10 Mundo dos corpos
NANCY, Jean-Luc. Corpus. Edition revue et complétée. Paris: Métailié, 2006.
Vem o mundo dos corpos
77. Houve o cosmos, o mundo dos lugares distribuídos entre e pelos deuses; houve a res extensa, cartografia natural dos espaços infinitos e de seu senhor, o engenheiro conquistador, lugar-tenente dos deuses desaparecidos; vem agora mundus corpus, o mundo como o povoamento proliferante dos lugares (do) corpo, não sendo isso o que pretende o discurso fraco da aparência e do espetáculo — um mundo de simulacros sem carne e sem presença —, esse discurso fraco não sendo outra coisa senão o discurso cristão da transubstanciação, simplesmente esvaziado de substância.
78. O que vem não é talvez nada mais que isto: vem o que nos mostram as imagens, mostrando nossos bilhões de imagens bilhões de corpos como nunca corpos foram mostrados — multidões, aglomerados, mesclas, colunas, ajuntamentos, exércitos, bandos, debandadas, pânicos, procissões, colisões, massacres, valas comuns, comunhões, dispersões, um transbordamento de corpos sempre ao mesmo tempo em massas compactas e em divagações pulverulentas, sempre coletados e sempre abandonados a uma desordem estocástica, estruturados por uma incessante partida generalizada.
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“Eis o mundo da partida mundial: o espaçamento do partes extra partes, sem nada que o domine nem o sustente, sem Sujeito de seu destino, tendo lugar apenas como uma prodigiosa multidão de corpos.”
79. Esse mundo — já o nosso — é o mundo dos corpos porque tem, porque é a própria densidade do espaçamento, a densidade e a intensidade do lugar, distinguindo-se essa densidade tanto de um universo do espalhamento quanto de uma economia da rasgadura, sendo essas formas as reconhecidas e combinadas do arranjo humano geral, mas ficando o mundo denso dos corpos, que a elas pertence em certo sentido, o que lhes permanece inapropriável, fora de alcance: mundo da apropriação do próprio, mundo da não-generalidade, oferecido não à “humanidade” mas a seus corpos singulares — não geral: mundial.
80. O que nos vem é esse mundo denso e grave, mundial, que não remete nem a outro nem a além-mundo, que já não é “internacional” mas outra coisa, e que também não é mundo de aparências nem de esperanças, mas é enfim mundo, isto é, lugar próprio das extensões reais, do espaçamento de nossos corpos, das partições de suas existências, das partilhas de suas resistências — propriedade do lugar enfim dada à extensão dos corpos, talvez sendo necessário atingir essa extremidade do Ocidente, essa tensão e extensão últimas, planetária, galáctica, cósmica, para se chegar assim ao lugar.
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“Para que o não-lugar, ou o sub-lugar, da caverna platônica venha a apropriar-se do caráter local, e a apropriá-lo absolutamente.”
81. Ao dizer “enfim”, “até aqui”, “era preciso atingir”, implica-se uma história, um processo e mesmo uma finalidade que seria preciso evitar, devendo-se dizer apenas: agora é assim, eis o aqui-agora, tanto mais que um fim é uma concentração pontual e que, nesse sentido, o espaçamento dos corpos não poderia fazer um fim, fazendo fim de outro modo: enquanto borda, traçado dos corpos, permanecendo, contudo, verdadeiro que algo também se cumpre, pois a caverna de Platão já é a única e exclusiva “localidade” — ou “des-locação” — do mundo apresentado pelo Ocidente nascente.
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“Teremos de pensar o espaçamento do tempo, isto é, o tempo como corpo.”
