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estudos:merleau-ponty:sujeito-e-mundo-fp

SUJEITO E MUNDO (1945/2006:489-492)

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Tr. Carlos Alberto Ribeiro de Moura. São Paulo: Martins Fontes, 1999. / Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard, 1945

  • O problema inicial consiste em compreender a relação entre consciência e natureza, interior e exterior, sem reduzir um termo ao outro.
    • A investigação visa superar a oposição clássica entre idealismo, que concebe o mundo apenas como objeto para a consciência, e realismo, que situa as consciências no interior de um mundo objetivo já constituído.
    • A mesma dificuldade reaparece na distinção entre investigações explicativas, voltadas para relações causais, e investigações reflexivas, voltadas para o sentido vivido.
  • Esses problemas podem ser reformulados de maneira mais essencial como a questão da relação entre sentido e não-sentido, tanto no sujeito quanto no mundo.
    • Pergunta-se se o sentido presente no mundo resulta do simples encontro de fatos independentes ou se exprime uma razão absoluta que os unificaria.
    • O sentido é reconhecido quando os acontecimentos aparecem como realização de uma visada única ou quando uma multiplicidade de fatos pode ser retomada por uma compreensão unificadora.
  • O sentido manifesta-se sempre como relação de expressão ou representação, na qual algo existe como representante de outra coisa que não ele mesmo.
    • Uma intenção satisfeita ou uma pluralidade de signos compreendidos como unidade são exemplos dessa experiência do sentido.
    • O idealismo caracteriza-se por conceber toda significação como um ato de Sinngebung, isto é, como produção ativa e centrífuga do sentido pela consciência.
  • Segundo essa concepção idealista, compreender equivale sempre a construir ou constituir o objeto por meio de uma síntese atual.
    • Não haveria signo natural, pois toda significação dependeria de uma operação consciente que a institui.
    • O objeto seria inteligível apenas enquanto resultado dessa atividade sintética.
  • A análise do corpo próprio e da percepção revela, contudo, uma relação ao objeto mais originária do que a significação idealista.
    • A coisa pode ser dita significação, mas a compreensão efetiva de uma coisa não se dá por uma síntese atual operada pelo sujeito.
    • A compreensão ocorre pelo encontro do sujeito com a coisa a partir de seus campos sensoriais, perceptivos e de uma tipicidade geral do mundo.
  • No próprio sujeito descobre-se a presença do mundo, o que impede compreendê-lo apenas como atividade sintética.
    • O sujeito deve ser pensado como ek-stase, isto é, como abertura ou projeção para fora de si em direção ao mundo.
    • As operações ativas de significação aparecem, assim, como derivadas e secundárias em relação a uma pregnância originária de sentido nos signos.
  • Sob a intencionalidade tética ou de ato encontra-se uma intencionalidade operante, anterior a qualquer juízo ou tese explícita.
    • Essa intencionalidade já trabalha silenciosamente como condição de possibilidade de toda significação explícita.
    • Ela pode ser descrita como um Logos do mundo estético, uma arte escondida que só se manifesta por seus resultados.
  • A distinção entre estrutura e significação esclarece-se a partir dessa perspectiva.
    • A Gestalt do círculo é apreendida como fisionomia circular por um sujeito familiar ao seu mundo.
    • A significação círculo, ao contrário, é produzida por um entendimento que a engendra conceitualmente como conjunto de pontos equidistantes de um centro.
  • O acesso ao sentido das coisas exige sempre uma situação perceptiva determinada.
    • Não há outro modo de conhecer um quadro ou uma coisa senão olhando-os a partir de um certo ponto de vista, distância e orientação.
    • A significação revela-se quando a conivência do sujeito com o mundo é colocada a serviço daquilo que aparece.
  • A noção de sentido implica sempre orientação e polarização.
    • O sentido de um córrego, de um movimento ou de uma direção só existe para um sujeito situado.
    • No mundo em si, direções e movimentos não existem, pois são sempre relativos a um habitante do mundo.
  • A percepção funda a possibilidade do movimento e da direção.
    • A terra funciona como solo prévio de todos os repousos e movimentos porque é habitada.
    • Do mesmo modo, a direção só surge quando um olhar traça uma primeira referência no mundo.
  • O mesmo vale para o sentido dos objetos, das frases e da visão.
    • Um tecido só tem sentido para quem pode abordá-lo de diferentes lados.
    • O sentido de uma frase supõe uma intenção que liga um ponto de partida a um ponto de chegada.
    • O sentido da visão é uma preparação originária ao mundo das cores e à lógica.
  • Em todas essas acepções, o sentido remete a um ser orientado para aquilo que não é ele mesmo.
    • Essa orientação conduz à concepção do sujeito como ek-stase e à transcendência ativa entre sujeito e mundo.
    • O sujeito e o mundo são inseparáveis, mas apenas enquanto projetos correlativos.
  • O sujeito é ser-no-mundo e o mundo é subjetivo no sentido ontológico.
    • A textura e as articulações do mundo são desenhadas pelo movimento de transcendência do sujeito.
    • Essa subjetividade do mundo não o torna menos objetivo, mas mais originário do que qualquer objeto isolado.
  • O mundo, entendido como berço das significações e solo dos pensamentos, permite ultrapassar dicotomias tradicionais.
    • Supera-se a alternativa entre realismo e idealismo, entre acaso e razão absoluta, entre não-sentido e sentido.
    • O mundo não é nem produto de um pensamento constituinte nem reunião fortuita de partes.
  • O mundo é a pátria de toda racionalidade.
    • Ele é a unidade primordial de todas as experiências no horizonte da vida.
    • É o termo único de todos os projetos, condição de possibilidade de toda razão e de todo sentido.
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