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estudos:merleau-ponty:subjetividade-fp

SUBJETIVIDADE (1945/2006:463-467)

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Tr. Carlos Alberto Ribeiro de Moura. São Paulo: Martins Fontes, 1999. / Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard, 1945

  • A formulação inicial apresenta a dificuldade conceitual de uma subjetividade originária que não se pensa imediatamente ao existir.
    • A objeção considera que, se a subjetividade não pensa, ela pareceria reduzida a coisa ou força inconsciente.
    • A resposta nega que o Eu primordial se ignore, pois tal ignorância o transformaria em coisa.
    • Recusa-se apenas o pensamento objetivo, entendido como consciência tética de si e do mundo.
  • A recusa do pensamento objetivo implica a rejeição de uma consciência explícita duplicadora da subjetividade originária.
    • Afasta-se a hipótese de uma consciência reflexiva que subtenda o poder originário da subjetividade.
    • A subjetividade originária exerce um poder confuso sobre si e sobre o mundo sem se duplicar em representação.
  • A visão é caracterizada como pensamento de ver em um sentido específico.
    • A visão não é função mecânica nem simples processo fisiológico.
    • Ela é o conjunto significativo que unifica processos e sentido.
    • A visão implica anterioridade do todo sobre as partes e do futuro sobre o presente.
  • A estrutura intencional da visão funda-se em antecipação e projeto.
    • Toda visão supõe intenção e antecipação.
    • O objeto intencional não pode ser dado como totalmente acabado.
    • Há no coração da subjetividade um projeto total ou lógica do mundo.
    • As percepções empíricas determinam esse projeto, mas não o engendram.
  • A visão não é pensamento de ver no sentido reflexivo e constitutivo.
    • A visão não se percebe como autora de sua própria presença.
    • Ela não opera por transparência absoluta a si mesma.
    • Rejeita-se a concepção de uma visão que se liga reflexivamente a seu objeto.
  • A subjetividade deve ser compreendida como inerência ao mundo.
    • O mundo é inseparável das visões sobre o mundo.
    • A subjetividade não é instância separada, mas modo de habitar o mundo.
    • A noção de projeto do mundo define a subjetividade.
  • A crítica à distinção hylè e morphè dissolve a ideia de sensação isolada.
    • Não existe sensação sem comunicação com outras sensações.
    • Não há matéria sensível insignificante aguardando forma.
    • Não existe apreensão encarregada de impor unidade a priori à experiência.
  • A experiência intersubjetiva é exemplificada pela percepção compartilhada da paisagem.
    • Rejeita-se a tese de sensações privadas incomunicáveis.
    • A paisagem não é apenas identidade específica nem numérica abstrata.
    • A percepção não se vive como encerramento em vivências privadas.
  • O gesto apontado revela a copresença no mundo.
    • O gesto do outro não é interpretado como signo interno.
    • Ele mostra diretamente o mesmo objeto percebido.
    • Os gestos invadem o mundo do outro e orientam o olhar.
  • A relação com o outro funda-se no compartilhamento do mesmo mundo.
    • O outro não é concebido como fluxo privado de vivências.
    • A comunicação ocorre através do mundo e da história comuns.
    • O mundo vivido é condição da intersubjetividade.
  • A unidade ideal do mundo é insuficiente para explicar a copresença.
    • A idealidade permite identidade abstrata sem copresença.
    • A distância temporal e espacial dissolve a unidade vivida.
    • A paisagem é a mesma para sujeitos copresentes no tempo e no espaço.
  • A ecceidade do mundo funda a universalidade vivida.
    • A paisagem toca e afeta o sujeito singularmente.
    • Essa afecção singular funda o acesso universal ao mundo.
    • A universalidade emerge no coração da individualidade.
  • O mundo é compreendido como campo de experiência.
    • O sujeito não é instância exterior ao mundo.
    • O sujeito é uma visão do mundo.
    • A qualidade sensível esboça a coisa e a coisa esboça o mundo.
  • Um mundo inacabado exclui um sujeito constituinte absoluto.
    • O mundo nunca está completamente constituído.
    • A abertura do mundo exige uma subjetividade aberta.
    • Rejeita-se a ideia de um sujeito que totaliza o mundo.
  • A unidade do mundo corresponde a uma unidade aberta da subjetividade.
    • A unidade do Eu não é plenamente experimentada.
    • Ela é invocada a cada percepção e evidência.
    • O Eu universal funciona como fundo das figuras da experiência.
  • O Cogito tácito é definido como projeto original do mundo.
    • Ele não se reduz a atos particulares de pensamento.
    • Ele é campo e experiência.
    • É continuidade de uma vida inaugurada pelo nascimento.
  • O nascimento é compreendido como acontecimento transcendental.
    • Não é evento objetivo que se esgota no passado.
    • Ele inaugura uma situação aberta ao porvir.
    • O mundo recebe nova camada de significação.
  • A primeira percepção permanece como tradição viva.
    • Ela é sempre presente como horizonte de experiência.
    • O sujeito pensante permanece essa primeira percepção.
    • A vida é uma única sequência temporal contínua.
  • Rejeita-se a concepção de atos psíquicos isolados.
    • Não há série de Erlebnisse independentes.
    • A experiência é uma coesão de vida.
    • A temporalidade unifica a subjetividade.
  • O Cogito reencontra esse advento originário.
    • A primeira verdade é Eu penso.
    • Isso significa ser para si estando no mundo.
    • A subjetividade é inseparável da mundanidade.
  • A tentativa de isolamento radical conduz ao vazio.
    • A suspensão de todas as crenças revela um fundo inumano.
    • Surge apenas o fantasma de um mundo possível.
    • O interior e o exterior permanecem inseparáveis.
  • A estrutura perceptiva exige coesão e distância.
    • A percepção integra partes sem suprimi-las.
    • A sucessão temporal é condição da melodia.
    • A unidade mantém a diferença.
  • A compreensão do mundo é simultaneamente ativa e passiva.
    • O sujeito compreende o mundo porque está situado nele.
    • O mundo compreende o sujeito porque o envolve.
    • Trata-se de um mesmo ponto de vista.
  • A situação é condição da subjetividade.
    • A subjetividade não é relação apenas pensada.
    • Ela realiza sua ipseidade sendo corpo.
    • O corpo é mediação essencial com o mundo.
  • A essência da subjetividade coincide com corpo e mundo.
    • A subjetividade concreta é inseparável do corpo-aqui.
    • Ela é inseparável do mundo-aqui.
    • Mundo e corpo ontológicos habitam o coração do sujeito.
  • O mundo e o corpo reconhecidos não são ideias abstratas.
    • São o mundo contraído em apreensão global.
    • São o corpo como corpo cognoscente.
    • A subjetividade é essa contração viva do ser.
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