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Lições da História (SZ §§ 76–77)

SMBT

* As lições da história (§§ 76–77)

  • A passagem da investigação da historicidade para a historiologia, compreendida como ciência da história, tem como objetivo demonstrar que a possibilidade mesma da investigação histórica depende do caráter histórico da existência do Dasein, e não de um mero interesse teórico por acontecimentos passados.
    • Se a existência do Dasein é histórica, todas as suas práticas, inclusive a historiografia, estão enraizadas no seu historizar, o que vale tanto para o historiador quanto para o carpinteiro ou o músico.
    • Contudo, a historiologia mantém um vínculo mais específico e essencial com a historicidade, pois a compreensão do passado exige a capacidade de compreender mundos enquanto passados.
  • A possibilidade de compreender o passado depende da estrutura ontológica do ser humano enquanto ser-no-mundo aberto à temporalidade e à passadidade.
    • A passadidade dos fenômenos deriva da passadidade do mundo, e esta, por sua vez, da existência pretérita do Dasein.
    • A investigação histórica pressupõe uma relação existencial prévia com o Dasein que foi, isto é, com a historicidade do próprio historiador.
  • O objeto próprio da investigação histórica não são fatos isolados, mas o Dasein passado enquanto modo de ser-no-mundo.
    • Vestígios, monumentos e documentos só têm sentido histórico enquanto materiais para a revelação concreta de um mundo passado.
    • Compreender o passado é recuperar um modo pretérito de ser-no-mundo, apreendendo suas possibilidades reais e suas limitações efetivas.
  • A história autêntica não se orienta por atualidades factuais, mas por possibilidades existenciais.
    • O verdadeiro objeto da história é uma possibilidade de existência, não um conjunto de ocorrências consumadas.
    • Repetir autenticamente o passado significa tornar disponível, no presente, uma possibilidade existencial herdada.
  • A autenticidade do existir humano pressupõe uma historiologia autêntica.
    • Todo existir autêntico, seja como historiador, artesão ou músico, depende da recuperação crítica das possibilidades herdadas de uma tradição.
    • A crítica do presente, necessária à projeção de um futuro destinado, exige a revelação do verdadeiro legado histórico de uma comunidade.
  • Há uma circularidade essencial entre historizar autêntico e historiologia autêntica.
    • A investigação histórica autêntica pressupõe abertura resoluta ao passado e ao futuro.
    • Revelar uma possibilidade passada como ela realmente foi implica libertá-la das interpretações inautênticas dominantes no presente.
  • A história autêntica permite que passado, presente e futuro se iluminem mutuamente.
    • O historiador, ao revelar o passado como portador das possibilidades reais do presente, prepara o enfrentamento do destino individual e comunitário.
    • A escolha do objeto histórico é determinada pela orientação existencial do historiador em relação ao futuro.
  • A circularidade entre historizar e historiologia pode ser viciosa ou virtuosa.
    • A ausência de autenticidade bloqueia a história genuína e reforça a inautenticidade.
    • A presença da autenticidade possibilita uma historiologia verdadeira e amplia sua eficácia histórica.
  • O início da historiologia autêntica exige a ruptura provocada pela confrontação com a própria finitude.
    • A antecipação resoluta da morte permite ao historiador compreender a inseparabilidade entre destino individual e destino comunitário.
    • A voz da consciência, manifestada na angústia silenciosa, torna possível essa ruptura.
  • O paradoxo da consciência reaparece no âmbito da historiologia.
    • Se o Dasein inautêntico reprimiu sua capacidade de autenticidade, surge a questão de como pode ouvir o chamado da consciência.
    • A solução proposta consiste em admitir uma origem externa da voz da consciência, encarnada na figura do outro que serve de exemplo.
  • A análise das referências a Nietzsche, Dilthey e ao conde Yorck von Wartenburg esclarece esse ponto.
    • A discussão final, aparentemente marginal, mostra como a consciência pode intervir na historiologia por meio da crítica interna entre pensadores.
    • As cartas de Yorck a Dilthey exemplificam uma crítica não coercitiva, orientada às melhores possibilidades internas do pensamento criticado.
  • A relação entre Yorck e Dilthey ilustra o modelo amistoso da consciência.
    • Yorck se apresenta como intérprete do melhor potencial de Dilthey, e não como autoridade superior.
    • A crítica autêntica surge como desenvolvimento interno de possibilidades herdadas.
  • O progresso em direção à autenticidade é essencialmente histórico.
    • A posição de Yorck resulta da repetição crítica de possibilidades do passado orientadas ao destino do presente.
    • A autenticidade do historiador consiste em agir como voz da consciência de sua disciplina e de sua cultura.
  • A repetição histórica autêntica não é mera reiteração do passado.
    • O historiador nunca coincide plenamente com a compreensão passada, mas revela possibilidades inerentes a ela.
    • Essa diferença de situação é condição da compreensão histórica, não sua negação.
  • Heidegger assume implicitamente para si o papel que atribui a Yorck.
    • Ao apresentar Yorck como precursor, ele se coloca como intérprete interno de suas melhores possibilidades.
    • Reconhece, assim, que seus próprios insights dependem de uma herança crítica.
  • A amizade filosófica aparece como condição da superação da inautenticidade.
    • Cadeias de amizade histórica tornam possível a manutenção e o aprofundamento da autenticidade.
    • Não é necessário postular um amigo originário absolutamente autossuficiente.
  • A inautenticidade humana é dominante, mas nunca absoluta.
    • Vestígios de autenticidade persistem em textos negligenciados, instituições decadentes ou figuras marginalizadas.
    • Por isso, o mundo humano jamais perde completamente a capacidade de romper com a repressão da inautenticidade.
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