, é o eu como abertura, o eu como caixa de ressonância contra a qual as harmonias e acentos de vozes de fora, vozes divinas, batem, deslizam e acariciam, não sendo a ressonância uma sombra, não sendo o resto de uma subtração, mas a intensificação e reharmonização, a remodulação de uma sonoridade.
11. Quem escreve ressoa e, ressoando, responde: compartilha o engajamento de uma voz de fora, engaja-se por sua vez, torna polifônica a voz que era monódica ao chegar, pois sem essa polifonia, a monodia sequer seria ouvida, isto é, ninguém a ouviria e a própria monodia permaneceria surda a si mesma.
12. A resposta, ou réplica, é a retomada e a renovação da voz, do que ela diz, seu acento, sua articulação e fraseado, sua cantabilidade, mas sem retomada, sem resposta, portanto, a voz permaneceria em si mesma, não sendo voz uma voz em si, sendo um silêncio que nem sequer tem o espaço de um endereçamento, um mutismo selado em seu próprio zumbido, em seu mugido ou murmúrio, a repetição de um mmm silencioso, mutum.
13. Uma voz é sempre pelo menos duas vozes polifônicas em algum aspecto, devendo uma voz sempre dizer à outra canta! aoidos!, sendo aoidos, de onde deriva odè, o canto, a ode, relacionado a audé, que caracteriza a voz humana em contraste com phoné, que pode também ser usado para a voz animal, sendo audao falar a, dirigir-se a, proferir uma resposta ou chamar.
14. A voz humana sempre reverbera em direção a outra voz e a partir de outra voz ou mesmo em outra voz, sendo sua ressonância sonora inseparável da reverberação do dizer e do ouvir: mesmo quando falo sozinho e silenciosamente em minha cabeça, como supomos poder dizer, isto é, enquanto penso, ouço outra voz em minha voz ou ouço minha voz ressoar em outra garganta.
15. Escrita é o nome dessa ressonância da voz: o chamado, o encontro, e o engajamento que o chamado assume no encontro, sendo nesse sentido toda escrita engajada num sentido que precede a noção de engajamento político ou moral, a serviço de uma causa, sendo escrever engajar a voz na ressonância que a torna humana; mas humano, neste caso, significa nada além daquilo que é sustentado, ou acontece, em ressonância.
16. Assim, a escrita é a própria ressonância da voz ou a voz como ressonância, na medida em que é autorreferência, através da distância de um eu à mesmidade que lhe permite identificar-se: absolutamente singular a cada vez para um número indefinido de encontros singulares em cada ocasião, fixando a escrita, como se diz, o fluxo da fala (verba volant, scripta manent); essa fixação não é senão o registro, o armazenamento, ou a residência da capacidade de ressonância.
17. Na fala viva, ou mesmo na fala que fala apenas para informar o momento, sem atraso ou encontro marcado, a ressonância se extingue assim que a informação atinge seu destino, sendo na escrita o destino antes de tudo, inicial e sempre, a ressonância como tal: Homero não escreveu para menos que seus milhões e milhões de leitores, cada um deles um a um e como povos ou grupos de culturas singulares por cerca de 30 séculos.
18. E é por isso que ele começa seu poema com um apelo à voz divina cuja ressonância ele, o aedo, se torna, sendo a escrita fixada, gravada em madeira, cera, pedra ou papel, digitalizada na tela, bem como registrada na voz falante de um orador, um cantor, um endereçador em geral, se pudéssemos forjar o termo, sendo a escrita estacionária e invariável apenas porque inscreve assim o espaço de uma ressonância sempre renovada.
19. Quando Hegel afirma que uma verdade escrita nada perde ao ser preservada fora da circunstância singular de sua enunciação, assim está escuro ou está escurecendo dito ao meio-dia, não estaria ele a dizer que a verdade não pertence à ordem da verificabilidade empírica mas, antes, à ordem do endereçamento e da ressonância? Se digo está escuro ao meio-dia, o que estou tentando dizer e que forma de escuta se implica ao encontrar meu enunciado?
20. Dizer está escuro à meia-noite enuncia algo mas não anuncia nada; ou, antes, a frase anuncia um sentido que excede o significado referencial imediato atestado, dizendo essa mesma frase, quando falada ao meio-dia, isto é, essa frase escrita, um sentido que, desde o início, escapa à referência e faz sinal para outra coisa.
21. Esse outra coisa consiste primeiramente no endereçamento da frase e na ressonância através da qual é endereçada; poderíamos também dizer que engaja seu sentido através de seu fraseado mais do que de sua significação, referindo-se o fraseado à maneira ou arte de articular, na escrita ou na música, agregados considerados como unidades de sentido: o canto do sentido.
22. O canto do sentido não é senão o próprio sentido, não sendo o sentido significação ou designação, o reenvio de um significante a um conceito significado que se supõe existir fora da linguagem; é antes a abertura da estrutura e dinâmica do reenvio em geral, através da qual algo como um reenvio significante pode ocorrer: reenvio de significante a significado, acompanhado ele mesmo de um reenvio de significante a significante através do jogo das diferenças na língua e, finalmente, ou para começar, o reenvio de uma voz a uma escuta, sem a qual nenhum dos dois reenvios anteriores sequer poderia ocorrer.
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Porque um e outro, e um através do outro, em suma, pressupõem que o entendimento seja possível, em ambos os sentidos da palavra em francês; em alemão, poderíamos dizer obediência a ou pertencimento a, gehören, gehorchen, outros modos de resposta.
23. O que se destina a ser ouvido não é primeiramente o que a palavra pretende dizer, no sentido de que essa intenção já teria produzido a realidade acabada de sua intenção ou desejo, devendo antes de tudo ouvir-se esse próprio desejo: devemos ouvir o querer-dizer tentar ser ele mesmo em seu dizer.
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Em alemão deveríamos ouvir o deuten de bedeuten: ouvir na significação, a declaração, o anúncio endereçado a todos, ao povo, isto é, deutsch ou dutch, também, porque, aqui, o nome do povo, o de sua língua e o do apelo ou anúncio, ressoam no mesmo espaço semântico.
24. Ouvir o dizer desejando a si mesmo como dizer é já ouvi-lo ressoar ao ouvi-lo desejar o outro como seu lugar de ressonância e reenvio, não sendo o sentido como canto de modo algum a colocação em música de um enunciado ou de um texto, sendo antes o caráter primitivo ressonante do próprio sentido.
25. Em todo dizer, o querer-dizer, antes de dizer algo, se exprime inicialmente como querer, e esse querer, antes de querer algo, primeiro se apreende a si mesmo como podendo-dizer-se, isto é, podendo chamar e responder a si mesmo.
26. Em outras palavras, se escrever é replicar a um chamado com outro chamado, ou produzir e dar forma ao chamado como tal, como em Homero, ao invocar a deusa que chama das profundezas da língua e da lenda, inextricavelmente ligadas uma à outra, aprendemos agora que o chamado e o endereçamento nada mais são que o próprio sentido: sentido como abertura da possibilidade de reenvio.
27. O sentido jamais pode absolutamente ser o resultado de um único sujeito de sentido porque esse sujeito mesmo teria, no mínimo, de ouvir o sentido que produziria ou descobriria, tendo de se ouvir a si mesmo e, para ouvir-se, teria de ter-se chamado a si mesmo e, para chamar-se a si mesmo, teria de poder ressoar, e, finalmente, para ressoar teria antes de tudo de fornecer o espaço em si mesmo, o intervalo ou espaçamento, a abertura que é a condição de possibilidade de uma ressonância, porque isso exige uma relação de vibração a vibração, uma simpatia, como dizem os físicos ao falarem de vibrações simpáticas, ou a harmonia de que falam os músicos.
28. Mas a ressonância, tal como deve ser entendida aqui, não é apenas a relação entre duas ordens distintas de som; antes de tudo e principalmente, ela forma a sonoridade em si mesma, sendo a sonoridade definida, precisamente, pelo fato de que, em si, é um distanciamento de si mesma, sendo o sonoro sua própria expansão ou amplificação e o estabelecimento de sua própria ressonância.
29. O canto é a sonoridade humana do sentido: o sentido é ele próprio formado e definido pelo espaçamento interno de seu reenvio e, sobretudo, pela transmissão através da qual se destina e se deseja a si mesmo como resposta à sua própria transmissão, não sendo nós, cada um de nós, nesse sentido, nada além de pontos singulares ao longo de uma transmissão geral que o sentido faz de si mesmo em direção a si mesmo, e que começa e se perde bem antes e bem depois de nós, na totalidade indefinidamente aberta do mundo.
30. Mas ao mesmo tempo, esses pontos singulares que somos, ou os vários pontos singulares que se fragmentam em cada identidade individual ou coletiva, são eles mesmos a estrutura necessariamente discreta ou descontínua do espaçamento geral dentro do qual o sentido pode ressoar, isto é, responder a si mesmo.
31. Ao comunicar-se a todos os pontos singulares de escuta ou de leitura, de entendimento ou interpretação, de recitação ou reescrita, o sentido nada mais faz senão dividir-se entre ou em tantos sentidos singulares, podendo aqui a palavra sentido ser entendida tanto com seu valor de querer-dizer quanto com seu valor de poder entender, como quando falamos de bom senso ou de senso artístico, não podendo esses dois valores, entenda-se bem, ser separados um do outro: ambos presentes no próprio sentido do mesmo sentido.
32. O sentido tomado absolutamente ou em si mesmo não é senão a totalidade dos sentidos singulares, sendo o sentido infinito idêntico à infinidade das singularidades do sentido, não sendo nem um sentido geral nem um sentido pela soma de ou como resultado dos sentidos singulares: é a sucessão e descontinuidade desses singulares.
33. O fato é que há passagem e partilha entre eles, passagem e partilha de um querer-dizer e de um poder-entender, de uma atividade e uma passividade, que juntas são uma e a mesma coisa, a coisa do sentido: mas essa coisa é tal que sua realidade não é senão sua disseminação.
34. Se quero dizer, isso significa, antes de tudo, que quero dizer a mim mesmo e, assim, imediatamente, que quero dizer a ti, que quero dizer eu a ti e, assim, imediatamente, dizer tu a ti, a ti, que, em meu querer, és, portanto, já aquele que diz tu a mim para me chamar a dizer eu e a dizer eu a ti.
35. A escrita, cujo nome lembra uma incisão (scribo, skripat, scaripha), é bem precisamente o nome do espaçamento disjuntivo no qual e através do qual o sentido pode responder a si mesmo: desejar-se, enviar-se, e reenviar-se a si mesmo indefinidamente de ponto singular a ponto singular, o que também significa de sentido singular a sentido singular, de Homero, que sem dúvida não foi ele mesmo apenas um, a seu leitor Platão, a seu leitor Virgílio, a seu leitor Agostinho, a seu leitor Joyce, e assim por diante até seus milhões de milhões de leitores e reescritores, respondentes e correspondentes.
36. A escrita incisa a massa amorfa na qual, sem ela, nem boca nem ouvido se abririam, sendo toda obra escrita uma boca-ouvido que troca consigo mesma, chama a si mesma, se ouve, e responde a si mesma: aoidos, thea!
37. Aquele que escreve responde ao sentido: ele é, na medida em que escreve, a resposta ao chamado do sentido ou, antes, a resposta-no-chamado do sentido, mas esse sentido, thea, ao qual ele responde, também lhe responde, sendo o aedo aquele que responde por thea: é o único a atestar sua presença e sua voz, seu chamado ao canto dela testemunhando sua presença, que não tem outra atestação.
38. O aedo é o respondente por thea, responde em nome dela e por ela e, assim, é responsável por ela, e com ela, por tudo o que dela podemos ouvir.
39. Se o responsável é aquele que responde não a mas por ou em nome de, é porque ele é aquele que assim concorda, indireta ou mediatamente e tardiamente, tardiamente, mas prometido, engajado, em responder àquilo que poderia ser exigido a respeito daquilo pelo qual ou de quem o responsável assume responsabilidade.
40. O responsável encarrega-se e assume responsabilidade pelo compromisso de outro, o compromisso que o outro não pode ele mesmo assumir, ou o compromisso que o estado presente das coisas torna impossível assumir conscientemente: por exemplo, ao afirmar que sou responsável por um projeto, assumo o imprevisível que ele contém, sendo a responsabilidade a resposta antecipada a perguntas, exigências e interpelações ainda não formuladas, e não exatamente previsíveis.
41. Aquele que escreve torna-se responsável pelo sentido absoluto, comprometendo-se com nada menos que a totalidade e a infinidade desse sentido, ao mesmo tempo em que atesta a existência de thea e assume seu desejo: o desejo que assume de thea e o desejo que thea mesma é.
42. Como testemunha da existência de thea, ele se declara seu aedo, isto é, seu hermeneuta, não sendo o hermeneuta inicialmente aquele que decifra e decodifica significações, embora às vezes seja chamado a fazê-lo, e a refazê-las infinitamente ou até o ponto em que toda significação se desgasta até a exaustão e escapa através da própria incisão da escrita.
43. O hermeneuta não é inicialmente aquele que significa o que é dito: é aquele que leva mais longe o desejo de dizer, colocando-se no lugar do sujeito desse desejo: apresenta thea e permite que ela seja ouvida na própria voz, sua própria voz, através da qual a convoca, permitindo que essa voz seja ouvida singularmente a cada vez.
44. Mas assim, aquele que escreve não apenas atesta a existência de thea, também atesta sua natureza e que ela é inteiramente feita dessa partilha de vozes da qual ele, ou ela, que escreve, é parte, momento, acento, e sentido ao lado de tantos outros.
45. Ao responder ao desejo do sentido e, assim, ao sentido como desejo, ao aceder a esse desejo e deixar-se possuir por ele, aquele que escreve assume responsabilidade pela totalidade e infinidade do sentido como partilha de si mesmo, sendo o sentido partilhado e nada mais fazendo além disso: abre a circulação contínua e descontínua, a troca do introcável e sempre singular desejo de dizer.
46. Esse desejo é introcável, pois o que deseja não é a comunicação de uma significação, é o corte e o toque de uma verdade singular.
47. O que acontece ao sentido em cada ponto ou momento singular, em cada escrita, não é o cumprimento de um momento que uma instância final poderia realçar e capitalizar em alguma satisfação final do sentido, exegese completada, interpretação fechada, sentido tornado atual para sempre, não sendo nem um momento nem um fim na prova do sentido, e nesse sentido, não há prova do sentido: há apenas seu desejo e sua partilha.
48. O que acontece ao ponto singular é o singular mesmo como escansão da verdade no sentido, não podendo aquele que escreve deixar de adotar, enquanto escreve, as palavras de Rimbaud: não há dúvida, um oráculo, eu vos digo.
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Não há dúvida, um oráculo, eu vos digo.
49. Ele profere essas palavras sem nenhuma arrogância, mas também sem confiná-las ao ângulo derrisório de uma subjetividade, sendo aqui a certeza a verdade do engajamento e da responsabilidade no, e pelo, sentido, sendo o oráculo aquele que fala em nome dos deuses.
50. Esse oráculo, o oráculo da escrita, fala em nome da divindade, sempre a mesma, thea, aquela sem nome, aquela que nem sequer tem o nome impronunciável e que é divina em nenhum sentido além daquele em que sua verdade é partilhada, aqui e agora, nessa fala singular que se compromete a abrir a boca (oraculum) para deixar passar o sentido, ou melhor: que se compromete a abrir a boca ao sentido, em ambos os sentidos da palavra.
51. Sem dúvida, a verdade singular não surge para qualquer ocorrência de fala ou escrita, não sendo um oráculo aquele que pensa ser um oráculo, nem aquele que decide tornar-se um, pois estes se encerram na representação de um eu, que é uma generalidade com aparência de particularidade, ao invés de se abrirem ao reenvio singular de um Eu.
52. A verdade só pode chegar ao sentido se lhe for dado acesso a seu corte e a seu toque, só podendo esse toque que corta, que incisa com a escrita o espaço indiferenciado e a boca fechada, vir de fora, não sendo esse fora o de uma autoridade ou de um espírito que respira, sendo o fora no qual e para o qual a responsabilidade se engajou: esse fora onde não há nada e em cujo seio silencioso nenhum deus, nenhuma musa, nenhum gênio vigia, ou observa, sendo esse silêncio do fora que detém toda autoridade e exala toda inspiração.
53. Em um sentido, num sentido bastante inicial, esse fora é o do próprio sentido absoluto na medida em que é estrangeiro a qualquer significação e, portanto, primeiramente à própria linguagem: à linguagem, em todo caso, formada, composta e articulada na ordem das significações recebidas e mesmo possíveis.
54. A verdade surge de uma linguagem já perdida ou ainda por vir, vindo da voz que se deseja e se busca atrás da voz, no fundo da garganta, onde a incisão expõe uma separação inicial, que sobe até os lábios mas que os lábios ainda não conheceram, chegando como um ainda-por-vir da linguagem: uma linguagem inaudita, uma figura da linguagem que só ocorrerá esta vez, uma inflexão, um acento, ou um estilo, a incisão gravada por um estilete.
55. Isso não é um entalhe, é verdadeiramente uma incisão feita na linguagem convencional pela lâmina de um fora que consiste simultaneamente de não-linguagem e de linguagem-ainda-por-vir ou de um desejo de linguagem.
56. O estilo da verdade ou a verdade como estilo nada deve ao ornamento nem à solicitação e exploração das significações disponíveis, só podendo vir de fora, o toque e o corte de um fora que é propriamente o fora de toda significação, que é, assim, sentido fora de si, a verdade do sentido como seu excesso infinito ou sua falha sem fundo.
57. Para vir de fora, para responder a esse fora e responder por ele, a incisão deve algo ao acaso, à surpresa, ao kairos, o momento favorável cujo favor consiste apenas em oferecer-se àquele que está exposto ao fora, e que, por isso, chegou a já não querer seu querer-dizer: deixar esse desejo ser tocado pelo favor de um excesso para todo dizer possível.
58. Mas ao deixar-se dispor a esse favor, à sua raridade, exige-se uma retirada da linguagem, tendo de ter-se sido levado a um ponto anterior à linguagem, onde a própria linguagem já sabe, sempre já sabe, ali onde se forma, ali onde se delineia um ser passível de sentido, um ser suscetível ao sentido, que não há, de uma vez por todas, nada a dizer, nada que não envolva de algum modo um nada de significação e que, através desse nada, toque a própria coisa, a coisa em si, isto é, a coisa fora e a coisa a partir de fora.
59. Aquele que escreve responde a essa coisa e responde por essa coisa, sendo a própria coisa thea: é o sentido e o desejo de dizer, é a partilha infinita do dizer, não sendo a massa inerte que permaneceria fora da linguagem como um real que a linguagem não conseguiu alcançar, mas sendo, ao contrário, o fora que a própria linguagem incisa em si mesma e apresenta em toda verdade a que dá origem ou a que ateia fogo.
60. A linguagem é saber, e, portanto, é o próprio conhecimento da escrita: não o que a escrita sabe fazer, nem o que ela poderia saber para escrever, como uma arte de escrever, mas o conhecimento que a escrita está em processo de escrever, sendo o conhecimento daquilo pelo qual testemunha.
61. Testemunha isto: que o sentido, porque é ida e vinda, porque é chamado e resposta, é dado ou surge em retirada ou em excesso: retirada ou excesso para toda significação que detém o desejo e sua resposta, resposta que por sua vez só pode ser outro desejo e o desejo de um outro, eu que te desejo e que deseja que digas eu a ele e que, ao dizer eu a ele, digas tu a ele por tua vez.
62. Nessa constrição vertiginosa, esconde-se o conhecimento da escrita, isto é, o conhecimento de que ela é o instrumento ou é reconhecida como tal, sabendo aquele que escreve o desejo do outro e sabendo também que esse saber deve dividir-se de si mesmo para poder ser o que é: resposta, engajamento na verdade desse não-saber.
