5 Maria de Magdala
NANCY, Jean-Luc. Noli me tangere. Paris: Bayard, 2003
1. Maria de Magdala - a quem chamamos “Maria Madalena” - tem toda razão para ser a primeira a quem o ressuscitado se mostra, ainda que seja para dela se esquivar tão rapidamente quanto, tendo também toda razão para ser aquela a quem ele confia a tarefa de anunciar o que viu ou o que crê ter visto.
2. A história de Maria de Magdala durante a vida de Jesus prefigura o encontro diante do túmulo aberto de duas maneiras.
3. Por um lado, ela é irmã de Lázaro, e foi ela quem correra até Jesus para que ele trouxesse seu irmão de volta à vida, tendo assim já demonstrado o tipo de confiança que deposita em seu Senhor, não sendo essa a ingênua credulidade com que alguns consideram os pretensos taumaturgos, mas antes a certeza de que o irmão morto ainda pode se erguer e caminhar, que ele de fato não deixou de fazê-lo, como todos os mortos, pois todos caminham com os vivos.
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Os mortos são falecidos, mas, enquanto falecidos, não deixam de nos acompanhar, e nós não deixamos de partir com eles.
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Partir para lugar nenhum: partir absolutamente, ou ir do fundo do túmulo ao fundo sem fundo sobre o qual não se deixa de avançar, sem por isso se dirigir a algum destino.
4. Caída aos pés de Jesus, Maria lhe dissera que se ele tivesse estado ali, seu irmão não teria morrido, ecoando sem sabê-lo a frase que Jesus dissera pouco antes a sua irmã Marta - “Eu sou a ressurreição” -, de modo que, em sua presença, a morte não pode se restringir à cessação da vida, tornando-se vida mesmo na iminência incessante do ausentar-se.
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“Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido.”
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“Eu sou a ressurreição.”
5. Mais tarde, Jesus voltara a Betânia, onde jantou com seus discípulos, Marta, Lázaro e Maria, tendo Maria tirado um perfume precioso com que ungiu os pés de Jesus, antes de secá-los com seus cabelos, tendo um dos discípulos, Judas, reprovado-a por desperdiçar assim o perfume em vez de dar o dinheiro aos pobres, ao que Jesus respondeu que a deixassem, pois ela o guardara para o dia de seu sepultamento.
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“Deixai-a: para o dia da minha sepultura ela guardou isto.”
6. Maria Madalena esteve sempre em proximidade estreita com a morte em geral e, portanto, também com a de Jesus, sendo ela quem, em outro episódio igualmente célebre, “escolhera a boa parte” ao permanecer sentada perto do mestre em vez de se ocupar das tarefas domésticas como sua irmã Marta, tendo sempre distinguido, compreendido e escolhido a parte que não é deste mundo.
7. O fato de ser ela por outro lado considerada mulher de má reputação responde ao seguinte paradoxo: a “boa vida” não é uma vida conforme à boa moral - podendo-se pensar também na mulher adúltera, no filho pródigo etc. -, mas é aquela que, nesta própria vida e neste mundo, se mantém em proximidade estreita com o que não é deste mundo, com esse fora do mundo que é o vazio do túmulo e o vazio de deus, o vazio aberto no interior de deus ou enquanto “Deus” pela colocação no mundo do homem, pela colocação no mundo do mundo.
8. Maria Madalena é aquela que tocou Jesus da maneira mais conspícua, ungindo-o com um perfume - ou uma unção, que corresponde ao título de “cristo” (ungido, messias) -, fazendo-o, porém, num modo inteiramente revirado (paródico? crítico? desconstrutivo?): o óleo sagrado é substituído por um perfume sensual e a unção é feita nos pés e não na cabeça, sendo, não obstante, verdadeira unção, unção que terá embalsamado antecipadamente o corpo de Jesus, antecipando sua morte e sua ressurreição, antecipando seu corpo glorioso ao lhe conferir, ainda em vida, a glória insensata de ser perfumado por uma mulher apaixonada.
9. Rembrandt é talvez o único pintor, senão a ter se lembrado do episódio do perfume, ao menos a ter sabido recordá-lo na cena do túmulo, estando o vaso de perfume também presente em diversos outros quadros do Noli - onde acompanha Maria Madalena como um de seus emblemas canônicos, inclusive nas pinturas em que aparece sozinha, como as de Raggi, Juan de Flandres ou Lavinia Fontana -, sendo Rembrandt contudo o único a recordar a história do perfume ao colocar a perna e o pé estendido de um dos anjos perto da mão esquerda da mulher, dispostos como que para serem lavados e ungidos.
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A pose do anjo e a substituição do anjo por Jesus conferem à alusão um caráter lúdico, quase como se composta enquanto referência velada, sem que isso a torne menos elaborada em seus pormenores.
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O pé que a mão da mulher poderia tocar estende-se para fora do túmulo, ou antes, marca seu limiar, reunindo a mão, o pé, o vaso e, mais uma vez, o corte da divisão entre sombra e luz nessa área do quadro tudo o que relaciona a cena inteira à da unção.
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“Não me toques, pois já me tocaste e conservo teu perfume sobre mim, assim como ele me conserva na morte, assim como teu embalsamamento me conserva morto e cuida dessa verdade insensata do túmulo. Não me toques - já está feito. Teu precioso perfume derramou-se; deixa-me partir. E tu, por tua vez: vai e anuncia que estou partindo.”
10. Não se deve esquecer, ademais, que, no contexto do sepulcro, esses aromas ou perfumes se destinam a antecipar o que Dostoiévski, em Os Irmãos Karamázov, chamará de “odor de decomposição”, tendo-se dito de Lázaro que, no quarto dia depois de sua morte - um dia a mais do que Jesus - “já cheira mal”, ao passo que Jesus não terá cheirado, tendo o perfume de Maria Madalena antecipadamente exalado seu “odor de santidade”, que é outro aspecto do corpo glorioso.
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“já cheira mal”
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“Ainda não sentimos o odor da decomposição divina? Os deuses também apodrecem. Deus está morto. Deus permanece morto.”
11. Sem dúvida Deus permanece morto, mas a morte de Jesus é ainda assim cuidadosamente distinguida dessa putrefação divina, tanto em seu princípio quanto em seu movimento incessante de autodesconstrução, não fazendo a morte de Jesus reviver Deus, tampouco um homem, falando antes de uma outra morte e de uma outra vida, de uma anástase ou de uma glória que formaria algo como o odor - a sensibilidade, a sensualidade - da morte insensível e irreparável, formando sua “divindade” enquanto sua “feminilidade”, isto é, para retomar essa palavra, sua “santidade”.
12. A santidade, porém, precisa ainda ser vista ou sentida, precisa ainda ser tocada, sendo Maria Madalena a única, aqui, a ter visto os anjos no túmulo, tendo os discípulos que vieram antes dela olhos que não viam nessa escuridão, enquanto ela, por sua vez, vê ali, não dissipando a noite do túmulo, mas vendo nela a presença daqueles que guardam a ausência e a mantêm ausente.
13. Tendo podido olhar para dentro do túmulo, assim como antes já pudera ver o corpo daquele que ainda vivia como já morto e perfumá-lo, ela é agora capaz de ouvir a voz que a chama pelo nome, vendo a vida na morte porque viu a morte na vida - não que uma fosse a verdade da outra, ao contrário, ao separar as duas, a verdade não se deixa reconduzir a uma nem a outra, não se deixando reconduzir absolutamente, não se deixando tocar nem reter.
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Não se trata aqui de ver na escuridão, isto é, apesar dela, como recurso dialético ou religioso, mas de abrir os olhos na escuridão e de ser por ela invadido, ou de sentir o insensível e de ser por ele tomado.
14. Se Maria Madalena é personagem tão singular entre as dos Evangelhos, e por isso tantas vezes pintada como penitente ou arrependida, orando no deserto perto de uma caveira, quase sempre com os cabelos desalinhados e sem véu - sinais tanto de sua vida amorosa quanto de seu gesto aos pés de Jesus, marcando esse gesto estranho tanto de graça quanto de sensualidade -, é por nenhuma outra razão senão esta: ela une carícia e homenagem como vida e morte, como homem e mulher, como leveza e gravidade, como aqui e ali, sem simplesmente ir de um ao outro, mas antes repartindo-os sem misturá-los, um contra o outro, por meio de um tocar que, de si mesmo, se distancia e se impede.
15. De certo modo ela se torna a santa por excelência porque se mantém nesse ponto em que o toque do sentido é idêntico à sua retirada, sendo esse o ponto do abandono: ela se entrega a uma presença que é apenas uma partida, a uma glória que é apenas escuridão, a um odor que é apenas frieza, provindo seu abandono tanto do amor quanto do desalento, sem que um alivie, restaure ou suprassuma o outro, constituindo antes a simultaneidade dos dois o levantamento desse próprio instante - uma elevação que desaparece ao surgir.
