Corpus
NANCY, Jean-Luc. Corpus. Edition revue et complétée. Paris: Métailié, 2006.
1. A fórmula ritual hoc est enim corpus meum (pois isto é o meu corpo) provém de uma cultura em que ela terá sido pronunciada incansavelmente por milhões de oficiantes, sendo reconhecida por todos, cristãos ou não, ora como consagração real, ora como símbolo, e repetindo-se entre nós como a repetição pagã por excelência, obcecante a ponto de tornar essa frase disponível para inúmeras zombarias.
2. Essa fórmula é o nosso Om mani padme, o nosso Allah ill'Allah, o nosso Shemá Israel, mas o desvio de nossa fórmula mede de imediato nossa diferença mais própria: somos obcecados por mostrar um isto e por nos convencer de que esse isto, aqui, é o que não se pode nem ver nem tocar, nem aqui nem alhures, e que isto é aquilo não de qualquer maneira, mas como seu corpo, sendo essa hantise do isto presentificado do Ausente por excelência aquilo que sem cessar convocamos, consagramos, quisemos absolutamente.
3. Hoc est enim (pois isto é) desafia e apazigua todas as dúvidas sobre as aparências, dando ao real o último retoque de sua Ideia pura, podendo gerar essa palavra o corpus inteiro de uma Enciclopédia Geral das Ciências, das Artes e dos Pensamentos do Ocidente, sendo o corpo aquilo que assim inventamos, e que ninguém mais no mundo conhece.
-
“A tesouraria matemática… o nu em pintura, o Contrato Social, a loucura de Nietzsche, os Ensaios, o Pesa-nervos, 'Madame Bovary sou eu', a cabeça de Luís XVI, as pranchas de Vesálio ou de Leonardo, a voz — de castrado, de soprano etc. —, o junco pensante, a histérica: em verdade, é toda a textura de que somos tecidos.”
4. Adivinha-se, contudo, a angústia formidável de que o “eis aqui” não é seguro, sendo preciso assegurar-se dele, pois não é certo que a coisa mesma possa estar ali, virando ao contato a certeza sensível em caos e tempestade onde todos os sentidos se desregulam.
-
“Hoc est enim, eu vos digo, em verdade, e vos digo: quem estaria mais certo de minha presença em carne e osso? Assim, essa certeza será a vossa, com este corpo que tereis incorporado.”
5. Corpo é a certeza fulminada, feita em estilhaços, nada mais próprio nem mais estranho ao nosso velho mundo.
6. Corpo próprio, corpo estranho: é o corpo próprio que hoc est enim mostra, faz tocar e dá a comer, sendo a Propriedade mesma, o Ser-a-Si em corpo, mas no mesmo instante é sempre um corpo estranho que se mostra, monstro impossível de engolir, enredando-nos numa vasta confusão de imagens que vão de um Cristo sonhando sobre seu pão ázimo a um Cristo extirpando de si um Sagrado Coração sangrento, sendo a angústia e o desejo de ver, tocar e comer o corpo de Deus o princípio da (des)razão do Ocidente, ficando o corpo, para nós, sempre sacrificado: hóstia.
7. Se hoc est enim corpus meum diz algo, é fora da palavra, não é dito, é excrito — a corpo perdido.
