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NÃO HÁ CAUSALIDADE ENTRE SUJEITO E CORPO, MUNDO, SOCIEDADE (1945/2006:496-499)

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Tr. Carlos Alberto Ribeiro de Moura. São Paulo: Martins Fontes, 1999

  • Impossibilidade fundamental de uma relação causal entre sujeito e mundo
    • A relação causal entre sujeito e corpo, mundo ou sociedade é inconcebível, pois implicaria tratar o sujeito como coisa entre coisas.
    • A admissão de causalidade exterior destruiria o fundamento de todas as certezas, que repousa na presença do sujeito a si mesmo.
    • A determinação exterior exigiria um sujeito objetivável, o que contradiz sua estrutura enquanto consciência.
  • Descrição fenomenológica do sujeito como fluxo anônimo e projeto global
    • A reflexão dirigida ao sujeito não encontra estados de consciência nem qualificações determinadas.
    • O sujeito se revela como fluxo anônimo e projeto global anterior a toda determinação psicológica ou social.
    • Qualificações como ciumento, curioso, corcunda ou funcionário pertencem apenas a um saber objetivo secundário, não à experiência originária de si.
  • Consciência como impossibilidade de auto-objetivação
    • O enfermo ou o moribundo não se vive como doente ou moribundo, mas como consciência em exercício.
    • A consciência nunca se dá a si mesma como consciência-de-doente ou consciência-de-enfermo.
    • A objetivação de si ocorre apenas pela mediação do olhar de outrem ou pela comparação social.
    • Essas autodescrições objetivas são sempre parciais e marcadas por uma forma de má-fé inevitável.
  • As qualificações como formalidades existenciais e não como determinações reais
    • As determinações factuais são aceitas como condição de estar-no-mundo, sem afetar o núcleo da consciência.
    • São assumidas sem drama, como formalidades inevitáveis da existência encarnada.
    • A possibilidade de criticar o próprio rosto sem desejar trocá-lo ilustra a distância entre consciência e qualificações.
  • Universalidade da consciência e poder ilimitado de evasão
    • Nenhuma particularidade pode ser essencialmente ligada à consciência.
    • Nenhum limite pode ser imposto ao poder de evasão próprio da consciência.
    • A consciência permanece sempre além de suas determinações empíricas.
  • Argumento da liberdade absoluta e indivisível
    • Não é concebível uma liberdade parcial ou intermitente.
    • Ser livre uma única vez implica ser livre sempre.
    • A hipótese de uma liberdade suspensa ou ociosa é incoerente.
    • Se uma ação deixa de ser própria ao sujeito, nenhuma ação futura poderá sê-lo novamente.
  • Rejeição radical da noção de motivação
    • Motivos não possuem força causal própria sobre a decisão.
    • A decisão é que confere peso e sentido aos motivos.
    • A noção de motivo pressupõe uma decisão prévia que ele confirma ou contraria.
    • Toda determinação natural ou histórica só existe enquanto reconhecida e assumida.
  • Identidade social, alteridade e liberdade
    • Determinações como belo, judeu ou corcunda não são plenamente assumidas para si, mas existem primariamente para os outros.
    • O sujeito permanece livre para reconhecer o outro como consciência ou reduzi-lo a objeto.
    • Mesmo quando a alternativa é constrangedora, a escolha permanece estruturalmente livre.
  • Constrangimentos existenciais e ilusão de limitação da liberdade
    • Certas alternativas são dadas pela condição humana, como sadismo ou masoquismo.
    • Essas alternativas não suprimem a liberdade, pois a escolha permanece escolha.
    • A liberdade não se mede pelo número de possibilidades, mas pela estrutura da decisão.
  • Temperamento como construção retrospectiva
    • O temperamento só existe enquanto saber objetivo mediado pelo olhar de outrem.
    • Só adquire realidade quando reconhecido e assumido.
    • Não pode funcionar como explicação causal das decisões.
  • Crítica da deliberação voluntária
    • A deliberação não precede a decisão, mas dela decorre.
    • Os motivos aparecem e desaparecem conforme a decisão já tomada.
    • A deliberação é frequentemente uma encenação posterior da decisão.
    • A sensação de libertação após renúncia revela que a decisão já estava tomada.
  • Impotência da vontade como falso argumento contra a liberdade
    • O ato voluntário é frequentemente um ato fracassado.
    • Só se recorre à vontade quando a decisão verdadeira não foi assumida.
    • Assumir verdadeiramente um projeto equivale a realizá-lo.
  • Obstáculos como desdobramentos da liberdade
    • Um obstáculo só existe em função de um projeto.
    • O rochedo só é intransponível para um sujeito que projeta transpô-lo.
    • A liberdade recorta sentido e valor no em-si indiferenciado.
    • Não há ação das coisas sobre o sujeito, apenas produção de sentido.
  • Conclusão: alternativa final
    • Ou se aceita uma causalidade cientificista incompatível com a consciência,
    • Ou se afirma uma liberdade absoluta sem exterior.
    • Não existe ponto intermediário onde algumas coisas estariam sob o poder do sujeito e outras não.
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